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A indústria de cafés especiais é historicamente marcada pela encruzilhada entre ética e economia. Enquanto os consumidores exigem qualidade e rastreabilidade, os produtores, especialmente os pequenos, enfrentam custos crescentes de produção, instabilidade climática e volatilidade de mercado.
Apesar do movimento da “terceira onda” do café destacar a qualidade, muitos cafeicultores continuam mal remunerados e negligenciados, com o verdadeiro custo de produção frequentemente encoberto por práticas comerciais opacas. Corrigir esse desequilíbrio sistêmico exige mais do que slogans sobre sustentabilidade e requer transparência radical e relações reestruturadas entre produtores e torrefadores.
Fundada em 2013 por Xavier Alexander e Darko Arandjelovic, a Metric Coffee, com sede em Chicago, nos Estados Unidos, surgiu com o propósito de reduzir essa distância. Criada sem investimentos externos, a empresa baseia-se em um modelo de fornecimento que prioriza o comércio direto, a rastreabilidade e a equidade para os produtores.
O objetivo é adquirir grãos premium e valorizar as pessoas e o trabalho por trás de cada xícara. “Café não pode ser barato”, afirma Alexander, destacando as exigências físicas e os riscos enfrentados pelos produtores ao longo da cadeia de suprimentos. Por meio de visitas in loco, diálogos diretos e prêmios acima da média de mercado, a Metric tem como objetivo garantir que os produtores, especialmente os menos visíveis, como os colhedores de café, sejam remunerados de forma justa e tenham condições de manter seu sustento.
Esse compromisso se reflete na publicação regular de relatórios de transparência, nos quais a Metric compartilha dados detalhados sobre os preços em sua cadeia de fornecimento e discute os desafios enfrentados pelos produtores, incluindo instabilidade sociopolítica e ameaças relacionadas ao clima.
O objetivo é desmistificar a estrutura de custos do café e convidar os consumidores a participarem de uma conversa sobre justiça e responsabilidade no setor. Em um mercado onde o branding muitas vezes substitui os fatos, a transparência nos preços é uma forma importante de educação do consumidor e uma ferramenta de equidade.
Alexander cita a certificação internacional B Corp, voltada para empresas que demonstram altos padrões de desempenho social, ambiental, transparência e responsabilidade, é uma forma de reforçar sua responsabilidade pública, funcionando também como uma validação externa de seus valores históricos e um guia para melhorias contínuas.
A empresa também está ampliando seu impacto com a abertura do novo café “Milli by Metric”, no bairro Avondale, em Chicago. Alexander contou que essa iniciativa não se trata apenas de expandir operações, mas de aprofundar o engajamento com a comunidade e com a sua equipe em crescimento. O café foi pensado como um espaço para contar histórias, descobrir sabores e promover a formação de funcionários, fechando o ciclo da cadeia de valor do café: da fazenda à xícara.
A trajetória da Metric Coffee exemplifica como pequenas torrefações podem desafiar normas extrativistas do sistema alimentar global. Ao tornar visível o que muitas vezes permanece oculto, como os custos dos produtores, as realidades do fornecimento e as condições de trabalho, a empresa impulsiona o setor em direção a um futuro mais justo e responsável.
Alexander detalha as ações da Metric em entrevista à Forbes USA abaixo:
Na temporada recente de The Bear, vi o café da Metric em uma cena e entendi que um dos episódios foi filmado no espaço de vocês. Como isso aconteceu?
Pelo que me lembro, tudo começou com a visita do nosso amigo Eric “Wally” Frankel, que é decorador de cenários para cinema e TV. Alguns anos atrás, ele passou por lá para comprar uns pacotes de café para um programa de TV em que estava trabalhando.
Não muito tempo depois, começamos a ser marcados por pessoas nas redes sociais que notaram nossa embalagem branca ao lado do Jeremy Allen White, o astro de The Bear, e aquilo foi o começo da nossa relação com a série.
De lá para cá, passamos a fornecer o café nos bastidores das gravações, e nesta última temporada, eles usaram o espaço do nosso futuro All Day Café e torrefação em uma das cenas, o que, sem dúvida, foi muito legal e ajudou a nos conectar com um público que talvez não alcançaríamos de outra forma.
O sr. pode falar um pouco sobre por que fundou a Metric Coffee e por que escolheu a transparência como um valor central?
