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Uma convergência acentuada entre fiscalização migratória, deportações e reforma do Medicaid está abalando o setor de processamento de alimentos dos Estados Unidos. Com planos em andamento para deportar entre 1 milhão e 1,3 milhão de trabalhadores sem documentação nas áreas de agricultura, frigoríficos, laticínios e plantas de processamento, empresas alertam para uma escassez crítica de mão de obra.
Segundo dados do USDA, 42% dos trabalhadores rurais nos EUA não têm autorização legal para trabalhar. No setor de carnes, estima-se que entre 30% e 50% dos trabalhadores da linha de frente estejam em situação irregular, totalizando entre 160 mil e 270 mil pessoas. A deportação dessa força de trabalho pode levar ao fechamento de operações, aumento de custos e pressão sobre as margens em toda a cadeia de suprimentos de alimentos.
A secretária da Agricultura, Brooke Rollins, propôs uma solução pouco convencional: substituir os trabalhadores migrantes deportados por “beneficiários do Medicaid em idade produtiva”. Em 8 de julho, ela destacou que 34 milhões de adultos recebem Medicaid, sugerindo que esse grupo poderia servir como força de trabalho doméstica. No entanto, especialistas do setor alimentício e analistas de políticas não apenas se mostraram céticos, como consideraram a proposta absurda. Isso evidencia o desconhecimento dos formuladores de políticas e os efeitos de suas decisões sobre os negócios.
Dados concretos revelam o descompasso: dos 34 milhões de beneficiários do Medicaid, apenas 5,6 milhões estão desempregados e ainda menos estão aptos para empregos fisicamente exigentes em áreas rurais. Analistas estimam que, realisticamente, apenas entre 500 mil e 750 mil poderiam migrar para funções no setor agrícola.
A matemática aponta para um déficit iminente:
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Mesmo no cenário mais otimista de reaproveitamento de mão de obra, o déficit ultrapassa meio milhão de trabalhadores, com vulnerabilidade concentrada nos setores de hortifrutigranjeiros e carnes vermelhas, que demandam muita mão de obra. Dona de fábricas e líderes do campo afirmam que trabalhadores norte-americanos dificilmente preencherão essa lacuna.
“Oferecemos 17 dólares por hora, mas raramente recebemos candidatos locais. A taxa de desemprego é praticamente zero”, diz Andrew Mickelsen, agricultor de batatas de sétima geração em Idaho.
As empresas estão explorando alternativas:
Automação, embora cara e lenta para ser implantada. Ryan Jacobsen, CEO da Fresno County Farm Bureau, afirmou: “Um pêssego fresco ainda exige um par de mãos para ser colhido da árvore… a automação tem seus limites.”
Juan Proaño, CEO da Lulac (Liga dos Cidadãos Latino-Americanos Unidos), acrescentou: “Se eles pudessem ter automatizado a colheita de morangos e laranjas, já teriam feito isso.”
A expansão dos vistos H-2A, um programa para trabalhadores temporários estrangeiros, poderia ser uma solução, embora o processo já enfrente obstáculos administrativos e limitações de capacidade. Seria necessário mais esforço para resolver a complexidade do processamento dos pedidos.
As implicações para os negócios são graves. Espera-se aumento nos custos trabalhistas, gargalos na cadeia de suprimentos e maior pressão nas margens das empresas de alimentos voltadas ao consumidor. Investidores devem monitorar a dinâmica de gastos em capital, especialmente em automação e integração da força de trabalho, à medida que as empresas buscam preencher lacunas estruturais de mão de obra.
Hamdi Ulukaya, CEO da Chobani, afirmou que as práticas agressivas de fiscalização migratória do governo Trump representam riscos à cadeia de suprimentos de alimentos. “Precisamos ser muito realistas”, disse Ulukaya no WSJ Global Food Forum em Chicago no mês passado. “Precisamos de imigração e de trabalhadores para que nosso sistema alimentar funcione.”
Na ausência de uma mudança rápida de política – seja expandindo programas de vistos, reduzindo deportações em setores essenciais ou investindo fortemente em canais de mão de obra rural – a indústria corre risco de colapso econômico em níveis regionais e nacionais.
O impacto combinado da fiscalização migratória e das mudanças na política do Medicaid cria um ambiente de trabalho de alto risco para a indústria alimentícia dos EUA. Para empresas de toda a cadeia de valor, de startups agtech a multinacionais de processamento, o imperativo é claro: reavaliar estratégias de força de trabalho, revisar a exposição ao risco e se preparar para um mercado de trabalho mais restrito.
Se os formuladores de políticas não resolverem o crescente descompasso entre o discurso político e a realidade do mercado de trabalho, o resultado não será apenas salários mais altos, mas também preços maiores, instabilidade no abastecimento e pressão generalizada nas margens. A dor das deportações contínuas e das ações agressivas contra a imigração será, em última instância, sentida pelos consumidores por meio da escassez de alimentos básicos e preços muito mais altos.
O post Deportações nos EUA: Quem Vai Colher a Alface, Cortar os Bifes e Plantar os Tomates? apareceu primeiro em Forbes Brasil.