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A cada década, o Vale do Silício elege uma nova promessa de salvação. Já foram as “pontocom”, depois o blockchain, o metaverso e, agora, a inteligência artificial. O roteiro é familiar: nasce uma revolução tecnológica, o capital corre atrás, os valuations disparam e, em algum ponto, a realidade começa a cobrar coerência. Estamos vivendo esse momento com a IA.
Um artigo recente da Yale School of Management, assinado por Jeffrey Sonnenfeld e Stephen Henriques, alerta para o que chama de “sinais de uma perigosa superexposição”. Basta seguir o dinheiro para entender.
OpenAI, Nvidia, Microsoft, AMD e Oracle formam hoje uma teia de investimentos cruzados que movimenta centenas de bilhões de dólares. A OpenAI, por exemplo, anunciou um contrato de US$ 300 bilhões com a Oracle para poder computar seus modelos — um valor que representa mais de vinte vezes sua receita estimada para 2025. No mesmo ecossistema, Nvidia investe na OpenAI, fornece chips para a Microsoft, que é acionista da OpenAI e cliente de outra empresa, CoreWeave, também controlada pela Nvidia. Um círculo que lembra a lógica de 2008: poucos players, muita interdependência e risco sistêmico disfarçado de sinergia.
Os próprios protagonistas já admitem o exagero. David Solomon, CEO do Goldman Sachs, disse recentemente que “muito capital foi investido sem retorno”. Jeff Bezos chamou o momento de “bolha industrial”. Sam Altman, o rosto mais conhecido dessa nova era, reconheceu que “as pessoas vão superinvestir e perder dinheiro”. Quando os otimistas começam a pisar no freio, é sinal de que o ciclo está virando.
Desde o lançamento do ChatGPT, empresas de IA foram responsáveis por 75% dos retornos do S&P 500, 80% do crescimento de lucros e 90% dos novos investimentos de capital, segundo o JP Morgan Asset Management. A Pitchbook mostra que, só no primeiro semestre de 2025, dois terços do venture capital americano foram destinados a startups de IA, um salto que, historicamente, antecede as quedas mais duras.
Há ainda um desconforto técnico que o mercado prefere ignorar. Pesquisas da Apple e do MIT sugerem que parte do desempenho dos modelos vem da chamada “data contamination” — quando os dados de treino contêm as respostas dos testes, produzindo um aprendizado artificialmente inflado. Em termos simples: é como medir a inteligência de quem fez a prova com a cola na mão. Resultado? Benchmarks espetaculares, mas pouca capacidade real de generalização. Segundo o MIT, 95% das empresas que investiram entre US$ 30 e 40 bilhões em IA generativa não obtiveram retorno.
Sonnenfeld e Henriques descrevem três caminhos possíveis para o estouro da bolha:
O primeiro é a contaminação por concentração: se um dos grandes players cair, o efeito dominó pode ser devastador.
O segundo é o colapso de governança, semelhante ao que vimos na FTX: um caso em que o brilho da inovação ofuscou a falta de transparência.
O terceiro é o mais irônico: a própria inovação como força de destruição. Se um avanço em chips ou computação quântica tornar obsoleta a infraestrutura atual, trilhões investidos em data centers podem virar capital ocioso da noite para o dia.
O investidor Alan Patricof resumiu com lucidez: “A revolução da IA é real — mas os valuations são ilusórios.” O problema não é a tecnologia em si, mas o descompasso entre o ritmo da narrativa e o ritmo da entrega. As empresas e investidores estão apostando em um futuro que ainda não existe, enquanto a economia real tenta entender onde, exatamente, a IA cria valor sustentável.
Charles Mackay, no clássico de 1841 ‘Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds’, escreveu que “os homens enlouquecem em rebanhos e apenas recuperam a razão lentamente, um a um.” É exatamente isso que acontece quando confundimos avanço tecnológico com milagre econômico.
A inteligência artificial está transformando o mundo, mas não há algoritmo capaz de alterar uma lei fundamental dos mercados: toda bolha nasce do excesso de fé — e morre do encontro com a realidade. A pergunta que define o mercado hoje não é o que a IA pode fazer, e sim quanto tempo podemos sustentar a crença antes que a realidade cobre o preço.
Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona integrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva, Iona atuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício. Iona é também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.
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