21/04/2026

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Brasil tenta evitar tarifaço em semana decisiva marcada por acordo entre EUA e UE.

Sem canal direto com a Casa Branca, Brasil aguarda aceno dos EUA para negociar tarifas. Chanceler Mauro Vieira está em Nova York e busca interlocução,

Menos de uma semana antes do fim do prazo para entrada em vigor do tarifaço, Estados Unidos e União Europeia (UE) fecharam um acordo que prevê tarifas de 15%, evitando que a ameaça de sobretaxa de 30% para os 27 Estados-membro se tornasse realidade. A medida deve trazer alívio aos mercados neste começo de semana por reduzir incertezas a respeito do comércio global. Mas a proximidade da data-limite de 1º de agosto aumenta a pressão sobre o Brasil, que ainda não conseguiu estabelecer um canal direto de negociação com a Casa Branca e busca negociar para não enfrentar o risco de lidar com tarifas de 50%.

O acordo foi anunciado após reunião entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen no resort de golf de Trump em Turnberry, na Escócia. O entendimento prevê tarifa-base de 15% sobre a maioria dos produtos, inclusive automóveis. Aço e alumínio seguirão com taxa de 50%.

Produtos farmacêuticos e metais ficaram de fora do acordo, segundo Trump. O acerto prevê investimentos de US$ 600 bilhões nos EUA, compra de US$ 750 bilhões em produtos energéticos nos próximos três anos e a promessa de adquirir “grandes quantidades” de equipamentos militares americanos.

Ainda assim, o acordo representa um aumento em relação à tarifa recíproca anunciada por Trump em abril sobre produtos europeus, de 10%.

Estratégia de negociação

Os termos do entendimento dão indícios da estratégia de Trump. A tarifa-base é a mesma fechada com o Japão e parece ser uma espécie de piso. Em contrapartida, os EUA têm exigido investimentos bilionários no país. Na semana passada, o Japão se comprometeu com aportes de US$ 550 bilhões.

— Acho que será ótimo para ambas as partes — disse Trump após o encontro, acrescentando que não haverá tarifas para produtos americanos exportados para a Europa. — Temos a abertura de todos os países europeus, que eu posso dizer que estavam essencialmente fechados.

A tarifa média aplicada no bloco hoje é de 2,8%, segundo dados da Organização Mundial do Comércio. O entendimento selado ontem foi definido por Trump como “o maior de todos os acordos”.

A presidente da Comissão Europeia afirmou que o acordo “trará estabilidade” e “previsibilidade”.

— Queríamos reequilibrar o comércio que realizamos — afirmou.

Caso não tivesse sido possível chegar a um acordo, a UE já havia elaborado um plano de retaliação que alcançaria um terço das exportações americanas para o bloco, o equivalente a US$ 117 bilhões, com tarifas de 30%. O anúncio encerrou meses de diplomacia intensa e, por vezes, tensa entre Bruxelas e Washington.

Michael Brown, estrategista sênior da Pepperstone, disse à Fortune que as montadoras europeias estão entre os vencedores do acordo já que as tarifas de automóveis devem cair dos atuais 25% para 15%, assegurando o mesmo patamar alcançado pelo Japão. Os setores de defesa e de energia dos EUA também são apontados entre os que saíram da negociação com saldo positivo.

Trump disse que está “analisando acordos com três ou quatro outros países”.

Segundo analistas, embora as tarifas acordadas até agora sejam menores que as ameaçadas a partir de agosto, haverá impacto na tomada de decisão de empresas e nos preços de produtos para os americanos.

No ano passado, o déficit dos EUA com os 27 Estados-membros da UE foi de US$ 235,6 bilhões. Esse é um dos pontos que evidenciam a dificuldade de negociação para o Brasil, já que os EUA já são superavitários nas transações comerciais com o país. Diante da situação, Trump está preparando uma nova base legal para aplicar o tarifaço contra o país, já que a lei de emergência não se enquadraria.

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou que não se pode comparar o acordo de Trump com a UE com a ameaça de tarifa de 50% ao Brasil. O governo Lula argumenta que os EUA querem colocar em discussão processos em andamento no Judiciário brasileiro.

Chanceler vai aos EUA

Na carta em que anunciou tarifas sobre produtos brasileiros, Trump citou o ex-presidente Jair Bolsonaro e disse que o julgamento no Supremo Tribunal Federal era “vergonha internacional”.

— Não conheço em detalhe (o acordo) e, ao que me consta, a UE não teve seu sistema judicial agredido. Não dá para comparar — disse Amorim ao GLOBO. — O comércio internacional está sujeito a regras, e elas têm que ser seguidas.

O Brasil ainda tenta negociar. O chanceler Mauro Vieira está em Nova York para uma reunião da ONU. Segundo fontes, a mensagem é que se os EUA indicarem que estão prontos para conversar sobre tarifas, o Brasil também estará. A questão é que o governo brasileiro pretende restringir o debate a questões comerciais. A orientação do presidente Lula é não permitir contaminação política ou ideológica.

Semana passada, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, disse ter conversado com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick. Os produtos do Brasil afetados pelo tarifaço incluem carne bovina, café, suco de laranja e bens industriais.

Ministros afirmam que os canais de negociação com os EUA foram obstruídos de forma deliberada. O que está sendo colocado pelas autoridades americanas é visto como chantagem, segundo fontes do governo.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, o fechamento do acordo com a UE aumenta as expectativas sobre o governo brasileiro para tentar reverter a tarifa de 50%, mas o tempo é curto.

— Não temos muita coisa a fazer neste momento. Agora é torcer para que os EUA resolvam negociar. Quanto mais rápido isso acontecer, menores os prejuízos para o Brasil. (…) Pode ser que, mais tarde, cheguemos a um ponto final e o Trump acabe fazendo um acordo para reduzir esse percentual (de 50%). Mas, neste momento, ele vai usar o tempo e vai deixar o Brasil sangrar muito, infelizmente, afirma.

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