A qualidade de um ovo começa muito antes de chegar às prateleiras dos supermercados. Desde a escolha do pintinho, passando pelo manejo das aves, controle sanitário, classificação e embalagem, cada etapa da produção influencia diretamente a segurança do alimento, sua durabilidade e a confiança do consumidor.
Em um cenário de exigências crescentes por qualidade e rastreabilidade, o setor avícola tem ampliado os investimentos em monitoramento de processos e automação para reduzir falhas e garantir padrões cada vez mais elevados.
Segundo a médica-veterinária e consultora em controle de qualidade para a indústria de ovos, Samara Verza, o primeiro passo é a aquisição de pintinhos provenientes de incubatórios registrados e com garantia sanitária. A fase inicial de criação também é decisiva para o desempenho futuro das aves.
“A primeira semana de vida é fundamental. O aquecimento adequado, a ambiência e o desenvolvimento da estrutura óssea e da carcaça são fatores que determinam a capacidade produtiva da ave durante todo o ciclo”, explica Verza.
Após essa fase, o calendário sanitário passa a ser um dos principais pontos de atenção. A especialista destaca que o programa de vacinação deve ser elaborado conforme a região, já que os desafios sanitários variam entre estados e até municípios.
Casca íntegra aumenta a vida útil do produto
Quando os ovos deixam a granja e seguem para a indústria de classificação, uma nova etapa de controle começa. Entre os fatores mais importantes está a identificação de microtrincas na casca, que podem reduzir significativamente a vida útil do alimento, principalmente em períodos de temperaturas elevadas.
“Hoje existe tecnologia de ovoscopia eletrônica para retirar microtrincas de ovos. É, talvez esse problema de microtrinca seja o mais importante quando a gente fala de clima quente, porque ele que vai dizer quanto tempo que o ovo vai durar. Um ovo com uma microtrinca, submetido a uma temperatura alta, nos dias muito quente, ele vai estragar muito mais rápido”, explica.
Além da triagem, os ovos passam por lavagem, secagem e embalagem. A secagem completa antes do empacotamento é indispensável para evitar o desenvolvimento de fungos, mofo e bolores durante o armazenamento.
Estrutura e treinamento
De acordo com a consultora, boa parte das não conformidades encontradas em granjas e indústrias inspecionadas está relacionada à manutenção da estrutura física e dos equipamentos.
Instalações danificadas, falhas em equipamentos e processos pouco padronizados comprometem a eficiência operacional e aumentam os riscos de perdas.
Outro desafio é a alta rotatividade de funcionários, que exige treinamentos frequentes para garantir que todos os procedimentos sejam executados corretamente.
“Os processos precisam estar bem definidos e as equipes constantemente capacitadas para manter os padrões de qualidade exigidos pelas normas de inspeção”, destaca.
Automação exige cuidados
Embora a automação tenha ampliado a eficiência das granjas de maior porte, ela também exige atenção para minimizar danos aos ovos durante o transporte interno.
Segundo Verza, sistemas automatizados por esteiras podem apresentar índices maiores de quebra quando não recebem manutenção adequada.
A lubrificação das esteiras, a redução de impactos durante o transporte e o acompanhamento constante dos equipamentos são medidas importantes para preservar a integridade da casca.
Outro fator que influencia a resistência dos ovos é a idade das aves. Galinhas mais velhas tendem a produzir ovos com cascas mais finas, tornando-os mais suscetíveis a rachaduras e perdas durante o processamento.
Biosseguridade
A prevenção de doenças também é considerada um dos pilares da produção de ovos. Entre as medidas de biosseguridade estão o controle da entrada de pessoas nas granjas, aviários telados e o cumprimento das exigências da defesa agropecuária.
Para a especialista, no entanto, os protocolos só são efetivos quando fazem parte da cultura da empresa.
“Esse compromisso precisa partir da direção da propriedade. São os gestores que devem investir em treinamento, conscientização e no cumprimento das normas para que a biosseguridade seja incorporada à rotina”, conta.
Tecnologia amplia o controle de qualidade
Entre as principais inovações adotadas pelo setor está a ovoscopia eletrônica. Diferentemente da inspeção manual, o sistema utiliza sensores capazes de identificar automaticamente microtrincas, manchas e alterações internas, como coágulos de sangue.
Os equipamentos permitem ainda ajustar o nível de sensibilidade da inspeção, tornando o processo mais padronizado e reduzindo a necessidade de intervenção manual.
Outro avanço destacado pela consultora é a rastreabilidade em tempo real. Sistemas informatizados acompanham todas as etapas da produção e permitem identificar rapidamente a origem de cada lote, facilitando o controle de qualidade e o atendimento às exigências dos órgãos de inspeção.
Falta de mão de obra
Na avaliação da especialista, a maior dificuldade enfrentada atualmente pela cadeia produtiva é a escassez de mão de obra. A dificuldade de contratação e retenção de funcionários tem levado as empresas a ampliar os investimentos em automação para manter a competitividade.
Apesar disso, Verza destaca que a tecnologia não elimina a necessidade de pessoas qualificadas. “A automação é indispensável para o futuro da produção, mas ela precisa ser acompanhada por investimentos em capacitação, treinamento e valorização dos profissionais para garantir a eficiência de todo o sistema produtivo”, destaca.
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