O banco estatal reportou nesta quarta-feira (14) um dos piores trimestres de sua história recente. O lucro líquido ajustado despencou 54% no primeiro trimestre de 2026, para R$ 3,4 bilhões, em um resultado que revela a deterioração acelerada da carteira rural e expõe os efeitos tardios da crise no campo iniciada após a quebra da safra de soja de 2024.
O principal foco de pressão está na inadimplência rural. O índice de atrasos acima de 90 dias no agronegócio saltou para 6,22% da carteira, avanço expressivo de 3,5 pontos percentuais em apenas um ano. Em um banco cuja presença no setor é dominante, com R$ 418,4 bilhões em crédito ao agro, a deterioração rapidamente contaminou os resultados.
A consequência apareceu nas provisões para perdas, mecanismo que os bancos usam para absorver possíveis calotes futuros. O BB separou R$ 16,8 bilhões para cobrir riscos de inadimplência no trimestre, alta de 46% em relação ao mesmo período do ano anterior. Trata-se de um aumento suficientemente grande para consumir boa parte da rentabilidade da instituição.
O impacto foi direto sobre o retorno ao acionista. O ROE – indicador central para medir eficiência e lucratividade bancária – caiu para 7,3%, praticamente metade do nível considerado saudável para grandes bancos brasileiros e muito abaixo dos 16,7% registrados um ano antes.
A deterioração ajuda a explicar por que o banco decidiu reduzir sua projeção de lucro para 2026. A expectativa anterior, entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, foi revisada para uma faixa entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões. Em linguagem de mercado, trata-se de um raro reconhecimento público de que o cenário piorou mais rápido do que a administração previa.
Colapso no campo
Após a supersafra de 2023, produtores rurais ampliaram investimentos apostando na continuidade dos preços elevados das commodities agrícolas. A reversão veio de forma abrupta: quebra de safra em importantes regiões produtoras, queda nas cotações internacionais da soja e aumento do custo financeiro provocado pelos juros elevados. Muitos produtores passaram a operar pressionados por margens estreitas e forte endividamento.
Nos últimos anos, recuperações judiciais no agronegócio deixaram de ser eventos isolados para se transformar em um fenômeno disseminado no interior do país. O Banco do Brasil, por sua posição histórica no financiamento rural, tornou-se inevitavelmente a instituição mais exposta ao problema.
O banco tenta agora administrar a deterioração sem interromper completamente o fluxo de crédito ao setor. Segundo a instituição, R$ 37,9 bilhões em dívidas rurais já foram renegociados por meio do programa BB Regulariza Dívidas Agro, envolvendo mais de 73 mil operações e cerca de 25,5 mil produtores.