20/05/2026

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A Lógica de Expansão do Inter&Co


João Vitor Menin, em Miami, no escritório global da Inter&Co

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A transformação do Banco Inter em Inter&Co é um caso importante sobre como a tecnologia acessível e uma cultura ágil podem levar uma financeira familiar ao patamar de superapp com alcance global. Em uma entrevista exclusiva à Forbes Brasil, João Vitor Menin, CEO da companhia financeira, detalhou o que chama de seu “terceiro ato”: uma fase de consolidação internacional marcada pela diversificação estratégica e por uma filosofia tecnológica baseada em democratização. Menin relembra 2015 com a proposta de lançar um banco digital e gratuito, o divisor de águas que deu início à guinada tecnológica e pavimentou o caminho para os mais de 40 milhões de clientes.

O CEO atribui esse crescimento, que superou em muito a meta inicial de 100 mil clientes até 2020, a dois pilares essenciais: “o uso de tecnologia disponível, acessível e barata e também a diversificação de portfólio.” Para Menin, a chave do sucesso não está em grandes investimentos, mas na cultura, que ele credita à velocidade de execução aprendida com seu pai, Rubens Menin (Chairman). A lentidão crônica da indústria bancária, ele argumenta, não é tecnológica, mas cultural: “A dificuldade em mudar a cultura e quebrar paradigmas” é o verdadeiro obstáculo. Sua filosofia é clara e contraria o senso comum: “Tecnologia só é boa quando é barata.”

O foco agora é o “terceiro ato”: a expansão global, já consolidada nos Estados Unidos e, mais recentemente, na Argentina, com capacidade de atender clientes em escala, indo além das fronteiras financeiras tradicionais. A diversificação de portfólio, que hoje abrange seguros, consórcios e câmbio, atua como uma tática de resiliência, protegendo o negócio de adversidades externas. Olhando adiante, Menin já projeta o “quarto ato”: “Continuar expandindo, usando tecnologia, mas sempre pensando no valor agregado aos clientes.”

Forbes Brasil – O setor financeiro é conhecido pela capacidade de investimentos em tecnologia, mas uma cultura desafiadora, é possível ficar imune a isso considerando a origem tradicional do Inter?
João Vitor Menin – A indústria bancária é frequentemente descrita como lenta e tradicional. Essa lentidão, no entanto, não se refere à falta de acesso à tecnologia, mas sim à dificuldade em mudar a cultura e quebrar paradigmas. A resistência em adotar novas práticas, mesmo que benéficas a longo prazo, exemplifica essa lentidão. Trata-se de uma relutância em sacrificar um resultado imediato em prol de um benefício futuro ou coletivo, a chamada adaptabilidade tecnológica.

FB – Na prática, o que significa essa adaptabilidade tecnológica?
João – A tecnologia no Brasil é vista como acessível e transformadora, capaz de impulsionar o crescimento. A facilidade em adquirir e implementar tecnologias, como a que permitiu a criação de um banco digital com custos baixos, é fundamental. O PIX, por exemplo, apesar de sua recente implementação, já revolucionou as transações financeiras, reduzindo custos e facilitando a vida de consumidores e empresas. Essa adaptabilidade tecnológica é um diferencial para empresas que buscam inovar e prosperar em um mercado em constante evolução.Tecnologia só é boa quando é barata, pois o que importa é a vontade de usá-la, e não a quantidade de dinheiro investido. Essa filosofia permitiu que o Inter, por exemplo, se tornasse um banco digital, subindo de “classe” por meio do acesso a tecnologias acessíveis. Essa perspectiva se reflete em outras grandes empresas e indústrias que surgiram com pouco capital, como Uber e Netflix, demonstrando que a tecnologia acessível é um catalisador para o crescimento. 

FB – E como você vê essa característica na trajetória do Inter?
João – Principalmente o pioneirismo. Quando decidimos nos tornarmos digitais foi uma decisão que demandou muita coragem. Quando apostamos em superapp, criamos iniciativas como um fórum dentro do nosso aplicativo, isso envolve muita resiliência, mas, principalmente, velocidade.   

FB – Qual o estágio do terceiro ato do Inter?
João –Esse terceiro ato envolve nossa expansão internacional que vem se consolidando a partir do que temos feito aqui nos Estados Unidos, (o banco chegou ao país em 2021 quando comprou a fintech americana de envio de remessas Usend). Recentemente, também entramos na Argentina e outros mercados estão no radar. Esses movimentos reforçam nosso posicionamento como uma empresa financeira de alcance global e que consiga atender os clientes independentemente de particularidades regionais e culturais. 

FB – O cenário político, com Trump, e de taxações, nos Estados Unidos, afetam de alguma forma essa estratégia?
João –Embora os inputs recebidos sugiram que não se trata de um impacto direto no negócio da empresa, houve relatos de um aumento no custo do risco. Essa observação reforça a tese de que a diversificação de produtos e serviços é crucial para a estabilidade. A estratégia de não depender de um único produto, mas sim de construir um portfólio robusto que inclui investimentos, consórcios, seguros e câmbio, é o que materializa a ideia de alfa que nós levamos muito a sério no Inter. Essa abordagem garante que, mesmo diante de adversidades e flutuações no mercado, a empresa se mantenha resiliente.

FB – Quais oportunidades surgem a partir deste momento?
João – Se você precisa enviar remessas para o exterior, o Inter oferece esse serviço. Para um cliente nos Estados Unidos que precise enviar dinheiro para o Brasil, por exemplo, o Inter pode ter a solução onde outros bancos como Wells Fargo ou JP Morgan podem não ter. Criar um ecossistema abrangente protege o negócio de adversidades externas, pois mesmo que surjam novas dificuldades para os clientes, a variedade de serviços permite atender a essas necessidades. Uma adversidade, na verdade, pode se tornar uma oportunidade de crescimento. Quando o Inter lançou sua conta digital gratuita, houve dúvidas sobre a viabilidade, já que a empresa tinha custos de processamento. No entanto, eventos como a chegada do Pix acabaram por resolver esse problema, mostrando como a adaptação e a oferta de um portfólio completo permitem superar desafios e crescer.

FB – Qual será o quarto ato do Inter (e do João Vitor)?
João – Meu quarto ato, talvez, empresarialmente falando, seja fazer algo diferente no futuro, quem sabe daqui a 20 ou 30 anos, algo que não seja serviço financeiro. Uma coisa completamente diferente, sabe? Essa pode ser uma possibilidade. E para o Inter vale a mesma coisa, continuar expandindo, usando tecnologia, sendo pioneiro e expandindo para além das fronteiras financeiras, mas sempre pensando no valor agregado aos nossos clientes.

 

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