Setor agrícola europeu teme perdas econômicas e concorrência desleal com avanço de acordos comerciais entre a União Europeia, o Mercosul e a Ucrânia.
Agricultores de diversos países da União Europeia (UE) vêm aumentando a pressão sobre autoridades do bloco diante das negociações e concessões comerciais com o Mercosul e a Ucrânia. A principal preocupação do setor é que esses acordos prejudiquem diretamente os produtores europeus, gerando concorrência desleal e riscos à segurança alimentar e ambiental.
Preços pressionados e regras desiguais
As críticas se concentram no temor de que o aumento das importações de produtos agrícolas como carne, grãos, açúcar e aves possa levar a uma queda generalizada de preços no mercado europeu. Segundo os agricultores, países como Brasil, Argentina e Ucrânia produzem em grande escala com custos mais baixos e sob normas sanitárias e ambientais menos rigorosas.
“Não podemos competir com produtores que usam pesticidas proibidos na Europa ou que desmatam para ampliar suas lavouras”, disse em nota a Confederação Nacional dos Sindicatos Agrícolas (FNSEA), da França.
Acordo com o Mercosul travado
O acordo comercial entre a UE e o Mercosul foi concluído tecnicamente em 2019, mas ainda não entrou em vigor. Países como França, Áustria e Irlanda resistem à ratificação, exigindo garantias ambientais mais rígidas, especialmente em relação ao combate ao desmatamento na Amazônia.
Mesmo com novas cláusulas ambientais em discussão, agricultores temem que o acordo favoreça apenas os exportadores sul-americanos e prejudique os pequenos produtores europeus.
🇺🇦 Importações ucranianas geram crise no Leste Europeu
Desde o início da guerra na Ucrânia, a UE suspendeu tarifas e cotas para produtos agrícolas ucranianos como forma de apoiar o país. No entanto, a medida provocou saturação dos mercados locais em países como Polônia, Hungria e Eslováquia, onde o setor agrícola entrou em crise.
“Estamos sendo esmagados por grãos importados a preços muito baixos”, afirmou um representante da Associação de Produtores Rurais da Polônia durante protesto em Varsóvia, em abril deste ano.
Protestos e pedidos por reciprocidade
Nos últimos meses, manifestações de agricultores tomaram conta das estradas e capitais de diversos países da UE. Os produtores exigem que os acordos comerciais respeitem o princípio da reciprocidade, ou seja, que produtos importados também sigam as mesmas regras ambientais, sanitárias e trabalhistas exigidas dentro do bloco europeu.
Organizações agrícolas pedem ainda a criação de mecanismos de compensação financeira para produtores locais afetados e defendem que a UE proteja a soberania alimentar do continente.
União Europeia sob pressão
A Comissão Europeia afirma que está buscando equilibrar os interesses econômicos, ambientais e geopolíticos. No entanto, a pressão política interna e a oposição crescente dos agricultores tornam cada vez mais difícil avançar com esses acordos sem ajustes.
Com as eleições europeias se aproximando, o tema promete ganhar ainda mais relevância nos debates políticos e nos corredores de Bruxelas.