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Acessibilidade
Há uma certa ironia na reação negativa em relação à Meta quando ela adicionou seu infame círculo azul de IA ao WhatsApp. Parecia que o Meta AI era um espião obrigatório espreitando suas conversas, sem possibilidade de remoção. No entanto, é possível bloqueá-lo nos seus chats.
Enquanto isso, a Microsoft e o Google estão incorporando a inteligência artificial em todas as suas plataformas. De repente, os conteúdos não são mais privados e seguros — a IA tem sede de ver tudo o que estamos fazendo, e não conseguimos impedi-la.
A Microsoft saiu na frente, com a tão falada atualização Recall do Windows 11. Agora, a empresa captura tudo o que é feito no computador e armazena em um repositório local pesquisável. A tecnologia, inclusive, é capaz de ler qualquer janela de mensagens de texto que esteja aberta. Somente o Signal conseguiu impedir isso.
Depois, foi a vez do Google. O Gemini, anunciou a empresa, poderá acessar aplicativos de terceiros nos celulares, incluindo todos os diversos apps de mensagens, como o WhatsApp. A princípio, parecia que os dados coletados nesse processo seriam usados até para treinar a IA — o que, segundo o Google, não é verdade.
O Google diz que a atualização “é boa para os usuários”, já que os celulares Android agora podem “usar o Gemini para realizar tarefas diárias nos dispositivos móveis, como enviar mensagens, iniciar chamadas telefônicas e configurar alarmes, mesmo com a Atividade de Apps do Gemini desativada.”

Contudo, como alerta o Neowin, embora o Google prometa que, em condições normais, o Gemini não pode ler nem resumir suas mensagens do WhatsApp, existe um porém — e é um grande porém. Com a “ajuda” do Google Assistente ou do app Utilitários, ele pode visualizar suas mensagens (inclusive imagens), ler e responder às notificações do WhatsApp e muito mais.
Na prática, você precisa pedir ao Gemini que acesse o WhatsApp, solicitando que o assistente de IA leia ou responda algo. Mas, tecnicamente, o mecanismo de IA não está impedido de acessar o aplicativo. Não é tão grave quanto o Recall, mas estamos entrando em um novo mundo de fronteiras nebulosas para a privacidade.
O Google celebrou sua atualização, que permite que o Gemini acessasse apps de terceiros sem usar os dados para treinamento. Mas, como adverte o Ars Technica: “Não, Google, isso não é uma boa notícia.” O problema, confirmado pelo Neowin, é que não parece haver uma forma de desativá-lo completamente.
Marc Rivero, da Kaspersky, explica que o acesso padrão do Gemini a apps de terceiros “levanta sérias bandeiras vermelhas em relação à privacidade”.
“Aplicativos de mensagens privadas estão entre os espaços digitais mais sensíveis para os usuários, pois contêm conversas íntimas, dados pessoais e, potencialmente, informações confidenciais. Conceder a uma ferramenta de IA acesso automático a essas mensagens, sem um consentimento claro e explícito, mina fundamentalmente a confiança do usuário.”
“Os marqueteiros do Google podem dizer que a integração é uma boa notícia”, afirma o Ars Technica. “Mas um número significativo de usuários não quer o Gemini ou qualquer outro motor de IA em seus dispositivos. Por enquanto, esses usuários estão completamente no escuro.”
É possível restringir o Gemini desativando seu acesso app por app, mas a responsabilidade de vasculhar as configurações para optar pela exclusão é sua. E não é assim que isso deveria funcionar.
Todavia, o passo a passo para desativar a IA do Google é simples:
- Abra o aplicativo do Gemini no seu dispositivo
- Clique no seu perfil no canto superior direito
- Acesse o menu de “aplicações”
- Clique para desativar cada extensão
Seja no Windows ou no Android, é importante agir agora — no mínimo, verificar suas configurações e estar ciente do que está sendo lido, armazenado e usado para treinamento no seu dispositivo.