07/06/2026

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Como a Família Quer Confinar 20 Mil Bovinos em Suas Fazendas

Quando decidiu criar um braço pecuário para o grupo familiar, em 2013, Thiago Manfrim não partiu do zero. Veterinário de formação e apaixonado por animais de grande porte desde a infância, ele levou para o campo a estrutura empresarial construída pela família na indústria de alimentação para cães e gatos. Treze anos depois, a MEM Agronegócios opera um rebanho de 8 mil bovinos em quatro propriedades de Mato Grosso do Sul, ocupa 14 mil hectares e prepara um projeto de confinamento que poderá mudar de escala o negócio.

O plano prevê chegar a uma capacidade estática de 22 mil animais, com três giros anuais, em um sistema que funcionará durante todo o ano. A primeira etapa deve começar em 2027, em Nova Alvorada do Sul (MS), com 2 mil animais estáticos. A ampliação será gradual até atingir a capacidade projetada.

“Se hoje a gente parar de receber investimento da indústria, o agro se toca sozinho e é sustentável”, afirma Thiago Manfrim, diretor da MEM Agronegócios, sucessor da segunda geração dos negócios fundados pelo pai Mário S. Manfrim e o tio Erik Manfrim.

Arq.PessoalMário Manfrim, um dos fundadores do negócio familiar

A operação faz parte do Grupo Manfrim, controlador da Special Dog Company, fabricante de alimentos para cães e gatos sediada em Santa Cruz do Rio Pardo (SP). O faturamento consolidado do grupo alcança R$ 2 bilhões. Embora a indústria ainda seja o principal negócio, a pecuária ganhou espaço dentro da estratégia familiar.

“Investindo no contrário, voltando para o agro e fazendo o negócio girar”, diz Manfrim ao comparar a trajetória da empresa com a de investidores rurais que migraram para atividades urbanas. Hoje, ele é o único representante da nova geração da família dedicado integralmente ao agronegócio. Os demais sucessores permanecem nas operações industriais. Mas nada longe do apreço por tecnologias.

No dia 16 de junho, Manfrim estará em São Paulo para contar sua experiência a uma plateia de executivos de telecomunicações, energia, indústria e agronegócio. Ele foi convidado para o MPN Forum, seminário promovido pela Mobile Time dedicado ao mercado de redes celulares privativas, em sua 6ª edição.

Na sessão “Redes privativas na pecuária: conectividade 4G NB-IoT aplicada ao monitoramento animal em tempo real”, Manfrim divide o palco com Felippe Antonelle, fundador da iBoi, a startup que instalou uma torre 4G privada em sua fazenda de recria para monitorar, em tempo real. “Estamos implantando o sistema na fazenda de Taquarussu, onde tem 4.300 animais entre recria e machos, e a meta é ir para 11 mil nesta área”, diz ele.

No mesmo evento, cases de São Martinho, Vale, Petrobras e Rede Globo vão mostrar como a conectividade privada vem transformando operações em usinas, mineradoras, plataformas e estúdios. A pecuária chega a esse fórum pela primeira.

O iBoi se define como uma hard tech que desenvolveu um brinco IoT transmitido via 4G, o único no mercado com essa tecnologia patenteada, que entrega três pilares dentro da propriedade: monitoramento e gestão do rebanho em tempo real; desbloqueio de crédito, porque o brinco funciona como instrumento de garantia fiduciária para bancos; mais rastreabilidade e sustentabilidade, um dado georreferenciado e imutável para certificações. “Não é um rastreador do animal. É um dispositivo de monitoramento do animal”, afirma Antonelle. “No caso do Thiago, ele tem um desafio específico a resolver, que é cuidar da segurança patrimonial. É uma área muito extensa, é uma propriedade que não tem cercas muito definidas, de grandes áreas.”

Uma história desde o berço

A história da pecuária dentro do grupo começou pouco depois da formação universitária de Manfrim. Formado em medicina veterinária pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), em Bandeirantes (PR), ele convenceu a família a abrir uma nova frente de atuação ligada à sua área de interesse.

