14/06/2026

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Como a Argentina Cobiça e Avança no Mercado Latino-Americano de Fungos, da Ordem de US$ 4,7 Bilhões

Shiitake. Champignon. Portobello. Durante talvez décadas demais, o fungo foi, na mesa argentina e de muitos outros países, apenas um recheio de torta ou molho. Hoje isso mudou completamente. Na América Latina, o mercado de produtos derivados de fungos, desde sua comercialização direta até os produtos elaborados a partir deles, já vale US$ 4,7 bilhões (R$ 24,1 bilhões na cotação atual) e a projeção é que alcance US$ 7,12 bilhões (R$ 36,8 bilhões) em 2035.

Enquanto isso, o mercado global de fungos cresce a uma taxa de 5,6% ao ano e a projeção é que alcance US$ 123,7 bilhões (R$ 639,53 bilhões) em 2034, segundo o IMARC Group. O aumento não é casual. Em nível global, três forças convergiram para transformar o reino fungi em um dos mercados com maior potencial: o crescimento das dietas baseadas em proteínas vegetais, a busca por materiais sustentáveis que substituam o plástico e o interesse científico e financeiro nos compostos bioativos dos fungos como alternativa terapêutica.

A Argentina não está alheia a nenhuma dessas três correntes. Nos últimos anos surgiu um ecossistema local que as desenvolve à sua maneira: com empreendedores jovens que começaram do zero, com a ciência pública como respaldo e com ambições que, em alguns casos, já ultrapassaram as fronteiras da região, ampliaram os negócios e hoje têm em mãos projetos que captaram investimentos de até US$ 4,85 milhões (R$ 25,07 milhões).

Cultivar a oportunidade

O fungo fresco é apenas uma das formas que esse negócio pode assumir. E é também a mais elementar: a que está mais próxima da terra e a que melhor mostra quanto espaço ainda existe no mercado local. O argentino consome, em média, 30 gramas de fungos por ano. Na Europa e na Ásia, esse número varia de 3 a 9 quilos per capita. A diferença não é apenas alimentar: trata-se de uma oportunidade de negócio que Santiago Rubio Martínez e seu sócio Alejo Botana enxergaram antes da maioria.

Os dois vinham de outro universo. Rubio Martínez trabalhava em um banco; Botana, em uma companhia aérea comercial. O que os uniu foi uma observação simples: Botana cultivava fungos em casa como hobby, e o mercado começava a falar de variedades que ninguém produzia em escala na Argentina. Em dezembro de 2023, com US$ 10.000 (R$ 51.700) cada um de suas economias, montaram a The Mushroom, uma fazenda em Vicente López dedicada a variedades gourmet: juba-de-leão, chestnut e enoki dourado.

“Fomos bastante ousados. Nosso estudo de mercado foi observar como, nas redes sociais e em sites, se falava de fungos que talvez alguns anos atrás nem fossem mencionados”, admite Rubio Martínez. “Só depois fizemos mentorias com fazendas dos Estados Unidos e confirmamos que a intuição estava correta.”

Eles começaram produzindo 200 quilos por mês e vendiam tudo antes do fim do mês. “Na terceira semana já não tínhamos mais fungos para vender. Os chefs internacionais ficaram fascinados; foi um boca a boca imparável.”

Isso lhes mostrou o caminho: era preciso expandir. Hoje produzem 1.000 quilos por mês e o objetivo para 2027 é mudar para um espaço maior e alcançar entre 2.000 e 2.500 quilos mensais.

O caminho teve seus atritos. Foi preciso aprender sobre máquinas, substratos e técnicas para ampliar a produção à medida que ela crescia. Aprenderam um ofício do zero e, por isso, as consultorias com a Southwest Fungi, uma das maiores fazendas dos Estados Unidos, foram fundamentais. O modelo de negócios também trouxe uma surpresa. Eles imaginavam focar no consumidor final e terminaram com mais de 50% das vendas destinadas a restaurantes, onde a regularidade do abastecimento foi decisiva para que os chefs pudessem incluir os produtos permanentemente em seus cardápios.

O próximo desafio não é de produção, mas de cultura. “A grande barreira é que as pessoas gostam deles, mas não sabem como prepará-los. Queremos que conheçam as formas de cozimento e, principalmente, os benefícios de incluí-los na lista de compras”, afirmam.

