Quando perguntamos a produtores em 519 municípios de 19 estados o que eles entendem por “agricultura regenerativa”, 52,1% disseram que não sabem o que o termo significa. Mas quando perguntamos o que fazem no campo, 78,9% praticam plantio direto, 75,3% usam cobertura de solo e 66,4% fazem rotação de culturas.
Existe um abismo entre o vocabulário e a prática. E esse abismo não é um problema do produtor. É um problema de quem comunica, de quem faz política pública e de quem desenha mercado.
A pesquisa
A Agrosmart, em parceria com a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), CNH e 4Lab, realizou o maior levantamento nacional sobre o status da agricultura regenerativa no Brasil.
A amostra cobre uma diversidade ampla de cultivos e sistemas produtivos: soja, milho, café, cana, frutas, hortaliças, pecuária de corte e leite, em propriedades de todos os portes e nos principais biomas brasileiros.
O que encontramos desafia a narrativa dominante de que o agro brasileiro precisa “começar” uma transição. Ele já está no meio dela.
Os números que importam
O produtor pratica, mas não é reconhecido. 79,2% nunca receberam qualquer incentivo financeiro por práticas regenerativas. Nem financiamento diferenciado, nem prêmio de preço, nem certificação. O mercado cobra, mas não paga.
As barreiras são sistêmicas, não individuais. 57,1% dos produtores apontam falta de conhecimento técnico como principal barreira. 41,4% citam incerteza sobre retorno financeiro. 41,9% dizem que não existe mercado ou preço justo. Não é resistência: é falta de infraestrutura de apoio.
As práticas mais complexas ainda não decolaram. A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), considerada o “ouro” da regeneração, tem apenas 11,5% de adoção. Agrofloresta está em patamar semelhante: 11,0%.
São sistemas que exigem assistência técnica qualificada, investimento inicial alto e retorno de longo prazo. A baixa adesão não é resistência ideológica: é falta de condições práticas para implementar.
O impacto é sentido, mas não medido. 70,8% dos produtores relatam melhora na fertilidade do solo e 58,3% percebem mais resiliência climática. Mas 50% dizem que o maior desafio é medir esse impacto. Sem mensuração, não há como monetizar. Sem monetização, não há incentivo para escalar.
O que o mercado precisa entender
Quando 62,6% dos produtores dizem que adotariam práticas regenerativas se houvesse mercado favorável, e ao mesmo tempo quase 70% pedem assistência técnica como prioridade número um, temos um mapa claro do que precisa acontecer:
- 1. Instrumentos financeiros atrelados a práticas verificáveis, não a certificações caras e inacessíveis (apenas 10,1% dos produtores têm alguma certificação hoje).
- 2. Assistência técnica descentralizada e digital, que chegue nos 519 municípios, não só nos polos de inovação.
- 3. Métricas de impacto simples e padronizadas, que permitam ao produtor provar o que já faz e ao mercado precificar o que já existe.
O Brasil como potência regenerativa
69,2% dos produtores acreditam que a agricultura regenerativa vai crescer. Mas quase metade (49,2%) acha que será devagar.
Eu discordo da maioria. Acredito que o Brasil pode acelerar esse processo se pararmos de tratar regeneração como “a próxima onda” e reconhecermos que ela já está acontecendo, em escala, com produtores que simplesmente não usam esse nome.
A oportunidade não é evangelizar. É conectar: conectar quem já faz com quem precisa medir, com quem pode pagar, com quem sabe como escalar.
A distância entre o que o produtor já faz e o que o mercado quer valorizar é menor do que o vocabulário sugere. O agro brasileiro não precisa de mais conceitos importados, precisa de quem construa essa ponte.
*Mariana Vasconcelos, é produtora rural, co-fundadora e CEO da Agrosmart. É também Young Global Leader pelo World Economic Forum, Membro da Comissão de Segurança Alimentar da Fundação Kofi Annan e conselheira consultiva da Thought For Food, Fundação Espaço Eco (BASF) e Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA). Tem formação executiva em negócios pela UNIFEI, Stanford, LSE e Singularity University.
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