01/07/2026

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Como o Plano Safra 2026/27 Deve Mexer com o Mercado

Na última safra de soja em Mato Grosso, pouco mais de 4% dos produtores conseguiram acessar recursos do Plano Safra para custeio. O número, levantado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), ajuda a explicar por que o volume recorde anunciado nesta terça-feira (30) pelo Governo Federal não fechou, por si só, a distância entre o crédito disponível e o crédito que efetivamente chega à lavoura. O descontentamento, porém, não atinge o pacote inteiro: concentra-se na fatia destinada à agricultura empresarial, linha voltada a médios e grandes produtores. Passadas as primeiras horas do lançamento, é essa distância, e não o tamanho do pacote, que domina a leitura de entidades e analistas do setor.

O Plano Safra 2026/2027 destina R$ 610,4 bilhões à agropecuária brasileira, divididos entre R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar. É na primeira fatia, a de médios e grandes produtores, que aparecem as críticas detalhadas a seguir: R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimento, alta de 38% sobre o ciclo anterior. A principal taxa de custeio recua de 14% para 12,5% ao ano, e o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) chega a R$ 72,6 bilhões, com juros reduzidos de 10% para 9%.

Para a equipe econômica, o ponto central do anúncio está na combinação entre volume recorde e custo do crédito em queda. “Vejam que, mesmo num cenário de taxa de juros alta no país, com uma política monetária bastante contracionista, conseguimos fazer um esforço de redução das taxas de juros em todas as linhas para o agronegócio empresarial”, afirmou o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, durante a cerimônia em Brasília.

O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, André de Paula, reforçou o argumento ao detalhar o salto nos recursos para investimento. “Os recursos destinados ao investimento avançam de 101,5 bilhões para 140,2 bilhões de reais, uma expansão superior a 38%, fortalecendo a modernização da agricultura brasileira”, disse. O presidente da República em exercício, Geraldo Alckmin, resumiu a meta do pacote em uma frase: “O objetivo deste Plano Safra é aumentar o volume de crédito e reduzir os juros. Nós entregamos o menor juro com o maior volume de recursos da história.” Mas o fato é que essa redução apenas acompanhou a queda da taxa Selic.

Marcelo Camargo/Agência BrasilO presidente em exercício Geraldo Alckmin na lançamento do Plano Safra

FPA fica de fora do lançamento e contesta os números do governo

A ausência mais comentada na cerimônia não veio do campo, veio do Congresso. Pela terceira safra consecutiva, nenhum dirigente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), maior bancada do Congresso Nacional e que tem como presidente o também produtor rural Pedro Lupion, esteve presente ao lançamento do Plano Safra empresarial no Palácio do Planalto. Horas depois, a bancada divulgou nota oficial contestando a narrativa de programa recorde e apontando cinco distorções na composição dos recursos.

Segundo a FPA, descontados os fundos que classifica como estranhos ao escopo tradicional do crédito rural, o Plano Safra representa uma queda de R$ 29,6 bilhões, ou 5,73%, em relação ao ciclo anterior. Na nota publicada, a bancada questiona diretamente a versão do governo: apesar da “narrativa de programa recorde feita pelo governo federal”, os números mostrariam o oposto.

Kayo Magalhães / Câmara dos DeputadosPedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária

A entidade detalha que o custeio e a comercialização recuaram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, retração de 7,2% justamente na linha usada para financiar plantio, insumos e manutenção da atividade produtiva. Já o crescimento de 38% no investimento, de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões, é atribuído em boa parte à inclusão de R$ 38,5 bilhões vindos de fundos que a FPA considera fora do escopo do crédito rural tradicional, uma “engenharia financeira” que, segundo a nota, não resolve a necessidade de crédito efetivo na ponta.

A bancada também aponta cortes pontuais dentro do próprio pacote de investimento: o Moderfrota perdeu 54% dos recursos e o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) registrou queda de 28%, mesmo com o déficit de armazenagem reconhecido no país. Os recursos equalizados, aqueles com participação do Tesouro na redução dos juros, caíram 14,7%, de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões. E o seguro rural, mais uma vez, ficou para trás: a cobertura estimada pela subvenção ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) deve alcançar apenas 2,69 milhões de hectares, a menor em dez anos, em um ciclo com El Niño confirmado.

A nota reconhece o esforço do governo para reduzir os juros, mas considera a medida “insuficiente diante da situação de endividamento do setor”. A entidade encerra reafirmando a defesa do Projeto de Lei nº 5.122/2023, sobre renegociação de dívidas rurais, e do Projeto de Lei nº 2.951/2024, que reformula o seguro rural.