A Metric foi fundada por mim e pelo meu sócio Darko Arandjelovic, em 2013, como uma forma de expressar nossas ideias sobre qualidade em café e hospitalidade, além de promover uma cadeia de fornecimento ética com pequenos produtores ao redor do mundo.
O problema da nossa indústria e, na verdade, de quase qualquer setor é que qualquer empresa pode fazer promessas ousadas sobre sustentabilidade, equidade na cadeia e transparência, e isso geralmente não é verificado.
No caso da Metric, começamos pequenos, sem investidores externos (e continuamos assim até hoje), com o objetivo de buscar sabor e fazer isso de um modo que permita que consumidores mais exigentes, que querem saber o que é um salário digno no setor cafeeiro, possam fazer parte da nossa conversa.
Resumindo: administrar fazendas e colher café é um trabalho extremamente difícil, e os produtores acabam sendo os atores mais marginalizados da cadeia, assumindo os maiores riscos. Por isso, o café não pode ser barato e não pode ser tratado como um caminho para torrefações e cafeterias obterem altas margens às custas dos produtores. Na minha opinião, o café merece o mesmo respeito e reverência que, por exemplo, um produtor francês de vinho biodinâmico.
Como a Metric garante a transparência e a conexão com os produtores sendo uma torrefação pequena?
No fim das contas, é visitando os produtores, sentando com eles, compartilhando uma refeição fresca da fazenda e fazendo perguntas importantes como: “Os preços que estamos pagando nesta safra são justos?”. A cada safra surgem novos desafios, sejam sociopolíticos, ambientais (como mudanças climáticas e doenças das plantas) ou a escassez de mão de obra.
Dentro do contexto da produção de café, os agricultores são frequentemente os mais mencionados, mas os colhedores, os que de fato colhem as cerejas maduras nos pés de café, são os menos visíveis. O agricultor e os colhedores precisam receber um preço justo pelo seu trabalho, de forma que seus salários sejam viáveis e compensem o tempo dedicado ao trabalho nas fazendas.
Por que vocês decidiram se tornar uma empresa B Corp?
A certificação B Corp foi essencial para a Metric porque, pelo que sei, não existe um sistema de avaliação mais rigoroso. Eles não estão aí apenas para pegar seu dinheiro e deixar qualquer um estampar o selo nas embalagens.
Mais importante ainda, para nós, essa certificação validou que o trabalho que fazemos é bom e justo, além de nos fornecer novas metas e parâmetros para aprimorar nossas práticas de negócio. Ainda temos um bom caminho a percorrer.
Vocês estão expandindo o negócio para incluir um restaurante. Pode contar mais sobre isso e como pretendem manter os valores e a cultura da Metric nesse novo espaço?
Não é surpresa que, para atrair boas pessoas, precisamos oferecer um ambiente em que elas possam ter sucesso, se inspirar, e receber salários que também lhes permitam se beneficiar da nossa missão de promover equidade do grão à xícara.
Como uma empresa com 10 anos de existência, começamos com apenas dois funcionários, um torrefador e um pacote de café, e hoje temos 22. Nas próximas semanas, esse número deve dobrar com a inauguração do nosso novo café: o Milli by Metric. Para nós, o Milli será nosso All Day Café, instalado em nosso armazém centenário, com teto em arco, no bairro Avondale, em Chicago.
E com mais pessoas, surgem mais oportunidades de nos apresentarmos a novos membros da equipe e a novos clientes, o que significa educar todos ao nosso redor sobre nossos valores e princípios inegociáveis, que, em essência, representam quem somos como pessoas.
Quais são os objetivos do sr. em relação à missão social da empresa daqui para frente? Há planos, por exemplo, para ampliar o conhecimento sobre o papel dos pequenos produtores ou desenvolver ainda mais os sistemas de transparência com eles?
Nesta nova fase, com nossa nova torrefação e All Day Café, estou animado para usar esses espaços como forma de gerar mais sinergia e entusiasmo em torno da arte de preparar café.
O que aprendemos ao longo da última década é que devemos educar os consumidores sobre as infinitas possibilidades de sabor do café e fortalecer essa narrativa com a conscientização sobre o poder transformador de um preço justo para os produtores.
Para nós, essa é uma missão sem fim. Será nosso propósito até que a Metric não exista mais. E, até lá, seguimos: comprando, torrando, ensinando, saboreando e celebrando a beleza e as complexidades dessa indústria maravilhosa que é o café.
* Christopher Marquis é colaborador da Forbes EUA, onde escreve sobre empresas que apostam na sustentabilidade para crescer.