11/05/2026

11/05/2026

Search
Close this search box.

Descoberta Brasileira Pode Pôr em Xeque Perdas de R$ 12 bilhões na Soja

Existe uma palavra que praticamente paralisa qualquer conversa entre pesquisadores, consultores, empresas de defensivos e produtores de soja no Brasil: percevejo.

Mais especificamente o percevejo-marrom (Euschistus heros), considerado hoje uma das pragas mais difíceis de controlar dentro da agricultura brasileira e responsável por perdas estimadas em aproximadamente R$ 12 bilhões na última safra de soja, segundo cálculos da Embrapa.

Foi justamente tentando enfrentar esse problema que pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), ligado à Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), chegaram a uma descoberta considerada inédita para o setor de biológicos agrícolas.

O grupo identificou um novo uso para a bactéria Bacillus altitudinis, microrganismo já conhecido da microbiologia agrícola por aplicações ligadas à promoção de crescimento vegetal e controle de doenças, mas que agora demonstrou elevada eficiência no controle do percevejo-marrom.

Mais do que isso: utilizando um mecanismo de ação até então pouco explorado contra esse tipo de inseto.

“Um pesquisador da Embrapa costuma dizer que a cada 50 quilômetros existe uma população diferente do percevejo”, afirma Ricardo Antonio Polanczyk, engenheiro agrônomo, mestre e doutor em Entomologia, professor associado da Unesp e pesquisador do INCT NanoAgro. “Essa variabilidade genética ajuda a explicar a velocidade com que o inseto desenvolve resistência.”

Flavio Benedito Conceição/Getty ImagesPercevejo-marrom numa folha de soja

Por isso, o percevejo marrom se transformou em um problema econômico de larga escala não apenas pelos danos diretos à produtividade, mas pela crescente perda de eficiência dos produtos químicos utilizados no manejo. A cada safra, a conta aumenta.

Em algumas regiões produtoras, doses de inseticidas que antes giravam em torno de meio quilo por hectare passaram para um quilo e meio. Em outras áreas, produtores já convivem com populações altamente resistentes, que respondem de forma diferente a poucos quilômetros de distância.

A bactéria que age pelas patas do inseto

DivulgaçãoRicardo Antonio Polanczyk, pesquisador do INCT NanoAgro

O INCT NanoAgro funciona como uma rede nacional de pesquisa voltada ao desenvolvimento de nanotecnologia aplicada à agricultura sustentável. O instituto é sediado no câmpus da Unesp em Sorocaba (SP) e possui coordenação ligada ao Instituto de Ciência e Tecnologia da universidade.

À frente do grupo está Leonardo Fernandes Fraceto, bacharel e licenciado em Química pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre e doutor em Biologia Funcional e Molecular pela própria instituição.

Atualmente, Fraceto é professor associado da Unesp de Sorocaba, atuando no Departamento de Engenharia Ambiental e nos programas de pós-graduação em Ciências Ambientais e em Ciência e Tecnologia de Materiais.

Segundo os pesquisadores, o diferencial da descoberta está justamente no modo como a bactéria atua.

“O interessante da pesquisa é que a bactéria funcionou via contato tarsal, ou seja, pelas patas do inseto”, explica Polanczyk. “Isso é uma novidade porque o percevejo possui substâncias antifúngicas e camadas estáticas nas costas, o que dificulta o controle tradicional.”

Na prática, o percevejo se contamina enquanto caminha sobre a superfície tratada da planta. O detalhe parece pequeno, mas representa uma mudança importante dentro da lógica de controle biológico da praga.

Tradicionalmente, produtos microbiológicos à base de Bacillus dependem da ingestão pelo inseto para funcionar. O problema é que o percevejo-marrom possui aparelho bucal sugador. Em vez de mastigar a superfície foliar, ele perfura diretamente o grão para sugar nutrientes. Isso limita drasticamente a eficiência de muitos biológicos convencionais.

“O grande problema do uso tradicional de Bacillus contra percevejos é justamente esse”, afirma Polanczyk. “Como ele suga diretamente o grão, não ingere a bactéria aplicada na folha. Por isso, o contato tarsal virou a principal novidade do estudo.”

O tamanho do prejuízo dentro da soja

Divulgação/INCT NanoAgroLeonardo Fernandes Fraceto, coordenador do INCT NanoAgro

A descoberta ganha relevância diante do tamanho do impacto econômico provocado pela praga. Dependendo do nível de infestação, as perdas podem variar entre 49 quilos e 120 quilos por hectare, algo equivalente a até duas sacas de soja. E o momento do ataque torna a situação ainda mais crítica.

“O grande problema do percevejo é que ele age no final do ciclo, no enchimento dos grãos”, afirma Fraceto. “É exatamente onde ele destrói a possibilidade de lucro do produtor.”

Foi justamente o potencial econômico da descoberta que começou a despertar a atenção de empresas do setor.

