31/05/2026

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Nem Trump Consegue Segurar a Disparada da Carne e Crise Atinge Churrasco dos EUA

Uma escassez histórica de gado nos Estados Unidos elevou a carne bovina no atacado a níveis recordes, atingindo churrascarias e casas especializadas em carne, desde tradicionais estabelecimentos de churrasco do Texas até redes de alto padrão do Meio-Oeste dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, operações de menor custo, como a Texas Roadhouse e a Outback Steakhouse, estão crescendo mesmo sob essa pressão.

Principais fatos

Os preços dos bifes subiram 17%, chegando a US$ 28,70 por quilo (R$ 160 na cotação atual) em um ano, enquanto a carne moída atingiu o recorde de US$ 15,21 por quilo (R$ 85), alta de 19% em relação ao ano anterior, segundo dados de abril do Banco da Reserva Federal de St. Louis.

O rebanho bovino dos Estados Unidos caiu para o menor nível em 75 anos, segundo o Texas Farm Bureau, impulsionado pela seca, escassez de mão de obra, redução das áreas de pecuária e elevados custos operacionais.

O peito bovino (brisket) no atacado no Texas subiu cerca de 28% em relação ao ano anterior, com a Roegels Barbecue Co., sediada em Houston, passando a pagar US$ 12,26 por quilo (R$ 68,60) e elevando em 6% o preço do brisket no cardápio para US$ 77 por quilo (R$ 433), segundo o Washington Post.

A Burnt Bean Co., em Seguin, no Texas, também elevou o preço do brisket para US$ 83,80 por quilo (R$ 470) e poderá em breve restringir a venda do produto a apenas um dia por semana, segundo o Post.

Entre os estabelecimentos de churrasco do Texas que encerraram atividades neste ano estão Brett’s BBQ Shop, Kirby’s BBQ, Sabar BBQ, Wright on Taco & BBQ e Sweetie Pie’s Ribeyes, de acordo com o Washington Post.

No Meio-Oeste e na região do Meio-Atlântico dos Estados Unidos, o pedido de recuperação judicial sob o Capítulo 11 da 801 Chophouse, anunciado em abril, afetou oito restaurantes localizados entre os Estados da Virgínia e do Colorado.

Contraponto

Nem todas as operações especializadas em carne estão enfrentando dificuldades: a Bloomin’ Brands, proprietária da Outback Steakhouse, superou as estimativas de lucro, anunciado em 6 de maio, registrando lucro diluído ajustado por ação de US$ 0,67 (R$ 3,40), acima da estimativa de US$ 0,58 (R$ 2,90), sobre receita de US$ 1,0597 bilhão (R$ 5,36 bilhões), fazendo suas ações subirem 40% em um único dia.

A Texas Roadhouse, com cerca de 750 unidade no país, registrou crescimento de receita de 12,8%, ultrapassando US$ 1,6 bilhão (R$ 8 bilhões), com avanço de 7,1% nas vendas em mesmas lojas e crescimento de 4,5% no fluxo de clientes.

O diretor financeiro Michael Bailen afirmou que os consumidores estão migrando para opções mais econômicas do cardápio, incluindo carne suína, frango e cortes bovinos mais baratos, estratégia que restaurantes de padrão mais elevado não conseguem reproduzir com facilidade.

Aumento nos preços da carne bovina e maior demanda criam pressão no setor

Enquanto os preços da carne bovina continuam subindo, dietas populares com alta ingestão de proteína, inclusive apoiadas pelas diretrizes alimentares federais revisadas do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., centradas na carne vermelha, estão impulsionando o consumo e criando um desequilíbrio entre oferta e demanda.

Daniel Vaughn, editor de churrasco da Texas Monthly, disse ao Washington Post que as casas de brisket mantiveram preços “artificialmente baixos” por anos, mas não conseguem mais absorver o aumento dos custos de mão de obra, além das pressões inflacionárias sobre embalagens e acompanhamentos, fazendo com que um brisket a US$ 88 por quilo (R$ 490) “não seja mais um valor absurdo de se ver em um cardápio”.

