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Em 4 de julho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sancionou a One Big Beautiful Bill Act (OBBBA). A “Grande e Bela Lei”, que é essencialmente um enorme projeto orçamentário, prevê mudanças significativas nos gastos federais que podem, em última instância, remodelar os sistemas alimentares e de saúde, a abordagem às mudanças climáticas e o bem-estar das comunidades trabalhadoras, rurais e urbanas.
Abaixo estão seis dos impactos imediatos que essa lei terá sobre o sistema alimentar norte-americano:
1. Cortes deixarão mais pessoas com fome e doentes
A lei OBBBA promoveu os maiores cortes de gastos da história no Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP), de combate à fome dos EUA, e no Medicaid, de assistência à saúde, ultrapassando US$ 1 trilhão (R$ 5,5 trilhões na cotação atual) em reduções orçamentárias.
Como resultado, nos próximos anos, cerca de 5 milhões de pessoas — 1 em cada 8 participantes do SNAP — perderão o acesso a algum tipo de auxílio alimentar, e quase 12 milhões de americanos ficarão sem atendimento de saúde.
O programa de educação nutricional SNAP-Ed foi totalmente desfinanciado. De acordo com uma equipe de pesquisadores em saúde da Universidade da Pensilvânia, apenas os cortes no SNAP podem resultar em mais de 93 mil mortes prematuras entre agora e 2039.
2. Partes da indústria alimentícia podem sentir o impacto
O SNAP responde por cerca de 9% dos gastos em supermercados, de modo que grandes empresas podem registrar queda nas vendas, especialmente de produtos alimentícios industrializados, segundo uma análise do Wall Street Journal.
Por outro lado, a lei mantém os impostos sobre a renda das varejistas corporativas em patamares baixos, o que pode ajudar seus resultados financeiros em meio aos preços elevados dos alimentos.
3. Imigrantes, documentados ou não, permanecem em maior risco
Dispositivos da OBBBA que miram a imigração provavelmente terão impactos desproporcionais no sistema alimentar. A lei mais que triplica o orçamento do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), com foco em ampliar a detenção e deportação de não cidadãos.
Além disso, revoga a elegibilidade de alguns imigrantes legais ao SNAP e impõe novos impostos sobre o envio de dinheiro para famílias no exterior, medidas que afetam o acesso dos imigrantes à autossuficiência por meio da alimentação e do empreendedorismo na área de restaurantes.
4. Alguns trabalhadores de restaurantes recebem incentivos
Alguns defensores da OBBBA afirmaram que ela estabeleceria “nenhum imposto sobre gorjetas”, o que não é exatamente verdade, mas pode ainda assim beneficiar alguns trabalhadores do setor de restaurantes.
Até 2028, trabalhadores que recebem gorjetas e se enquadram em determinados limites de renda poderão deduzir até US$ 25.000 (R$ 139,5 mil) em gorjetas de sua declaração de imposto de renda federal. No entanto, trabalhadores indocumentados , que, juntos, pagaram US$ 96,7 bilhões (R$ 539,4 bilhões) em impostos federais, estaduais e locais em 2022, não são elegíveis para essa dedução fiscal.
5. A lei pode beneficiar fazendas industriais, mas não famílias rurais
Voltada para os agricultores, a OBBBA prevê reduções de impostos e aumento de recursos para programas de apoio a commodities agrícolas e subsídios de seguro de safra.
No entanto, esses programas tendem a beneficiar grandes produtores em detrimento das fazendas familiares independentes. A lei também cria um fundo de US$ 50 bilhões (R$ 279 bilhões), chamado Programa de Transformação da Saúde Rural, destinado a apoiar o atendimento médico nas áreas rurais, mas esse valor cobre apenas cerca de um terço dos recursos que o Medicaid antes oferecia.
Agora, centenas de hospitais rurais em dificuldade, que dependiam dos recursos do Medicaid para permanecerem abertos, estão em risco ainda maior de fechamento.
Além disso, a renda dos agricultores está ameaçada. Dados mostram que, de cada dólar gasto com alimentação no lar em todo o país, cerca de 25% retornam às comunidades rurais, mas, se os cortes no SNAP reduzirem o poder de compra, os agricultores receberão menos dinheiro.
6. Iniciativas de agricultura e clima inteligentes estão paralisadas
A OBBBA continua refletindo a mudança de prioridades climáticas ao longo do governo Trump-Vance até agora. A lei suspende mais de US$ 500 bilhões (R$ 2,7 trilhões) em investimentos em sustentabilidade previstos na Lei de Redução da Inflação, revoga incentivos à energia eólica e solar e elimina gradualmente créditos fiscais para novos veículos elétricos.
Enquanto isso, setores como carvão, petróleo e gás receberão isenções fiscais e acesso para extração de combustíveis fósseis em terras antes protegidas.
Os impactos da lei OBBBA já reverberam pelos sistemas alimentares e agrícolas, mas esforços comunitários para manter uns aos outros alimentados e defender o bem-estar coletivo também se multiplicam. E, agora mais do que nunca, cada vitória no sistema alimentar importa.
Cada votação bem-sucedida de sindicalização, como a que ocorreu recentemente na cooperativa Abundance Food Co-op, em Nova York, importa. Cada programa que conecta crianças das escolas a alimentos cultivados em fazendas, como os que existem em Michigan, importa.
Cada ideia inovadora, como repensar mercearias de bairro na Pensilvânia ou criar hortas hidropônicas modulares em Singapura e Boston, importa. Essas vitórias são locais, mas não significa que sejam pequenas.
Todas podem resultar em mudanças em larga escala em sistemas alimentares e agrícolas. São transformações que ocorrem de forma gradual, mas que podem se tornar sustentáveis, duradouras e profundamente enraizadas, que não possam ser facilmente desfeitas.
* Danielle Nierenberg é pesquisadora e colaboradora da Forbes EUA, onde escreve sobre sistemas alimentares globais.