“Se você aumenta em 10% ou 20% o nível de controle, o benefício econômico para o produtor já é absurdo”, diz Fraceto. “Existe hoje uma demanda reprimida por soluções realmente eficientes para percevejo.”

Os resultados laboratoriais ajudam a explicar esse interesse. Enquanto muitos químicos atualmente entregam eficiência entre 30% e 40%, os testes conduzidos pelo grupo alcançaram níveis próximos de 80% de mortalidade.

“Hoje, os químicos funcionam na faixa de 30% a 40% de controle. Nós tivemos um valor próximo ao dobro disso em laboratório”, afirma Polanczyk.

A corrida global pelos biológicos

fotokostic/Getty ImagesTrator fazendo aplicação de defensivos agrícolas numa lavoura de soja

A descoberta também surge em um momento de forte expansão do mercado de biológicos no mundo e supera US$ 13 bilhões (R$ 65 bilhões), segundo estimativas de consultorias internacionais. O mercado brasileiro de bioinsumos movimentou mais de R$ 6,2 bilhões em 2025 e alcançou uma área tratada de 194 milhões de hectares em todo o país, segundo a CropLife Brasil.

Nos últimos anos, o segmento deixou de ocupar apenas nichos ligados à agricultura orgânica para se transformar em uma das principais apostas estratégicas da indústria de proteção de cultivos.

Pressionadas pela resistência crescente de pragas, restrições regulatórias e demanda por soluções mais sustentáveis, multinacionais passaram a acelerar aquisições, investimentos em biofábricas e acordos com startups e centros de pesquisa. O Brasil se transformou em uma das peças centrais dessa expansão.

Além da dimensão tropical da agricultura brasileira, que favorece pressão elevada de pragas durante praticamente o ano inteiro, o País também possui enorme biodiversidade microbiológica, considerada estratégica para o desenvolvimento de novos bioinsumos.

Segundo Polanczyk, o custo menor de desenvolvimento também ajuda a explicar o avanço acelerado desse mercado.

“O custo de desenvolvimento de um biológico para uma empresa gira em torno de 10% do custo de um químico”, afirma o pesquisador. “Uma nova molécula química pode levar mais de dez anos e custar centenas de milhões de dólares. O biológico exige um investimento muito menor.”

Mesmo assim, transformar um microrganismo promissor em produto comercial continua sendo uma tarefa complexa.

O desafio agora é transformar ciência em produto

Atualmente, a tecnologia desenvolvida pelo INCT NanoAgro encontra-se entre os níveis de estágio conhecido como prova de conceito tecnológica.

Isso significa que o organismo já demonstrou eficiência em ambiente controlado, mas ainda precisa avançar para testes em casas de vegetação, validações regionais, escalonamento industrial e desenvolvimento de formulação comercial.

E é justamente nessa etapa que a nanotecnologia deve ganhar protagonismo.

“O desafio não é apenas encontrar um organismo eficiente”, afirma Fraceto. “Precisamos garantir estabilidade, persistência e proteção contra radiação UV.”

Em lavouras de soja, onde temperaturas acima de 40°C são comuns, a sobrevivência do microrganismo em campo se transforma em um dos fatores decisivos para o sucesso comercial da tecnologia.

“A tecnologia por trás da formulação é o grande diferencial”, afirma Fraceto. “Podemos incorporar nanopartículas e sistemas nanoestruturados para melhorar estabilidade e performance biológica.”

O próprio INCT NanoAgro trabalha hoje em pesquisas envolvendo encapsulamento de ativos biológicos, sistemas de liberação controlada e nanopartículas biogênicas produzidas a partir de organismos vivos.

Segundo os pesquisadores, a expectativa é que futuras parcerias com empresas acelerem o desenvolvimento industrial da solução.

“O melhor caminho é transferir essa inovação para empresas que já possuem know-how industrial”, diz Fraceto.

O prazo estimado para que um produto comercial baseado nessa linhagem chegue efetivamente ao mercado varia entre três e seis anos. Até lá, o trabalho continua dentro dos laboratórios e áreas experimentais.

Mas a descoberta já evidencia algo maior: a forma como biodiversidade, microbiologia, nanotecnologia e agricultura passaram a caminhar juntas dentro de uma disputa global por produtividade, eficiência econômica e sustentabilidade no campo.

“A universidade está cada vez mais preocupada em se comunicar com o setor produtivo”, afirma Fraceto. “Queremos que essas tecnologias saiam da academia e realmente cheguem à sociedade.”

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Embrapa amplia programação técnica e lança publicações durante a Agrotins

Imagem gerada por IA A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) participará da Agrotins entre…

Índia Reduz Importações de Óleo de Palma para 505 Mil Toneladas em Abril

As importações de óleo de palma pela Índia caíram 27% em abril, atingindo o nível…

Ministro Diz Que Plano Safra Terá “Especial Cuidado” com Juros e Vê Alta de Recursos

O Plano Safra 2026/27, que deverá ser anunciado no início de junho, terá um “especial…