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O agronegócio brasileiro, historicamente associado à terra, produção e tradição familiar, vive hoje uma transformação. Sem abandonar suas origens, o setor reinventa a forma de gerir riqueza e sucessão.
Famílias do agro estão aderindo aos modelos de “Family Office”, estruturas de governança patrimonial até então associadas a grandes dinastias urbanas e financeiras, e trazem esse conceito para a porteira.
O que são Family Offices?
Um family office é essencialmente uma plataforma estruturada para organização, proteção e multiplicação do patrimônio familiar. Pode assumir a forma de Single Family Office (dedicado a uma única família) ou Multi Family Office (atendendo várias).
Suas funções vão além da gestão financeira: englobam governança, planejamento sucessório, estruturação tributária, proteção jurídica e investimento em diversas classes de ativos.
Por que o agro está aderindo?
O crescimento acelerado do patrimônio agropecuário, acompanhado pelo aumento da complexidade econômica e regulatória, impõe uma gestão de ativos mais sofisticada.
Se antes a principal preocupação era a produção, hoje, surge um leque ampliado de desafios: proteção patrimonial contra riscos de mercado e litígios; planejamento sucessório para evitar impasses e disputas entre gerações; e diversificação de investimentos além da “porteira”, com incursões em tecnologia, energia renovável, fundos internacionais e ativos alternativos.
A migração de poder para a segunda ou terceira geração, muitas vezes distante da operação rural, requer profissionalização da governança. Aqui, o Family Office surge como elo entre tradição e modernidade.
Vantagens estratégicas para o setor
- Blindagem financeira e patrimonial frente a crises e volatilidade de preços agrícolas.
- Governança corporativa e familiar estruturada, com transparência e profissionalização.
- Continuidade da sucessão com menores riscos de disputas internas.
- Planejamento de doação e herança de modo eficiente para o fisco.
- Ampliação da atuação global, conectando o agro brasileiro a mercados e investimentos externos.
Tendência irreversível
Conforme levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o número de Family Offices e Multi‑Family Offices no Brasil saltou de aproximadamente 80 entidades em 2020 para 146 em 2023.
Paralelamente, o setor de agronegócio brasileiro representa cerca de 23,8% do PIB nacional em 2023. Essas estatísticas indicam claramente que o agro não poderia ficar de fora dessa evolução patrimonial.
Conclusão
O agro sempre soube cultivar. Primeiro a terra, agora também o patrimônio e o futuro. Ao adotar os Family Offices, o setor demonstra que tradição e modernidade não são opostos, mas complementares.
No campo, a nova safra não se colhe apenas nos grãos: está também na gestão inteligente de legados.
*Flávia Raucci Facchini é pecuarista e gestora da Agroalvorada, nas fazendas Alvorada, Fortaleza e São José, empresa familiar com atuação na criação de gado nelore, com foco na sustentabilidade e na gestão eficiente.
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