Acessibilidade
Danielle Nierenberg
Na próxima semana, estarei a caminho de Adis Abeba, na Etiópia, para a segunda Conferência de Revisão do Sistema Alimentar da ONU (UNFSS+4). Essa revisão é fundamental para desenvolver um entendimento comum sobre o quanto avançamos e o quanto ainda precisamos percorrer na transformação dos sistemas alimentares.
À medida que nos aproximamos do UNFSS+4, vale retomar as mesmas perguntas que fiz antes da primeira conferência, há dois anos: quando se trata da transformação do sistema alimentar, de onde estamos partindo? Para onde estamos indo? Como saber se as ações que estamos tomando estão realmente gerando progresso suficiente?
“À medida que nos aproximamos do UNFSS+4, os sistemas alimentares e agrícolas estão finalmente na agenda global — centrais para a ação climática, a resiliência econômica, a nutrição e a segurança alimentar. Mas o progresso ainda é muito lento”, afirma Ertharin Cousin. Ela foi diretora executiva do Programa Alimentar Mundial da ONU e embaixadora dos Estados Unidos nas agências da ONU para Alimentação e Agricultura, e atualmente lidera a organização Food Systems For The Future.
Ela diz: “agricultores, pequenas e médias empresas e comunidades da linha de frente ainda carecem do capital, dos mercados e do apoio político de que precisam. É hora de os governos apoiarem compromissos com orçamentos e políticas ousadas, e de o setor privado adotar investimentos de capital menos avessos ao risco e parcerias público-privadas significativas. O capital deve gerar retornos financeiros e, ao mesmo tempo, promover a segurança alimentar e a resiliência. Transformar sistemas alimentares não é apenas produzir mais: é nutrir pessoas e criar oportunidades para aqueles que nos sustentam”.
O objetivo desta revisão é garantir que governos, sociedade civil, investidores e outros grupos estejam alinhados para que possamos de fato atingir essas metas. Mas alguns grupos importantes afirmam que a própria estrutura da revisão é falha e que suas preocupações precisam ser levadas a sério.
O Mecanismo da Sociedade Civil e dos Povos Indígenas (CSIPM) do Comitê de Segurança Alimentar Mundial da ONU se retirou da conferência, alegando que ela prioriza excessivamente os interesses corporativos, em vez de lidar adequadamente com conflitos em curso e disputas políticas que colocam em risco direitos humanos, segurança alimentar e vidas.
“De que servem nossa experiência, nossos marcos legais e nossos fóruns internacionais se não somos capazes de proteger o direito fundamental de se alimentar, de viver?”, disse Souad Mahmoud, membro do Comitê de Coordenação do CSIPM, à organização Via Campesina.
Ao entrar no UNFSS+4, acredito que é possível usar este evento como trampolim para mudanças globais significativas. Ao mesmo tempo, penso que, se levamos a sério a transformação dos sistemas alimentares como um processo multifacetado, coletivo e diverso, as pessoas que realmente sabem em que ponto o mundo está nessa questão — aquelas que devemos consultar para avaliar nosso progresso — são agricultores, pecuaristas, pastores, pescadores, organizadores comunitários, trabalhadores agrícolas e pessoas que enfrentam diariamente as pressões da insegurança alimentar e da fome.
Quando o UNFSS+4 terminar, não retornarei imediatamente para casa. Em vez disso, viajarei pela Etiópia para realizar exatamente esse trabalho. Vou me encontrar com agricultores, pesquisadores, grupos da sociedade civil e outros para aprender diretamente como as comunidades estão inovando para aumentar a resiliência climática, como estão construindo soberania alimentar real e como estão lidando com os impactos do desmonte das operações da USAID na região.
Gosto de chamar esse trabalho de “verificação no campo” e acredito que o próprio nome explica: a única forma de encontrar as verdades sobre o estado do sistema alimentar global é ouvir e envolver genuinamente as pessoas que estão no território nas decisões que afetam a todos nós.
Não há dúvida de que nossos sistemas alimentares enfrentam desafios enormes — e que, a cinco anos de 2030, não estamos avançando na velocidade necessária para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Mas também não há dúvida de que o conhecimento necessário para resolver esses desafios já existe dentro das comunidades ao redor do mundo. Transformar metas em mudanças reais exige que todos trabalhemos juntos e aprendamos uns com os outros.