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Se 2023 foi o ano do hype e 2024 o da adoção, 2025 será lembrado como o ano da inevitabilidade. A IA se tornou infraestrutura, reorganizando processos, mercados e expectativas. Mas o que realmente marcou esses últimos doze meses não foi a tecnologia em si — e sim o que ela revelou sobre nós: a pressa com que forçamos a maturidade dos jovens, a vulnerabilidade da verdade no ambiente digital e a necessidade urgente de reposicionar o Brasil como protagonista na economia da inovação.
IA como infraestrutura invisível da economia
A grande virada de 2025 não foi tecnológica, mas organizacional. As empresas finalmente entenderam que IA não é um projeto, é uma infraestrutura. Os copilots tornaram-se onipresentes: escrevem, resumem, analisam, corrigem, negociam. Agentes autônomos começaram a sair dos laboratórios e a assumir funções inteiras, não tarefas isoladas. E, com isso, processos foram repensados do zero.
O debate deixou de ser “adotar IA” para se tornar “quem se torna a empresa quando a IA assume o operacional?”. A resposta — como escrevi ao analisar Mike Walsh e o novo perfil de liderança pós-disrupção — é que organizações precisarão de líderes que naveguem ambiguidade, ética e complexidade com mais maturidade do que técnica.
A adultização entrou no vocabulário global — e não foi por acaso
Nenhuma mudança de 2025 foi tão profundamente humana quanto o súbito reconhecimento de um fenômeno que há anos nos inquietava: a *adultização* . A palavra finalmente ganhou escala global. Educadores, pais, plataformas e formuladores de políticas começaram a admitir o que adolescentes já sabiam, que crescer na era digital significa performar maturidade antes do tempo, diante de uma plateia infinita.
A série *Adolescence* catalisou conversas, mas o que a consolidou como pauta foi algo maior: o cansaço coletivo com a pressão estética, emocional e comportamental imposta pelas redes. A superexposição virou regra, a vulnerabilidade virou conteúdo e a comparação virou vício. Como escrevi em meu artigo recente sobre o tema (link), 2025 foi o ano em que o mundo percebeu que proteger adolescentes não é bloquear tecnologia, mas redesenhar ambientes digitais para respeitar o tempo do desenvolvimento humano.
Segurança, identidade e a crise da realidade digital
2025 também marcou o início da era em que a realidade se tornou discutível. Deepfakes deixaram de ser truques pontuais para se transformar em instrumentos cotidianos de desinformação, manipulação e fraude. A confiança, um ativo essencial de qualquer sociedade, entrou oficialmente na lista de bens escassos.
Empresas de mídia, governos e plataformas passaram a adotar “camadas de autenticidade”, tecnologias de verificação e rastreabilidade para recuperar, ao menos parcialmente, a noção de que ver não é suficiente para acreditar. Essa crise de identidade digital não é superficial: toca política, economia, reputação e, sobretudo, nossas relações pessoais. O futuro exigirá literacia digital emocional e técnica, para jovens e, talvez principalmente, para adultos ainda presos à lógica analógica.
O Brasil no mapa global da inovação
Enquanto isso, o Brasil viveu seu ano mais estratégico na inovação. O Marco Regulatório da IA avançou sob intenso diálogo entre governo, empresas e sociedade civil. O ano de 2025 foi finalmente o ano em que o ecossistema brasileiro entendeu seu papel como formulador, não apenas consumidor, de tecnologia. Startups nacionais de IA ganharam destaque internacional, hubs como São Paulo, Goiânia, Recife e Florianópolis consolidaram-se e nossa presença em arenas globais deixou claro que o país não é coadjuvante nessa história.
O que 2025 nos deixa para 2026
No fim, 2025 não foi um ano de espetáculo, foi um ano de reconhecimentos. Reconhecemos que a IA agora é infraestrutura. Vimos que nossos adolescentes vivem sob pressões inéditas. Entendemos que a verdade digital exige novas defesas. E percebemos que o Brasil está pronto para ocupar um lugar maior no mapa da inovação.
Os aprendizados de 2025 são claros: IA é base, confiança é ativo, educação emocional é prioridade. O desafio de 2026 será transformar cada insight em política pública, estratégia corporativa e compromisso social.
2026 herdará essas certezas e trará suas próprias frentes: a disputa energética da IA, a guerra dos chips, o debate sobre autonomia algorítmica e os efeitos do imenso investimento das Magnificent 7. Mas, por ora, fica a lição de 2025: a tecnologia não está mais do lado de fora. Ela é o ambiente em que todos vivemos e a maturidade com que lidamos com ela definirá o mundo que construiremos daqui para frente. O resto é consequência.
Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona integrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva, Iona atuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício. Iona é também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.
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