“Sempre gostei de animais de grande porte. Quando formei, a gente optou em abrir um novo braço da empresa e acabei indo para a pecuária onde começamos a trabalhar.” Hoje, a estrutura da MEM Agronegócios está dividida em quatro propriedades. Duas delas, localizadas em Nova Andradina e Nova Alvorada do Sul, concentram a fase de cria. A terceira unidade, em Bataguassu, trabalha com recria de fêmeas e a quarta é de Taquarussu.

A operação é de ciclo completo. O grupo produz seus animais, recria, engorda e entrega para frigoríficos. A comercialização de genética não faz parte da estratégia principal, embora alguns touros eventualmente sejam vendidos na região. “Hoje eu só vendo animal para frigorífico.”

A expansão recente da recria alterou o ritmo de produção. Em 2025, o grupo abateu cerca de mil bovinos e para 2026 a expectativa é alcançar 6 mil animais terminados.

Por trás do crescimento está um trabalho de seleção genética iniciado há sete anos. O rebanho de melhoramento conta com 1.200 matrizes e utiliza exclusivamente inseminação artificial em tempo fixo (IATF). Não há touros nas propriedades. Segundo Manfrim, o objetivo principal é melhorar características ligadas à habilidade materna, produtividade e eficiência dos animais. Os resultados aparecem principalmente na redução da idade de abate.

“Antes de entrar no melhoramento genético, a gente abatia animais de 30 a 36 meses na faixa de 20 arrobas. Hoje, estou abatendo animais de 20 meses com 20 arrobas.”

A estratégia também alterou o perfil das fêmeas. As novilhas são desafiadas precocemente à reprodução. As que não emprenham aos 13 meses deixam o sistema. “Não tenho a fase de recria de fêmeas. As que emprenharam seguem. As que não emprenharam estão fora.”

Embora o Mato Grosso do Sul seja um dos estados onde os cruzamentos industriais avançaram com força nos últimos anos, Manfrim mantém a maior parte da operação baseada em animais Nelore.

A escolha passa pela adaptação da raça às condições da região e pela convicção de que ainda existe amplo espaço para ganhos produtivos por meio do melhoramento genético. “O Nelore tem muita rusticidade para a nossa região. Ele aguenta muita coisa e ainda tem muito a entregar.”

O diretor utiliza uma comparação para explicar a estratégia. Segundo ele, o cruzamento melhora um animal comum, mas os resultados se tornam mais expressivos quando aplicados sobre uma base genética superior.

Enquanto um bezerro de cruzamento produzido a partir de um rebanho convencional pode desmamar com cerca de 200 quilos, ele afirma que os animais Nelore selecionados da propriedade chegam a 290 quilos. Quando recebem cruzamento industrial, os machos alcançam aproximadamente 330 quilos na desmama.

Special Dog no Pasto: Como a Família Quer Confinar 20 Mil Bovinos em Suas Fazendas
Arq.PessoalAnimais nelore, raça em que o grupo aposta todas as fichas

O confinamento projetado para os próximos anos será sustentado principalmente por silagem produzida nas propriedades. Os grãos e demais ingredientes deverão ser adquiridos no mercado. “O que a gente garante é realmente a forrageira, a silagem que é a base do volumoso.”

Entre os ingredientes disponíveis na região está o DDG, coproduto das usinas de etanol de milho que se expandiram em Mato Grosso do Sul. Apesar da importância nutricional desse ingrediente nas dietas de confinamento, Manfrim afirma que a decisão de construir a estrutura não foi motivada especificamente por sua disponibilidade.

Para ele, a principal razão do investimento é empresarial. “O objetivo da gente crescer na pecuária foi realmente abrir um novo negócio para a família e estar em um novo segmento.” No horizonte da MEM Agronegócios também está a consolidação de uma marca própria na pecuária de corte. É um sonho, mesmo que Manfrim ainda o considere distante. “Nossa grande meta é ter uma genética reconhecida, animais reconhecidos pelo mercado pela qualidade da carne e um negócio sustentável economicamente.”

Além da pecuária, o grupo mantém atividades de reflorestamento desde 2006. As florestas estão concentradas na região de Ubirajara, interior paulista. Parte da madeira é consumida internamente pela indústria de alimentos para pets e o excedente é comercializado para empresas de celulose.

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