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O setor de alimentos no Brasil vive um momento de profunda transformação. Com mais de 41 mil empresas, das quais 94% são pequenas e médias, o segmento produz cerca de 283 milhões de toneladas por ano e movimenta R$ 1,3 trilhão em receita, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA).
Embora expressivos, esses números escondem um desafio estratégico: a inovação no setor alimentício depende de uma cooperação efetiva entre ciência, indústria e regulação, para que novas tecnologias saiam dos laboratórios e cheguem com segurança e conformidade à mesa do consumidor.
Nos últimos anos, têm se intensificado a necessidade de aproximar esses três pilares — ciência, negócios e regulação — Um exemplo recente dessa mobilização foi o evento “Embrapa + InnovaReg — Impulsionando o Futuro da Alimentação”, realizado on-line no final de outubro, em todo o Brasil, que reuniu representantes da pesquisa, do governo, da indústria de alimentos e bebidas e de entidades setoriais do setor, com o objetivo de transformar ciência em inovação concreta.
A discussão reforçou a importância de alinhar o avanço tecnológico às exigências regulatórias e à competitividade do setor. Ainda, que a aplicação da regulação deve ser tratada como parte integrante da estratégia de inovação, desde o início dos projetos, garantindo a missão das agências de proteger a saúde pública.
Parcerias que geram valor e confiança
A aproximação entre instituições de pesquisa e empresas pode ocorrer de diversas formas, desde o desenvolvimento de novos ingredientes até a concessão de licenças de tecnologias e a implementação de programas de inovação aberta.
Soluções da Embrapa como fibras alimentares extraídas de frutas brasileiras, corantes e extratos naturais, proteínas alternativas, plataformas de extrusão sem glúten e embalagens inteligentes ilustram o potencial transformador dessa cooperação, ao mesmo tempo em que reforçam a necessidade de implementação dos marcos regulatórios.
O pilar regulatório, por sua vez, tem se consolidado como fator crítico de credibilidade e competitividade. O Brasil vive um processo de modernização normativa, no qual Anvisa e Mapa acompanham tendências internacionais, adotando mecanismos como reconhecimento de equivalência com agências estrangeiras, sandbox regulatório e procedimentos mais ágeis.
Essas medidas permitem acelerar a introdução de ingredientes inovadores, preservando a segurança e a conformidade. Ainda assim, há espaço para que a indústria avance na qualidade e consistência dos processos submetidos às autoridades sanitárias para que tais mecanismos gerem aprovações e resultados positivos no mercado consumidor.
Ainda no Brasil, uma iniciativa complementar no campo da educação e da confiança é o Programa Comer com Ciência, criado pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital/Apta) em parceria com a Fundepag. O projeto nasceu para transformar a relação das pessoas com a industrialização dos alimentos, trazendo explicações técnicas de forma acessível e confiável.
Ao incentivar decisões alimentares mais conscientes, o Comer com Ciência conecta ciência, indústria e sociedade, mostrando que a aceitação de novos produtos depende tanto de inovação e regulação quanto de uma comunicação transparente com o consumidor.
Aprendizados internacionais
Na Europa, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) ressalta que sua missão não pode ser cumprida apenas com recursos próprios: é necessário transformar colaborações pontuais em parcerias de longo prazo. O programa de trabalho 2024-2026 destaca que, tanto no nível europeu quanto nos Estados-Membros, parcerias entre as organizações elegíveis são essenciais, alinhadas à abordagem One Health, que procura equilibrar, de forma sustentável, a saúde de pessoas, animais e ecossistemas.
De acordo com o documento, somente por meio de um trabalho conjunto, com compartilhamento de conhecimento, dados e métodos, é que a União Europeia conseguirá manter seus padrões elevados de segurança alimentar.
O Canadá também possui um exemplo relevante. O Programa Canada’s Global Innovation Clusters, iniciativa que conecta empresas, instituições de pesquisa e organizações sem fins lucrativos para acelerar o desenvolvimento de tecnologias e soluções com impacto econômico e social.
O Protein Industries Cluster, por exemplo, integra esse Programa envolvendo toda a cadeia de valor —da genética de sementes e pesquisa agrícola, passando pela produção e processamento de ingredientes, até a criação de produtos finais — para desenvolver ingredientes e produtos plant based, melhorar a sustentabilidade e a rastreabilidade do campo à mesa.
O modelo inclui um centro de pesquisa regulatória dedicado a apoiar seus membros com questões sobre a legislação, na interlocução com autoridades, fortalecendo a comercialização e a competitividade de produtos e processos inovadores.
A segurança como motor da inovação
Em 2024, a indústria brasileira de alimentos investiu aproximadamente R$ 24,9 bilhões em inovação. No entanto, a velocidade de implementação dessas inovações depende de um ambiente de negócios com segurança jurídica e convergência regulatória. Para que novas tecnologias ganhem escala, é fundamental fortalecer parcerias público-privadas, aprimorar os processos regulatórios e garantir que as agências estejam adequadamente estruturadas para lidar com a complexidade crescente dessas novas demandas.
Os debates e experiências recentes demonstram que esse avanço é possível. A criação de espaços de diálogo entre pesquisa, indústria e governo têm mostrado que a integração entre ciência, inovação e regulação é a via mais promissora para impulsionar um sistema alimentar sustentável, seguro e competitivo.
Como profissional da área regulatória há mais de duas décadas, acredito firmemente que o futuro do setor depende dessa tríade. Se queremos alimentos mais saudáveis, sustentáveis e acessíveis, precisamos construir pontes entre pesquisa e negócios — e, sobretudo, atuar em parceria com as autoridades sanitárias para garantir que a inovação chegue à mesa do consumidor com segurança, transparência e conformidade.
*Amanda Poldi é nutricionista, mestre em educação nas profissões de saúde, especialista e líder de assuntos regulatórios e rotulagem há mais de 24 anos, e sócia-fundadora da Consultoria de Estratégia e Inovação em Regulatórios de Alimentos (INNOVAREG). Foi vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (ABIA) e do International Life Sciences Institute-ILSI Brasil, além de presidente do Comitê de Qualidade de Óleos e Gorduras da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
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