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A principal notícia para o agro nesta semana foi a tarifa de 50% imposta pelo presidente Donald Trump sobre todos os produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos. Em abril, quando do lançamento do pacote de tarifas dos EUA, o Brasil havia ficado em confortáveis 10%. O presidente americano alegou um desequilíbrio na balança comercial entre os dois países, entretanto, os números comprovam que a relação com os EUA, é deficitária para o Brasil, ou seja, compramos mais do que vendemos para aquele país.
No ano passado, o balanço final ficou negativo para o Brasil em US$ 253 milhões (R$ 1,39 bilhão na cotação atual), o que não é muito, quando observamos o volume total de negócios entre os dois países (soma das importações e exportações) que foi de US$ 80 bilhões (R$ 444 bilhões). Não podemos ignorar a importância deste aumento de tarifas. Pelos números, observa-se que a balança comercial não é a questão, que pelo visto é política. O anúncio veio logo depois da declaração do Brasil na reunião dos Brics sobre a substituição do dólar como moeda de reserva do mundo. A carta de Trump fala também sobre as ações do Superior Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na guerra de egos e polarização política, acabou sobrando para o produtor rural brasileiro e esta situação precisa urgentemente ser corrigida através de negociação. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, somente atrás da China, 12% de tudo que exportamos segue para lá. O Brasil é o quarto país no ranking dos países exportadores para os EUA, depois do Canadá, México e China.
Este tarifaço não é bom para nenhum dos lados, os produtos brasileiros chegariam mais caros ao mercado americano, causando inflação naquele país e derrubando os preços no mercado interno brasileiro. A exportação de alguns produtos brasileiros para os EUA se tornaria inviável, nos atirando cada vez mais nos braços da China, que já é hoje, nosso maior parceiro comercial. Diversidade de mercados e produtos é um objetivo a ser atingido no comércio internacional, pois nenhum país quer ser dependente de outro país.
Trump menciona reciprocidade, em alguns produtos como o etanol, os americanos realmente cobram uma tarifa bem mais baixa de importação 2,5%, enquanto o Brasil, cobra 18% pela entrada do mesmo produto aqui. No agro, o tarifaço vai atingir as nossas exportações de café, carnes, suco de laranja, além de papel e celulose. O caso do café é emblemático, o Brasil é o maior produtor mundial e os EUA, o maior consumidor mundial, um mercado não vive sem o outro. Já nas carnes, o Brasil é o maior exportador mundial e fornecedor de carnes aos EUA a um custo bem inferior as carnes produzidas naquele país, que ajuda a baratear o preço da carne por lá.
O que se tem discutido, é que através de negociação, a taxação chegue a 30%, que foi a mesma imposta para produtos vindos do México e União Europeia, que seria alto, mas um patamar mais razoável. Todos os países têm negociado, a Índia está buscando 20%, a Argentina conseguiu isenção para 80% de seus produtos. O Brasil tem uma longa história de comercial com os EUA, uma solução baseada em diplomacia, visando os interesses mútuos entre os países e setores, antes que as tarifas entrem em vigor é o caminho.
* Helen Jacintho é engenheira de alimentos e produtora rural com mais de 20 anos de atuação no agronegócio na Fazenda Continental e Regalito. Diretora de Melhoria Contínua, ela é responsável por implementar a filosofia Lean de gestão no campo. Estudou Business for Entrepreneurs na Universidade do Colorado, é juíza de morfologia pela ABCZ e estudou marketing e carreira no agronegócio. Fundadora do grupo Forbes Mulher Agro e conselheira do COSAG/FIESP, integra a lista Women to Watch 2025.”