A resposta já está em andamento: livros de receitas, ações com influenciadores da culinária e, no horizonte, um canal no YouTube com chefs e receitas simples. A visão de longo prazo é ainda mais ambiciosa: que uma dona de casa possa comprar uma caixinha de juba-de-leão em qualquer rede de supermercados.

O fungo como estilo de vida

Se alguns encontraram o negócio na produção, outros o encontraram naquilo que o fungo pode proporcionar em termos de experiência, bem-estar ou luxo. As duas apostas são diferentes, mas compartilham a mesma leitura do momento: o fungo já não é apenas um ingrediente, mas uma plataforma.

Santino Martinez não chegou aos fungos adaptógenos, compostos bioativos capazes de ajudar o organismo a se adaptar e responder melhor ao estresse físico, mental e emocional, procurando um negócio. Ele começou a cultivá-los por conta própria e a perceber seus efeitos.

Há três anos, o empresário de 36 anos, junto com seu sócio Claudio Aponte, iniciou um empreendimento de suplementos à base de fungos adaptógenos sob a marca Fungalia. A solução foi uma linha de bebidas funcionais em pó, cacau, chai, golden milk e matcha, pensadas como alternativa ao café e formuladas com extrato de fungos funcionais. Dois gramas de fungos adaptógenos por xícara.

Começaram com US$ 70.000 (R$ 361.900) de capital próprio e, em menos de 12 meses, faturaram US$ 1 milhão (R$ 5,17 milhões). Tudo online, sem loja física e sem distribuição tradicional.

O motor foi o conteúdo direcionado ao público jovem que busca alternativas mais saudáveis: investiram em 120 anúncios ativos por dia no Instagram, TikTok e Google Ads, com uma lógica que Martínez resume assim: “Monitoramos o tempo todo o que funciona e o que não funciona. Vamos nos adaptando ao que o consumidor pede e entregamos isso.”

A marca apresenta alta recorrência de compra e as avaliações positivas já ultrapassam 2.000. A fábrica própria em Vicente López opera com autorização da ANMAT e certificação como Empresa B: embalagem 100% biocompostável e baixo consumo de água e energia.

The Mushroom/DivulgSantiago Rubio Martínez e Alejo Botana, fundadores do The Mushroom

O maior desafio, segundo ele, não foi a produção, mas a educação. “As pessoas geralmente não sabem o que é um fungo adaptógeno. Nosso primeiro trabalho é sempre explicar os benefícios, como ele atua no corpo, além de comunicar que somos uma Empresa B e o que isso significa.”

A estratégia foi trabalhar com médicos, influenciadores de nicho e referências da gastronomia. “O objetivo não é medir o impacto em vendas, mas sim como mudamos os hábitos das pessoas. Competimos com o café, com o estresse constante, com a vida acelerada. Vendemos hábitos, não uma moda.”

Por sua vez, Denise Pañella encontrou no micélio, a rede de filamentos subterrâneos que forma a estrutura radicular dos fungos, uma oportunidade de outra natureza: estética, luxo e materiais do futuro.

Formada em Design Industrial pela UBA durante a pandemia, ela retomou uma linha de pesquisa que havia descartado em sua tese final. Ao lado de biólogas do CONICET, passou anos ajustando formulações até compreender que não estava desenvolvendo apenas um produto, mas um material multifacetado: dependendo do resíduo agrícola e do processo de cultivo, o material muda completamente suas propriedades.

A empresa acumula mais de US$ 450.000 (R$ 2,33 milhões) em investimentos, destinados principalmente à pesquisa, desenvolvimento, equipamentos e infraestrutura. Hoje a Mosh opera com uma equipe de 12 pessoas e está em plena mudança para uma planta semi-industrial de 500 m² em Buenos Aires.

A estratégia inicial da empresária de 30 anos foi levar 18 m² de exposição, entre peças de design, joias produzidas a partir de micélio e amostras, para a Design Week de Milão. Ela voltou com conversas abertas com a Dior para lançamentos, embalagens e eventos.

Mosh/DivulgDenise Pañella, fundadora de Mosh

“O verdadeiro desafio não é demonstrar se o material desperta interesse, porque isso já é um fato. Cosméticos, bebidas, perfumes, design, embalagens… temos tanto interesse que continuamos crescendo. O desafio real é construir infraestrutura para atender essa demanda.”

