19/05/2026

19/05/2026

Search
Close this search box.

Acordo UE–Mercosul: o que já vale, o que ainda precisa ser aprovado

Reprodução Mercosul

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul finalmente saiu do papel. Assinado em Assunção, no último sábado (17), ele entra agora na fase mais sensível, e menos compreendida, de todo o processo: a da implementação política, institucional e regulatória. É aqui que o jogo começa de verdade.

Na cerimônia de assinatura, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi direta ao ponto ao tentar enquadrar o espírito do tratado. Segundo ela, este não é um acordo de tarifas, mas uma opção estratégica pelo comércio e pela cooperação, uma escolha por “comércio justo em vez de tarifas” e por parceria produtiva em vez de isolamento. O acordo não se limita a reduzir impostos; ele cria uma arquitetura de relacionamento de longo prazo entre dois blocos que somam cerca de 700 milhões de consumidores.

A assinatura: ponto de partida, não de chegada

A assinatura em Assunção representa o aval político máximo para que o texto avance. Mas ela não coloca o acordo em vigor automaticamente. O que foi assinado é o texto-base, que agora precisa percorrer um caminho institucional longo e, em alguns trechos, politicamente tortuoso. É o sinal verde inicial, necessário, mas longe de suficiente.

Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!

O próximo grande passo é a votação no Parlamento Europeu, prevista para até maio de 2026. Esse voto é decisivo porque permite a separação do acordo em partes. Ao aprovar o texto, o Parlamento autoriza a chamada aplicação provisória da parte comercial, mesmo sem a ratificação completa de todos os países-membros.

Aqui, o discurso ambiental e as resistências agrícolas reaparecem, especialmente em países que convivem com uma agropecuária altamente subsidiada e pouco competitiva. Mas, como a própria Comissão Europeia tem reiterado, trata-se menos de proteção ambiental e mais de adaptação política interna.

Aplicação provisória: quando o efeito começa a ser sentido

Com a aprovação europeia, a parte comercial do acordo pode começar a valer já no segundo semestre de 2026. Isso inclui:

  • redução gradual de tarifas,
  • abertura de cotas,
  • facilitação logística e aduaneira.

É o momento em que o produtor, o exportador e a indústria começam a sentir efeitos práticos. Mas é fundamental entender: tarifa é apenas a camada mais superficial do acordo.

O Mercosul decide por dentro

Na sequência, cada país do bloco sul-americano precisa aprovar sua adesão internamente: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Essa etapa envolve Congresso, debates setoriais e interesses domésticos. Não costuma ser rápida, mas tende a ser menos travada do que na Europa, justamente porque o Mercosul vê no acordo uma âncora de acesso estável a mercados e investimentos.

O verdadeiro gargalo está na Europa. Para que o acordo entre em plenitude, cada um dos 27 parlamentos nacionais da União Europeia precisa ratificá-lo. Esse processo pode se estender até 2028. Só então entram plenamente em vigor os capítulos mais profundos: regras sanitárias, compras governamentais, serviços, cláusulas regulatórias e mecanismos de solução de controvérsias.

O acordo não se resume a tarifas

Reduzir o acordo UE–Mercosul a um debate sobre impostos é um erro estratégico. O núcleo do tratado está em regras, previsibilidade e poder normativo. Quem define padrões define mercados. E é exatamente isso que a Europa tenta preservar, ao mesmo tempo em que reconhece sua dependência estrutural de alimentos, ração animal e energia limpa.

Para o Mercosul, e especialmente para o agro brasileiro, o ganho não está apenas em vender mais, mas em vender com segurança jurídica, contratos de longo prazo e acesso preferencial a um mercado que envelhece, produz menos alimentos e consome mais proteína.

O acordo UE–Mercosul já começou a andar, mas ainda não chegou ao destino final. 2026 marca o início dos efeitos comerciais. 2028 pode marcar a consolidação institucional. Entre uma coisa e outra, haverá resistência, ruído político e tentativas de reinterpretação.

Como disse Ursula von der Leyen, este não é um acordo de tarifa. É um acordo de direção. Para o produtor e para o setor produtivo, a leitura precisa ser madura: a regra fica por décadas. O imposto é só o começo.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

O post Acordo UE–Mercosul: o que já vale, o que ainda precisa ser aprovado apareceu primeiro em Canal Rural.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Paraná libera R$ 442 milhões para obras em municípios e estradas rurais

O governo do Paraná anunciou nesta terça-feira (19) a liberação de aproximadamente R$ 442 milhões…

EUA Esperam Que China Aumente Compras de Produtos Agrícolas, Diz Representante Comercial

Os Estados Unidos esperam um “aumento de dois dígitos” nas compras de produtos agrícolas da…

BC reafirma câmbio flutuante e descarta atuar para definir preço do dólar

O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Nilton David, afirmou nesta terça-feira (19)…