Federarroz: juros ainda pesam e endividamento trava o acesso

A leitura no campo também destoa do discurso oficial. Para a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), o custo do crédito segue como o principal obstáculo. “O Plano Safra veio com valor abaixo do que a gente pretendia. Os juros também não vieram como a gente pretendia. Nós pretendíamos abaixo de um dígito, e ele veio para a agricultura empresarial em 12,5%”, diz o presidente da entidade, Denis Dias Nunes.

A federação aponta ainda a redução de R$ 29,8 bilhões no custeio e na comercialização em relação ao ciclo passado e condiciona o acesso pleno dos arrozeiros ao crédito a uma solução para o endividamento do setor, hoje em discussão no Projeto de Lei nº 5.122. “Nós também estamos na dependência das renegociações, de como vai ser resolvida essa questão do endividamento, até para que a gente consiga ter acesso ao crédito rural, porque senão vários produtores de arroz vão ficar alijados do Plano Safra”, afirma Nunes.

Mato Grosso cobra atualização de critérios

A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), uma das mais fortes entidade do setor, reconhece avanços no plano, mas cobra medidas estruturais para o estado de maior escala produtiva do país. O crescimento de 1,7% no volume destinado à agricultura empresarial, segundo a entidade, não recompõe sequer a inflação do período.

“Houve avanço em relação ao volume disponibilizado, mas ele ainda é insuficiente diante da necessidade de desenvolvimento da produção agropecuária, não apenas em Mato Grosso, mas no Brasil como um todo”, avalia o superintendente da Famato, Cleiton Gauer.

Segundo ele, o índice de apenas 4% de acesso ao custeio da soja decorre da defasagem nos critérios de enquadramento de pequenos e médios produtores, que deixaram de acompanhar a evolução de custos e escala de produção. “Muitos produtores foram sendo desenquadrados das faixas de pequenos e médios. Com isso, produtores que antes acessavam linhas específicas hoje acabam enquadrados praticamente como grandes produtores”, explica Gauer.

O presidente da Famato, Vilmondes Tomain, cobra continuidade da pressão sobre o Ministério da Agricultura e Pecuária. “Mato Grosso produz em larga escala e necessita de uma política de crédito mais acessível, menos burocrática e capaz de atender efetivamente quem está no campo”, afirma.

Um ponto de convergência entre as análises de mercado é a ausência de reforço para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). A Famato defendia a destinação de R$ 3 bilhões ao programa e não teve a demanda atendida. Para a analista de inteligência de mercado da StoneX, Ana Luiza Lodi, a lacuna preocupa em um ciclo com projeção de El Niño de forte intensidade.

A analista, que também acompanha o financiamento de máquinas em nome da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), chama atenção para a composição dos recursos anunciados: R$ 194 bilhões do total de R$ 525,1 bilhões destinado à agricultura empresarial, o equivalente a 37%, vêm de Cédulas do Produtor Rural (CPR) e de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), modalidades com juros de mercado livre.

Na leitura da StoneX, o crédito público e subsidiado encolheu na comparação anual, mesmo com o volume total em alta. Sobre o financiamento de máquinas, Ana Luiza cita juros de 11,5% e 12,5% no Moderfrota, patamares que considera atrativos frente à Selic, mas ainda elevados para produtores com margens pressionadas pelos preços mais baixos das commodities. A linha da Finep, com juros de 9,5%, deve concentrar a maior procura assim que estiver disponível, projeta a analista.

Indústria vê confiança onde o produtor vê pressão

Nem todo o setor reage com ressalvas. Representando os produtores no evento de lançamento, o diretor de relações governamentais da Inpasa, Guilherme Nolasco, definiu o Plano Safra como sinal de estabilidade para toda a cadeia. “O Plano Safra é mais do que crédito, é confiança. Confiança em quem planta, investe e trabalha, do pequeno ao grande produtor e das cooperativas que organizam, integram e fortalecem o desenvolvimento regional”, disse.

Nolasco associou a avaliação positiva a outra frente do anúncio, a assinatura de portaria que regulamenta os coprodutos do etanol de milho (DDG e DDGS), reivindicação antiga da indústria de biocombustíveis. Para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, presente na cerimônia, o pacote também reforça o compromisso do Legislativo com o setor. “A Câmara dos Deputados não faltou e estamos aqui justamente para renovar o compromisso de estarmos sempre de portas abertas para fortalecer o agro do nosso país”, afirmou.

O contraste entre a leitura da indústria e a do produtor rural aponta para o que deve orientar o mercado nas próximas semanas: a negociação da dívida rural no Congresso, a definição sobre o PSR diante do risco de El Niño e a velocidade com que bancos e cooperativas conseguem captar recursos para atender à demanda represada. É nesse intervalo, entre o volume anunciado e o crédito de fato liberado, que o Plano Safra 2026/27 vai ser testado.

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