A aposta farmacêutica

A face mais disruptiva do ecossistema fungi argentino está justamente naquilo que a maioria das pessoas associa imediatamente aos fungos: alucinógenos, psicodélicos. Quem se arriscaria a enfrentar o preconceito existente nesse campo? Um investidor da Tesla. Muitas vezes, o que é mais disruptivo também indica o tamanho da descoberta.

Victoria Costa Paz, cofundadora e CEO da Eywa Biotech, passa os últimos quatro anos desenvolvendo uma tecnologia que não extrai psilocibina dos fungos, mas sim imita os mecanismos usados por eles para produzi-la. Em outras palavras, ela produz a substância por biossíntese com padrões farmacêuticos e a uma fração do custo dos métodos tradicionais.

O objetivo é desenvolver tratamentos de alta qualidade, sem efeitos colaterais, eficazes e sustentáveis para pacientes com transtornos psiquiátricos.

Costa Paz, de 28 anos, chegou aos fungos por um caminho improvável. Estudou Comunicação, trabalhou em corporações e startups. Fez um mestrado em Negócios e Tecnologia na UdeSA durante a pandemia e, paralelamente, participou de um curso sobre bioplásticos, onde teve o primeiro contato com os fungos como material.

O ponto de virada veio por meio da Gridx, um fundo e company builder latino-americano. Nesse ambiente, ela conheceu uma equipe uruguaia que estudava fungos psicodélicos para o tratamento da depressão.

Fungalia/DivulgA Fungalia faturou US$ 1 milhão em menos de 12 meses

“A psilocibina, que é a molécula presente nesses fungos, tem enorme potencial. Havia ensaios clínicos nos Estados Unidos mostrando que ela era quatro vezes mais eficiente do que um antidepressivo em casos de depressão grave, depressão resistente e estresse pós-traumático.”

O que a Eywa faz é potencializar o natural. “De certa forma, imitamos processos da natureza dos fungos para torná-los mais escaláveis. Hoje nossa biossíntese trabalha com fungos e bactérias. Simulamos o metabolismo do fungo que produz psilocibina em um microrganismo que normalmente não a produz. Com bioinformática e inteligência artificial, adaptamos as condições necessárias para que esse microrganismo produza mais psilocibina. Isso é o que nos traz escalabilidade e acesso.”

Para financiar esse desenvolvimento, a empresa captou US$ 4,85 milhões (R$ 25,07 milhões) em duas rodadas de investimento. O marco mais visível foi uma rodada de US$ 2,5 milhões (R$ 12,93 milhões) liderada por Tim Draper, mas antes disso houve a Gridx, que aportou o primeiro cheque de US$ 200.000 (R$ 1,03 milhão).

Hoje a equipe conta com 16 pessoas, distribuídas deliberadamente da seguinte forma: 70% ciência e 30% negócios e operações. Ao lado de Pablo Salabarria, vindo da empresa de biotecnologia STAM e responsável pelas operações, e de Jorge Wenzel, cientista uruguaio encarregado da expansão biossintética, formam o trio que lidera a companhia.

A empresa já passou da escala laboratorial para biorreatores de 30 litros. O próximo salto será para 200 litros, diretamente na Austrália, com qualidade suficiente para comercialização em farmácias.

Forbes ArgentinaVictoria Costa Paz, cofundadora e CEO da Eywa Biotech

A poucos dias de emitir sua primeira fatura, US$ 400.000 em vendas (R$ 2,07 milhões na cotação atual) para o mercado australiano, a empresa projeta um faturamento de US$ 40 milhões (R$ 206,8 milhões na cotação atual) dentro de cinco anos.

O arco que vai do shiitake à psilocibina tem uma lógica interna que Costa Paz resume da seguinte forma: “Estamos no início de uma revolução, mas de outro tipo. Estamos vivendo uma onda em que observamos muito mais a biotecnologia. Estamos estudando processos da natureza para realizar uma revolução industrial diferente. A anterior dizia: coloquemos tudo em embalagens plásticas. A atual diz: existem coisas que já estão presentes na natureza e que, com mais ciência e inovação, podemos usar a nosso favor, sem que os processos sejam nocivos.”

Publicado originalmente em forbesargentina.com

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