O setor brasileiro de fertilizantes especiais, biofertilizantes, condicionadores de solo e substratos atravessou 2025 sob forte pressão econômica. Margens apertadas no campo, juros elevados, restrição de crédito, volatilidade cambial e incertezas geopolíticas criaram um ambiente desafiador para a indústria de tecnologias voltadas à produção vegetal.
Ainda assim, o segmento preservou o nível de adoção tecnológica nas lavouras e chega a 2026 apostando em uma retomada puxada por produtividade, eficiência agronômica e resiliência climática.
Os dados foram apresentados nesta quarta-feira (27), durante coletiva virtual da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal (Absolo), entidade que representa mais de 140 empresas ligadas à produção e importação de insumos para nutrição vegetal, como biofertilizantes e fertilizantes especiais.
Segundo o relatório de inteligência de mercado da entidade, publicado no Anuário 2026 da associação, o faturamento consolidado do setor recuou 5,5% em 2025, passando de R$ 26,9 bilhões para R$ 25,4 bilhões.
Para Clorialdo Roberto Levrero, presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo e representante da Ítale Fertilizantes, o desempenho reflete diretamente o ambiente econômico enfrentado pelo produtor rural ao longo do último ciclo.
“O ano de 2025 foi marcado por um ambiente extremamente desafiador para o produtor rural e, consequentemente, para toda a cadeia de insumos. A complexidade desses fatores levou o agricultor a postergar decisões, pressionar por menores preços de insumos e buscar maior cautela na gestão da produção”, afirmou.
Na avaliação de Gustavo Branco, vice-presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo e representante da FertiGlobal, o avanço das tecnologias nutricionais e biológicas segue ampliando a eficiência da agricultura brasileira, especialmente em um cenário de maior pressão sobre custos e necessidade de ganhos agronômicos.
Já Alexandre D’Angelo, diretor de Operações da entidade e responsável pela apresentação dos resultados, destacou que a conjuntura econômica acabou alterando a dinâmica de compra do produtor rural em 2025.
“Quando você tem expectativa de remuneração baixa, o que pode salvar é a produtividade. Então, a gente percebe que os produtos com mais aporte tecnológico sofreram um pouco menos”, afirmou.
Setor aposta em retomada em 2026
Mesmo com a percepção de que o ambiente econômico seguirá desafiador em 2026, a indústria projeta recuperação para o próximo ciclo.
A expectativa da Abisolo é de crescimento de até 11% no faturamento do setor, sustentado principalmente pela ampliação do uso de tecnologias premium, produtos biológicos e soluções ligadas à eficiência produtiva e adaptação climática.
Na avaliação da entidade, o produtor rural pode até reduzir despesas em momentos de maior pressão financeira, mas tende a preservar investimentos diretamente ligados ao desempenho produtivo da lavoura.
“O produtor continua entendendo que produtividade será cada vez mais decisiva para preservar rentabilidade”, diz Levrero.
Queda no faturamento não derruba adoção tecnológica

Apesar da retração financeira, a Abisolo avalia que o setor manteve praticamente estável o nível de adoção das tecnologias no campo. Segundo a entidade, não houve redução significativa dos volumes comercializados, sinalizando que fertilizantes especiais e biofertilizantes seguem consolidados dentro do manejo agrícola brasileiro.
O ambiente econômico, porém, pesou fortemente sobre toda a cadeia. A baixa rentabilidade das commodities agrícolas, sobretudo soja e milho, reduziu o espaço para investimentos mais agressivos por parte do produtor. Ao mesmo tempo, custos elevados, juros altos e aumento da inadimplência no agro ampliaram a cautela na concessão de crédito e pressionaram distribuidores e indústrias.
Dentro desse cenário, os fertilizantes minerais especiais, principal segmento econômico do setor, recuaram 10,7%, passando de R$ 23 bilhões para R$ 20 bilhões. A categoria concentra maior dependência de matérias-primas importadas e produtos mais expostos às oscilações internacionais de preços.
Orgânicos e biofertilizantes aceleram expansão
Enquanto segmentos mais ligados às commodities sofreram maior pressão sobre preços e margens, tecnologias de maior valor agregado mostraram comportamento mais resiliente.
Os fertilizantes organominerais avançaram 9% em faturamento entre 2024 e 2025. Já os fertilizantes orgânicos cresceram 58,5%, alcançando R$ 1 bilhão após a forte retração observada no ano anterior. Parte importante desse movimento veio da recuperação dos preços médios da categoria.
O maior destaque ficou com os biofertilizantes. Segundo a Abisolo, o segmento registrou crescimento de 76,7% em 2025, impulsionado pela ampliação dos registros de produtos no Ministério da Agricultura, pelo aumento da adoção no campo e pela entrada de novas empresas no mercado.
A entidade avalia que o avanço dos biofertilizantes está diretamente ligado à busca do produtor por ferramentas capazes de reduzir riscos climáticos, melhorar a eficiência fisiológica das plantas e elevar produtividade em ambientes mais estressados.
“Não dá pra falar de agricultura regenerativa sem levar esse tipo de tecnologia em conta”, afirmou D’Angelo durante a apresentação.
O movimento também vem sendo acompanhado pela expansão da indústria nacional de extratos de algas e soluções biológicas, especialmente em regiões litorâneas do Rio de Janeiro e de Santa Catarina, segundo dados apresentados pela entidade.
Condicionadores de solo e substratos também avançam

Além dos fertilizantes especiais e biofertilizantes, outros segmentos ligados à construção biológica do solo registraram crescimento em 2025.
O mercado de condicionadores de solo de base orgânica avançou 19,4%, alcançando faturamento de R$ 154 milhões. Os produtos classificados como Classe F lideraram o desempenho, com crescimento de 71,4% sobre 2024.
Já o mercado de substratos para plantas fechou o ano com faturamento de R$ 517,2 milhões, alta de 22,8% na comparação anual. O avanço foi influenciado principalmente pelo aumento dos preços de matérias-primas importadas utilizadas na composição dos produtos.
Segundo a entidade, culturas como café e flores ampliaram a adoção de substratos ao longo do ano, enquanto os segmentos florestal e sucroenergético reduziram participação.
Soja amplia liderança e Matopiba ganha participação
A soja reforçou sua posição como principal mercado consumidor das tecnologias representadas pela Abisolo. A cultura ampliou participação de 44,1% para 48,6% do faturamento total do setor entre 2024 e 2025.
O café também ganhou espaço impulsionado pelos preços mais elevados da commodity e pelo aumento dos investimentos em tecnologia por parte dos produtores.
Regionalmente, Minas Gerais permaneceu como principal estado consumidor, concentrando 22% das vendas nacionais do setor. Mato Grosso e São Paulo aparecem logo na sequência.
A entidade chamou atenção ainda para o avanço do MATOPIBA. Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia ampliaram participação conjunta no mercado, refletindo a expansão das novas fronteiras agrícolas brasileiras.