Quando o assunto é a criação de suínos, a atenção de todo produtor costuma se voltar para a escolha da genética, o cálculo da nutrição, as barreiras de sanidade e o controle da ambiência. Contudo, existe um insumo vital que participa de cada uma dessas etapas e que, com frequência, acaba esquecido na rotina do campo: a água.
Ela é peça-chave no metabolismo, na digestão, no controle da temperatura do corpo e na produção de leite das matrizes. Ao longo do dia, um suíno consome de duas a três vezes mais água do que ração. No caso de uma matriz em lactação, a ingestão atinge marcas impressionantes, variando entre 25 e 40 litros diariamente.
A veterinária sanitarista Sharon Calderan, da Seara, ressalta que a quantidade e a qualidade desse recurso ditam o ritmo do ganho de peso do plantel. Segundo ela, uma água ruim afeta o pH do trato digestivo dos animais, abrindo as portas para infecções e doenças entéricas (de estômago e intestino) que derrubam o desempenho do lote.
O cálculo na granja é direto: quanto menos água o suíno bebe, menos ração ele consome e menos peso ele coloca na balança. “Por isso, garantir o acesso a um líquido limpo e fresco traz um retorno rápido na conversão alimentar e reduz a taxa de mortalidade nos galpões”, destaca.
Portas abertas para doenças
A segurança sanitária começa direto na fonte de captação. Poços, nascentes, cisternas e reservatórios que ficam abertos ou sem a proteção correta viram um banquete para agentes causadores de doenças.
O poço artesiano e as fontes protegidas são as opções mais seguras no meio rural, mas muitos produtores ainda utilizam a água de açudes, rios ou pequenas poças e olhos d’água. Nesses casos, cercar a área com pedras e telas é fundamental para impedir o acesso de animais silvestres, como javalis e suínos asselvajados, que transmitem infecções graves.
Sharon enfatiza que para manter o rebanho protegido, a água deve ser monitorada com o mesmo rigor dedicado à ração. Parâmetros como o excesso de ferro, manganês, nitratos, sulfatos e a presença de coliformes devem ser avaliados com frequência. “O produtor precisa enxergar a análise laboratorial como um exame de sangue da propriedade. O ideal é realizar uma checagem mensal simples e uma análise físico-química completa uma vez por ano”, ressalta a especialista.
Já no dia a dia, o uso de fitas de teste rápido ajuda a monitorar o pH e o nível de cloro, indicando o momento certo de aplicar pastilhas ou cloro líquido nas caixas d’água.
Vazão correta e água fresca evitam o estresse
Além de estar quimicamente limpa, a água precisa chegar ao focinho do animal nas condições de conforto que a espécie exige. Sharon detalha que a temperatura ideal do líquido para os suínos fica entre 15 °C e 22 °C.
Da mesma forma que os humanos rejeitam água quente em dias de muito calor, os suínos reduzem o consumo se o reservatório esquentar sob o sol, o que eleva o estresse térmico dentro das baias. A médica sanitarista da Seara destaca que manter as tubulações protegidas e fazer a limpeza constante de caixas e encanamentos evita o acúmulo de sujeira e garante a eficiência do cloro.
Outro ponto que exige regulagem fina nos galpões é a vazão dos bebedouros. Se a saída de água for fraca demais, o suíno cansa de tentar beber, fica desidratado e para de comer. Cada fase do animal pede uma pressão diferente:
- Matrizes: Exigem uma vazão forte, acima de 3 litros por minuto.
- Terminação: Demanda uma regulagem intermediária para acompanhar o crescimento.
- Creche e Maternidade: Necessitam de uma vazão menor, ajustada ao tamanho dos leitões.
A veterinária sanitarista conclui que ajustar esses ponteiros reduz o uso de medicamentos na granja, diminui a pressão sanitária e garante que o potencial dos animais se transforme em carne de qualidade.
*Sob supervisão de Victor Faverin
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