Esforços de Trump para reduzir os preços da carne bovina estão paralisados

O governo de Donald Trump tentou criar alívio pelo lado da oferta, com resultados limitados. A Casa Branca suspendeu duas ordens executivas que Trump deveria assinar neste mês, voltadas à redução dos preços recordes da carne bovina e à reconstrução do rebanho dos Estados Unidos. Trata-se do mais recente obstáculo nos esforços do governo para conter a inflação dos alimentos antes das eleições legislativas de novembro.

Uma das ordens suspenderia temporariamente a cota tarifária para todos os países exportadores de carne bovina, permitindo maior entrada de carne com tarifas reduzidas, segundo o Wall Street Journal. Outra ampliaria linhas de crédito para pecuaristas e reduziria regras relacionadas à proteção de lobos ameaçados de extinção e exigências para identificação eletrônica do gado.

Trump começou a direcionar atenção aos preços da carne bovina no segundo semestre do ano passado e propôs em outubro de 2025 ampliar as importações de carne argentina, recebendo críticas da Associação Nacional dos Pecuaristas de Carne Bovina e de senadores republicanos de estados produtores.

Em fevereiro, ele assinou a declaração “Ensuring Affordable Beef for the American Consumer” (“Garantindo Carne Bovina Acessível ao Consumidor Americano”), quadruplicando temporariamente a quantidade de carne argentina livre de tarifas. As ordens adiadas ampliariam essa medida para todos os países exportadores de carne bovina.

Informação adicional

Além dos demais fechamentos de churrascarias no Texas neste ano, até mesmo a Burnt Bean Co., de Ernest Servantes, classificada pela Texas Monthly como a churrascaria número 1 do Texas, está em “modo de sobrevivência”, segundo o Post.

“Sempre houve aumentos de preços, mas também sempre existia algum alívio e depois os preços voltavam a cair”, disse Servantes, de 47 anos, ao Post. “Agora não vemos nenhum sinal de fim disso, e a situação vai começar a ficar assustadora.”

Entenda a pecuária dos EUA

A pecuária bovina dos Estados Unidos atravessa um período de forte redução na oferta de animais. O país iniciou 2026 com 86,2 milhões animais, o menor volume registrado desde 1951. A trajetória vem sendo de queda nos últimos anos: eram 87,2 milhões de bovinos em 2024, número que passou para 86,5 milhões em 2025 até chegar ao nível atual.

A diminuição não ocorre apenas no tamanho do rebanho total. O número de vacas destinadas à produção de carne também encolheu e a entrada de novos animais no sistema perdeu ritmo. A produção de bezerros em 2025 foi estimada em 32,9 milhões de cabeças, uma das menores produções de bezerros desde o final da década de 1940.

Diversos fatores ajudam a explicar esse movimento. Um deles é a sequência de períodos de seca registrados em importantes estados produtores, especialmente no Texas. A redução da disponibilidade de pastagens e água elevou os custos para manter os animais nas propriedades.

Ao mesmo tempo, a alta das despesas com alimentação animal, combustível, mão de obra e terras aumentou a pressão financeira sobre os produtores. Em muitos casos, pecuaristas optaram por reduzir rebanhos em vez de ampliar investimentos.

Outro fator observado no setor foi a redução no número de vacas reprodutoras, medida adotada por parte dos produtores para diminuir custos no curto prazo, mas que limita a capacidade de reposição futura.

Também pesa no cenário o perfil demográfico da atividade. Com parte dos produtores próxima da aposentadoria, muitos têm evitado investimentos de maior prazo para reconstrução dos rebanhos, o que torna a recuperação mais lenta.

Publicada originalmente em forbes.com, complementada por Forbes Brasil

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