O setor agropecuário brasileiro atravessa um período marcado por juros elevados, custos de produção pressionados por tensões geopolíticas e uma queda no preço das commodities. Esse cenário de incertezas, potencializado pelo aumento nos pedidos de recuperação judicial (RJ) no setor, tem elevado a percepção de risco por parte das instituições financeiras, tornando o acesso ao crédito mais rigoroso.
No entanto, para o consultor financeiro e especialista em agronegócio Pablo Padilha, o momento exige estratégia e não deve ser confundido com uma crise generalizada do setor. Em entrevista ao programa Estúdio Rural, Padilha destaca que o agronegócio continua sendo o motor da economia brasileira, mantendo altos níveis de exportação e eficiência.
Para ele, o desafio atual reside na desconexão entre a realidade produtiva do campo e a visão do mercado financeiro, muitas vezes sediado em centros urbanos como a Faria Lima. Segundo o especialista e CEO da Cofan, o produtor que deseja reduzir custos precisa focar também na gestão “da porteira para fora”, profissionalizando a forma como apresenta seus números ao mercado.
A elevação de aproximadamente 56% no número de pedidos de recuperação judicial no último ano acendeu um alerta no mercado de crédito. Embora os cerca de 2 mil pedidos representem uma parcela pequena do total de produtores, o impacto na confiança dos credores é significativo. “O mercado financeiro atribui uma percepção de risco muito maior do que é o nosso agro. O nosso agro é muito melhor do que ele está parecendo hoje”, avalia Padilha.
Percepção de risco e o impacto das RJs
Para o consultor, essa visão distorcida ocorre porque as instituições financeiras tendem a generalizar problemas regionais ou climáticos. Muitas vezes, os tomadores de decisão não conseguem enxergar a realidade de cada um desses produtores. Enxergar essa realidade, conforme ele, é estar presente no campo e desenhar uma operação para cada característica específica.
A solução imediata para enfrentar o crédito caro, segundo Padilha, é a organização. Ele defende que o produtor rural deve ser tratado como uma empresa, com foco em performance de caixa e lucratividade. Para atrair recursos com taxas menores, é fundamental que o produtor consiga transmitir clareza sobre seus dados financeiros, custos de produção e investimentos.

“O quanto o produtor está organizado da porteira para dentro reflete em uma diminuição de custo. O produtor precisa ter um DRE bem feito e, muitas vezes, trazer alguém para fazer uma auditoria nesses números para dar mais credibilidade perante o mercado financeiro”, orienta. De acordo com o especialista, essa transparência permite diferenciar o produtor organizado daqueles em risco real.
Mesmo com a taxa Selic em patamares elevados, existem mecanismos para sofisticar a captação de recursos e fugir das linhas convencionais. Padilha menciona que o uso de derivativos e a diversificação de moedas são caminhos viáveis. “O crédito certo tem que chegar na hora certa e dentro de um custo viável. Esse custo tem que estar atrelado à margem que ele está gerando”, afirma ao programa do Canal Rural Mato Grosso.
Foco na gestão para atravessar o cenário externo
O consultor ressalta que essas estratégias não são exclusivas de grandes grupos agrícolas. Produtores de todos os tamanhos e regiões podem implementar níveis de governança que melhorem sua classificação de risco. “Tem grupos pequenos que são organizados há muitos anos, que são auditados e têm estratégia de tomada de crédito. Tem gente que está fazendo e mostrando que dá certo. E a gente tem que replicar isso para todos”, pontua o CEO da Cofan.
Apesar de fatores externos como a guerra influenciarem o preço do óleo diesel e dos fertilizantes, Padilha reforça que o produtor tem gerência sobre sua eficiência financeira. A recomendação final é dedicar tempo e energia para a gestão dos números, visando não apenas novas captações, mas também o alongamento de passivos já existentes com melhores condições.
Essa mudança de postura é vista como essencial para garantir a rentabilidade e a segurança para as próximas safras. “Sempre é possível reduzir custo de captação financeira, sempre. O produtor sempre vai ter oportunidades de melhorar a sua eficiência financeira”, conclui o consultor.
Para ele, a capacidade de demonstrar que uma propriedade possui uma composição financeira sólida é o que garantirá a competitividade necessária no mercado atual. A profissionalização da porteira para fora surge como a ferramenta mais eficaz para o produtor rural que busca se proteger da volatilidade do mercado financeiro e dos custos operacionais crescentes.
+Confira mais entrevistas do programa Estúdio Rural
+Confira outras entrevistas do Programa Estúdio Rural em nossa playlist no YouTube
Clique aqui, entre em nosso canal no WhatsApp do Canal Rural Mato Grosso e receba notícias em tempo real.
O post O crédito está caro, mas existem maneiras de reduzir o custo, diz especialista apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.