26/08/2026

26/08/2026

Ministro vê taxar LCA como “boa alternativa”, mas setor teme impacto na inflação

Setor agropecuário critica possível taxação de LCAs e aponta risco de impacto nos preços e na competitividade do campo.

O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, afirmou nesta quarta-feira (12) que a taxação das Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) pode ser uma “boa alternativa” para aumentar a arrecadação do governo. A declaração ocorre em meio às discussões sobre medidas para compensar a desoneração da folha de pagamento e reforçar o caixa da União.

As LCAs são títulos isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas, muito utilizados por investidores como forma de financiar o setor agropecuário. A proposta em análise no Ministério da Fazenda prevê o fim dessa isenção como forma de ampliar a base tributária sobre o mercado financeiro.

Setor reage com preocupação

Apesar da fala de Fávaro tentar amenizar os impactos, o setor produtivo reagiu com preocupação. Entidades do agronegócio avaliam que a mudança na tributação pode tornar o crédito mais caro para produtores rurais, encarecendo as cadeias produtivas e, consequentemente, pressionando a inflação dos alimentos.

“Taxar a LCA é mexer em uma engrenagem que hoje funciona e traz resultados. Pode parecer pouco à primeira vista, mas o impacto no financiamento da produção pode ser significativo”, afirmou um executivo de uma grande cooperativa agrícola do Centro-Oeste.

Fávaro busca equilíbrio

O ministro, no entanto, destacou que a proposta ainda está em análise e que qualquer decisão será tomada com responsabilidade. “Se for para taxar, que seja de forma equilibrada, sem prejudicar o setor produtivo. Mas é uma boa alternativa que precisa ser considerada entre outras”, disse Fávaro.

Ele também reforçou que a ideia é buscar alternativas que não comprometam o crescimento do agro, setor que tem sido um dos pilares da economia brasileira, com exportações acima dos US$ 15 bilhões em maio, mesmo com uma leve queda no faturamento comparado ao ano anterior.

Ministro Haddad confirma aumento da LCA

A tributação da LCA integra um pacote de medidas anunciado pelo Planalto para substituir o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). O conjunto de medidas foi antecipado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, após reunião com lideranças parlamentares e a cúpula do Congresso.

Segundo Haddad, o pacote vai compensar uma “recalibragem” e substituir parcialmente o potencial arrecadatório da alta do IOF, que havia sido definida pelo governo no último mês.

Entre as medidas previstas, de acordo com a Fazenda, está a tributação de títulos atualmente isentos da cobrança do Imposto de Renda. Entram nesse grupo, as LCAs e as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs).

Pela proposta do governo, esses investimentos passariam a ser taxados com uma alíquota de 5%.

Pressão sobre o Congresso

O debate ocorre em um momento de tensão entre o Executivo e o Congresso, que resiste à proposta de reonerar a folha de pagamentos de setores intensivos em mão de obra. Como alternativa, a Fazenda avalia medidas de aumento de receita, como a revisão de benefícios fiscais, entre eles a isenção das LCAs.

Para o economista agroindustrial João Pedro Rezende, “mexer em instrumentos de crédito ao agro em um momento de juros ainda elevados e margens apertadas pode gerar efeitos colaterais relevantes, como repasse de custos ao consumidor final”.

Próximos passos

A proposta deve ser debatida com representantes do setor nos próximos dias. Enquanto isso, produtores e agentes financeiros acompanham com atenção os desdobramentos, temendo que a mudança fiscal possa desestimular investimentos e dificultar o acesso ao crédito rural.