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Na França, é comum oferecer no jantar um copo de iogurte, não importa se em uma refeição regular ou mais sofisticada. “A vaca na França não tira férias. Aqui a produção é contínua”, diz em tom de brincadeira Jeremy Wood, diretor de uma das fábricas da Danone, em Bailleu, na região de Hauts-de-France, no norte do país, a poucos passos da fronteira com a Bélgica. Bailleu é um município pacato, com forte herança flamenga e uma tradição agrícola e laticinista estratégica para a indústria leiteira.
Não por acaso a Danone mantém aí uma de suas instalações centenárias. A França é o segundo maior mercado de iogurtes da Europa, atrás apenas da Alemanha, mas lidera em consumo per capita: são mais de 21 quilos por habitante por ano, segundo dados da associação francesa de laticínios Syndifrais. O produto é parte da rotina alimentar dos franceses desde a infância e atravessa gerações como item essencial no café da manhã, no lanche escolar e nas sobremesas domésticas. Na França, 90% dos lares consomem iogurte. A categoria é considerada estratégica pelas autoridades de saúde e é uma das poucas a figurar em todas as refeições. E na base dessa cadeia de consumo está uma operação industrial que combina escala, tecnologia e origem local da matéria-prima.
A unidade da Danone em Bailleul é um desses centros estratégicos. A foto que abre a reportagem é a entrada do laticínio e uma homenagem às personagens iniciais de todo o processo da unidade: as vacas leiteiras. A fábrica é responsável pela produção de marcas como Danone, Activia, Danette e diversos queijos frescos. São cerca de 5 milhões de potes de iogurte e sobremesas processados diariamente, com base em 220 milhões de litros de leite por ano. Toda a matéria-prima vem de fazendas situadas em um raio de 60 quilômetros.
“Estamos constantemente transformando a fábrica. Ela tem 100 anos. A única forma de sobreviver é reinventando a fábrica”, afirma Wood. Em 2024, ela foi a primeira unidade da Danone no mundo a migrar a produção para embalagens PET recicláveis. “O investimento nessa linha foi de 3 milhões de euros (R$ 19,5 milhões na cotação atual), dentro de um total de mais de 18 milhões (R$ 120 milhões) aplicados nos últimos cinco anos.”
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Jeremy Wood, diretor da fábrica da Danone, em Bailleu
Em todo o país, a Danone possui 25 unidades em 13 regiões e mantém parceria com cerca de 2 mil produtores de leite. Na região de Bailleu são 408 produtores. Deles, a fábrica recebe diariamente entre 14 e 16 caminhões-tanque carregados com leite cru. O controle de qualidade começa ainda nas fazendas, com testes obrigatórios de antibiótico. Na chegada à planta, novas amostras são avaliadas antes da liberação para o descarregamento. “Temos um controle duplo. O primeiro é feito pelos produtores. Depois são realizadas novas análises no laticínio”, afirma Wood.
O processo é contínuo e sincronizado. Do recebimento do leite ao produto final pronto para expedição, tudo precisa acontecer em até 24 horas. A operação envolve pasteurização, fermentação, envase e expedição em ciclos just-in-time. Qualquer interrupção na linha afeta a produção. “Se a linha parar por 15 minutos entre uma fase e outra, eu perco tudo. O verão é ainda mais crítico, porque o leite chega com menor teor de gordura e proteína”, diz o diretor.
A explicação está na fisiologia animal e na dieta das vacas, que varia ao longo do ano. No verão, com pasto mais seco e temperaturas elevadas, o leite tende a ter menos sólidos. “A qualidade não é ruim, mas os parâmetros mudam. Como acontece com as pessoas, que no calor preferem saladas e comidas leves, a alimentação das vacas também impacta o perfil do leite.”
O iogurte ocupa uma posição central na cadeia. Ao contrário de outros derivados, ele é fermentado dentro da própria embalagem. O leite pasteurizado é transferido para potes, que passam por salas de fermentação com temperatura controlada de 37°C, por até nove horas. Essa etapa transforma o leite líquido em um produto sólido e acidificado, com maior resistência a variações de temperatura e prazos curtos de prateleira.
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Linha de produção totalmente automatizada
Como segundo maior produtor de leite na Europa, a França possui cerca de 44 mil fazendas produtoras e 730 unidades processadoras, empregando cerca de 300 mil pessoas. De acordo com o relatório de mercado da “France Dairy Market Insights Forecasts to 2033”, o atual patamar de cerca de US$ 23,64 bilhões (R$ 130 bilhões) deve alcançar US$ 34,16 bilhões até 2033 (R$ 190 bilhões).
Nesse mercado local, os principais concorrentes nacionais da Danone são a Lactalis (Président, Lactel), a Sodiaal (Yoplait, Candia) e a Savencia (Elle & Vire, St Môret). No cenário internacional, ela disputa o mercado local com grupos como Nestlé e Unilever.
Especializações conectadas
Em Bailleu, a linha do Danette, sobremesa à base de leite e chocolate, segue outro caminho no laticínio da Danone. Em vez de fermentação, o produto passa por esterilização, mas a 130°C (vale registrar que no Brasil, o termo esterilização está ligado ao leite UHT, processado em temperatura mais alta). No caso do Danette, o creme extraído do leite é parcialmente comercializado e parcialmente utilizado nas sobremesas. Parte significativa dos SKUs da planta é composta por variações de sabores e tipos de potes. São cerca de 250 códigos ativos no sistema de produção.
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Linha de produção do Danette
No terço final do processo, as oito linhas de envase funcionam em alta velocidade. Cada uma produz entre 40 mil e 43 mil potes por hora. Toda a planta é automatizada, do processamento ao empilhamento das caixas. A expedição também opera em ritmo contínuo. De 30 a 35 caminhões saem todos os dias da unidade para abastecer redes varejistas, centrais logísticas e exportação. O estoque é mínimo, com capacidade para dois a três dias de operação.
O laboratório próprio realiza análises microbiológicas, físico-químicas, organolépticas e de integridade de embalagens. A verificação começa no leite e segue até o produto final. “Testamos em todas as etapas: leite cru, leite pasteurizado, iogurte fermentado, embalagem. O laboratório funciona sete dias por semana”, afirma Wood.
A fábrica também investe na eficiência energética. Três antigos geradores de vapor foram substituídos por um único sistema mais moderno. Parte da energia é fornecida por usinas nucleares da região, o que exige ajustes constantes nas variáveis de temperatura e isolamento térmico dos equipamentos. A redução de consumo e a transição para plásticos recicláveis fazem parte da estratégia da Danone para atingir a meta de neutralidade de carbono.
Outra frente da operação é o controle do leite durante a logística e a rastreabilidade completa da matéria-prima garante o cumprimento de requisitos de segurança alimentar em toda a cadeia. “O leite é um produto sensível. Como na sua geladeira, se ficar fora da temperatura ideal, ele estraga. Por isso tudo precisa ser rápido, preciso e rastreável”, diz Wood. Para ele, o sucesso da unidade depende da integração com os produtores locais, da agilidade logística e da automação dos processos.
Fundada em Paris em 1919, a Danone está diretamente ligada à história do iogurte na França. Criada por Isaac Carasso para vender iogurtes medicinais em farmácias, a empresa transformou o produto em item de consumo diário. “O nosso papel é garantir que esse produto continue fazendo parte da vida das pessoas todos os dias, com qualidade, velocidade e custo controlado”, afirma Wood.