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Se o nome Lambrusco significa algo para a maioria dos americanos, ou de outros povos fora da bota, provavelmente é porque, em algum momento, eles experimentaram — e até gostaram — do Riunite, uma alternativa rosada, frisante e doce ao Kool-Aid para adultos, com o slogan: “Riunite on ice, that’s nice!” (Surpreende que eles não tenham italianizado a frase com “atsa nice!”). Um garrafão ainda é vendido por US$ 14. Na década de 1970, era um vinho criado para competir com outros vinhos doces, como o Mateus de Portugal e a sangria espanhola, amados justamente por serem doces e poderem ser servidos com gelo.
Infelizmente, o sucesso do Riunite foi tão grande que os apreciadores de vinho passaram a assumir que todos os Lambruscos eram iguais. No entanto, em Emilia-Romagna, onde o Lambrusco é produzido, isso está longe da verdade.
De fato, a obra autoritativa Native Wine Grapes of Italy, de Ian d’Agata, dedica oito páginas em colunas duplas ao vinho, escrevendo: “A família de uvas e vinhos Lambrusco poderia se beneficiar de uma melhor assessoria de imprensa, já que sua imagem está manchada na maioria dos círculos de apreciadores de vinhos finos — com razão, pois essas variedades estão por trás de uma coleção de vinhos pouco distintos.”
Ele também cita a chef italiana Lidia Bastianich dizendo: “Os Lambruscos foram mal representados por versões industriais que têm sabores de refrigerante, pensando que é isso que os americanos gostariam.”
Muitas pessoas pensavam assim mesmo, até viajarem para a Emilia-Romagna e fazer uma bela refeição em seus excelentes restaurantes em Bolonha, Parma, Modena e outras cidades, onde estão esplêndidos exemplares de Lambrusco seco — com um leve frisante — que harmonizam com pratos ricos como lasanha verde, tagliatelle à bolonhesa e bollito misto.
Existem pelo menos oito variedades de uvas Lambrusco (não confundir com a Vitis labrusca da América do Norte), das quais a mais conhecida, mais antiga e mais abundante é a Lambrusco di Sorbara. Muitos dos melhores exemplares vêm de vinhedos ao redor de Modena.
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Colheita de uva Lambrusco
Os vinhos mais refinados apresentam sabor de morango e aroma de violetas. Tendem a ser vinhos relativamente leves e a acidez corta bem a gordura dos alimentos. Também são muito agradáveis como aperitivo, acompanhando produtos de Emilia-Romagna como o Prosciutto di Parma e o Parmigiano-Reggiano.
A maioria dos Lambruscos ainda é produzida por agricultores comunitários, mas há produtores artesanais bem estabelecidos e jovens, que têm aprimorado continuamente os vinhos. Entre os melhores estão Cavicchioli, Paltrinieri, Venturini Baldini, Terrevive e, possivelmente o mais conhecido e exportado, principalmente para os EUA. Trata-se da marca Cleto Chiarli, fundada apenas em 2003 (embora a vinícola original remonte a 1860) pelos herdeiros da quarta geração da família, Mauro e Anselmo Chiarli.
Localizada em 121 hectares em Grasparossa (cujo nome também designa uma das variedades de Lambrusco), produzem 90 mil garrafas em diferentes estilos, elaborados pelo enólogo Filippo Mattioli, usando o método Charmat para conferir ao vinho suas borbulhas frisantes e clareza. Os vinhos são muito refrescantes. Todos têm denominação DOC (Denominação de Origem Controlada).
O Lambrusco da vinícola mais conhecido é o Vecchia Modena Premium Brut, cuja origem remonta a 1882 e foi apresentado na Exposição Universal de Paris em 1900. Reintroduzido em 2002, é feito com 100% de uvas Lambrusco di Sorbara cultivadas em solo aluvial argiloso. Envelhecido por dois meses, tem uma bela coloração rosada, teor alcoólico leve de 11% e é ideal com vitela assada, frango grelhado e queijos.
Outro vinho é o Lambrusco del Fondatore, que evoca o estilo fácil de beber que era servido na trattoria da família no século 19. É um vinho elaborado pelo método ancestral, em que a bebida é engarrafada com a fermentação ainda em curso, permitindo que ela termine na garrafa, o que retém o dióxido de carbono que cria o frisante.
Atualmente é feito com 100% de uvas Lambrusco di Sorbara e, curiosamente, não é submetido ao processo de disgorgement e nem filtrado, de modo que o sedimento natural fica na garrafa. Permanece dois meses sobre as borras sob fermentação a frio. O vinho transmite um verdadeiro senso daquele estilo antigo e acompanha bem massas e ensopados simples e substanciosos. Seu teor alcoólico é de 11,5%.
Já o Lambrusco di Modena “Orgânico”, desde 2016 tem outros parceiros,, a Cantina Sociale di Settecani da região de Castelvetro, a Cleto Chiarli, que trabalhou com uvas Grasparossa utilizando sistemas integrados de controle de pragas em solos compostos por argila, sedimentos aluviais e cascalho, com vinhas de nove anos. As uvas são maceradas por quatro a cinco dias com o mosto da prensagem por gravidade, depois passam por clarificação e estabilização a frio, sem segunda fermentação, ficando um mês na garrafa antes de atingir 11% de álcool.
O “Centenario” Lambrusco di Modena Amabile – o termo amabile significa “adorável” em italiano –, se refere a um vinho ligeiramente mais doce (abboccato). É feito com a uva Lambrusco di Grasparossa, de casca grossa, cuja alta acidez mantém o vinho equilibrado e evita que fique enjoativamente doce, apesar de seus 48 gramas por litro de açúcar residual. Envelhecido por apenas uma a duas semanas, é um Lambrusco simples, mas um bom exemplo do que deve ser um estilo semi-seco (ou semi-doce). É uma combinação excelente com pizza.