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Todos sabemos que frutas e vegetais frescos fazem bem à saúde, mas o solo e o ambiente ao redor onde essas culturas crescem também influenciam diretamente nossa saúde e bem-estar. O novo relatório do governo dos Estados Unidos, Make America Healthy Again (Tornar a América Saudável Novamente), destaca como fatores ambientais, incluindo a exposição a substâncias químicas, podem afetar a saúde da população. Independentemente das diferenças políticas, a saúde dos cidadãos é uma preocupação comum a todos.
O novo estudo abre oportunidade para o enfrentamento dessa questão de forma direta, promovendo a primeira linha de defesa da natureza contra doenças: a alimentação. Ou, mais especificamente, a forma como os alimentos são cultivados. Quando a produção é feita em harmonia com a natureza, os alimentos podem beneficiar a saúde humana, ao mesmo tempo em que melhoram os solos, as águas e a vida selvagem dos quais todos dependemos. Os agricultores americanos, que movimentam a economia e cuidam das terras agrícolas, têm um papel fundamental na construção de uma América mais saudável.
Mas, para que os agricultores adotem novas práticas, é necessário oferecer incentivos e apoio que tornem essas mudanças acessíveis e economicamente viáveis. Na organização The Nature Conservancy, organização dedicada à conservação ambiental, isso já está sendo colocado em prática.
A adoção em larga escala de práticas agrícolas conservacionistas pode ajudar a reverter o crescimento das doenças crônicas, que afetam cerca de 129 milhões de americanos. Quando os agricultores contam com oportunidades e recursos para utilizar práticas como manejo preciso de fertilizantes, cultivo de plantas de cobertura e faixas de proteção nas bordas dos campos, é possível manter fertilizantes e outros insumos agrícolas no campo, e fora do ar e da água que todos compartilhamos.
Dados mostram que certas práticas agrícolas podem gerar sérias consequências negativas para a saúde. Cientistas já documentaram que a exposição não intencional a fertilizantes em excesso e subprodutos de dejetos animais representa um problema de saúde pública que atinge comunidades rurais e urbanas.
As evidências apontam para riscos maiores de câncer, doenças da tireoide, problemas respiratórios e condições pré-natais em crianças em desenvolvimento. Os agricultores levam esses riscos a sério, mas as políticas e programas atuais ainda não estimulam suficientemente a demanda por práticas que promovam melhores resultados em saúde. Muitos deles continuam sem acesso a financiamentos e aos recursos necessários para implementar melhores métodos de manejo.
Pesquisas também reconhecem que lavouras bem manejadas conseguem reduzir o escoamento de nitrogênio, fósforo e outros produtos químicos para os cursos d’água. Plantas de cobertura, menor revolvimento do solo, manejo eficaz de esterco e a otimização do momento, local e quantidade de fertilizante aplicado são estratégias que diminuem o excesso de produtos químicos na água e no ar.
Métodos como barreiras vegetadas, áreas úmidas construídas e faixas de pradaria ajudam a capturar fertilizantes e subprodutos do tratamento das lavouras antes que escapem para os corpos d’água. Conter o excesso de nutrientes vindos dos cultivos é benéfico para a saúde pública e para o meio ambiente.
Qualidade da água e do ar não são as únicas formas pelas quais os agricultores contribuem para a melhoria da saúde. A segurança alimentar é uma questão importante para todos os americanos. Alguns dos patógenos que afetam os consumidores têm origem na fazenda. A contaminação de folhas verdes, por exemplo, gera um prejuízo anual de US$ 5 bilhões (R$ 27,9 bilhões na cotação atual) nos EUA.
Algumas regulamentações de segurança alimentar incentivaram os agricultores a remover vegetação ao redor dos campos e a abater animais silvestres que poderiam ser vetores de doenças. No entanto, a ciência mostra o contrário: a vegetação nativa e a diversidade da fauna podem, na verdade, ajudar a proteger contra a transmissão de patógenos e promovem a presença de polinizadores nativos. Esses animais melhoram a produtividade agrícola e auxiliam no controle natural de pragas, reduzindo a necessidade do uso de pesticidas.
Embora seja necessário um manejo cuidadoso nesses casos, essa é uma prova de como as práticas agrícolas podem beneficiar simultaneamente a segurança alimentar e o meio ambiente. Cada vez mais, os agricultores estão adotando ações de conservação por conta de seus benefícios à saúde, impacto ambiental positivo, melhoria da fertilidade do solo e redução de custos.
Programas estaduais e federais têm incentivado essa mudança, promovendo a adoção dessas práticas em milhões de hectares nas regiões da Bacia do Rio Mississippi, uma das maiores e mais produtivas regiões agrícolas do mundo, sendo fundamental para a segurança alimentar e para o mercado global de commodities agrícolas, e da Baía de Chesapeake, também essencial para a agricultura dos EUA, com melhorias comprovadas na qualidade da água.
No Tennessee, por exemplo, o Agricultural Resources Conservation Fund, fundo criado para apoiar práticas de conservação de recursos naturais em propriedades rurais. Apesar do impacto positivo dos programas estaduais e federais, ainda é preciso aumentar a adesão para que se alcance progresso efetivo na saúde humana e ambiental. Muitos produtores rurais continuam precisando de mais acesso a financiamento, assistência técnica, equipamentos e outros recursos para aplicar essas práticas em suas propriedades.
Os programas voluntários de conservação com incentivos, autorizados pela Lei Agrícola dos EUA, a Farm Bill, são populares entre os agricultores americanos. No entanto, a demanda por esses programas ainda supera amplamente os recursos disponíveis. A Comissão Make America Healthy Again tem a chance de adotar várias estratégias eficazes em seu plano de ação, previsto para ser divulgado ainda neste verão, até agosto.
Uma das estratégias poderia ser a ampliação de programas estaduais e federais de co-financiamento que incentivem a adoção das práticas, respeitando as necessidades de cada produtor. Políticas públicas que incentivem práticas de conservação, ao mesmo tempo em que protejam os agricultores contra riscos financeiros, também seriam bem-vindas.
Essas políticas podem incluir a redução dos prêmios de seguro rural para produtores que implementem planos de manejo de nutrientes, faixas de vegetação e outras práticas relevantes. Outra sugestão seria oferecer taxas de financiamento diferenciadas para agricultores interessados em adquirir equipamentos de agricultura de precisão, que otimizem o uso de fertilizantes.
A Comissão também poderia propor uma política de preferência em compras governamentais para culturas cultivadas com práticas agrícolas conservacionistas. Todas essas medidas tornariam mais viável e econômica a adoção dessas abordagens.
As práticas agrícolas baseadas na natureza são estratégias comprovadas, com base científica, que beneficiam a saúde humana, do solo, da água e do ar. Mas ainda há muito a ser feito. Os EUA, nos níveis federal e estadual, precisa apoiar os agricultores em seu esforço contínuo para manter as fazendas e a população do país saudáveis, agora e no futuro.
* Bill Frist é colaborador da Forbes EUA, onde escreve sobre saúde pública, mudanças climáticas, conservação e políticas agrícolas.