O movimento era esperado desde 2024. Está começando a acontecer agora. Com atraso de quase dois anos em relação à expectativa inicial, as novas regras da Anvisa para o mercado de cannabis medicinal no Brasil entram em vigor em 4 de maio deste ano. E, com elas, os grandes laboratórios passam a expandir sua operação neste mercado – ainda não tão grande, mas bastante estratégico em termos de ciência e bem-estar.
Faz sentido. As novas regras reclassificam a cannabis de tarja preta a tarja vermelha (em 98% das fórmulas disponíveis nas farmácias) e flexibilizam o uso da cannabis medicinal, ampliando acesso para doenças debilitantes (e não só terminais). Essas medidas tendem a atiçar o interesse de médicos em prescrever e de pacientes em usar os produtos derivados da planta.
O avanço se baseia na densidade científica que a terapia canabinoide tem ganhado nos últimos anos, com o surgimento de pesquisas e evidências clínicas para sustentar sua eficácia e segurança.
Mesmo antes da nova regulação, o mercado já vinha se revelando promissor: de acordo com o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, da Kaya Mind, mais de 870 mil brasileiros usaram produtos à base de cannabis em 2025, 30% a mais do que em 2024.
Por enquanto, há meia centena de produtos autorizados pela Anvisa, o que movimentou R$ 300 milhões só no ano passado nas farmácias. Somando a via de importação e as associações de pacientes, o mercado chega a quase R$ 1 bilhão. E ainda pode crescer muito.
Para o setor farmacêutico tradicional, a nova regulamentação representa uma virada de chave. A avaliação é de Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma: a norma é mais abrangente que a anterior, abre espaço para a produção nacional de insumo farmacêutico ativo (IFA) e, com isso, redução de preços ao consumidor. Mussolini faz o paralelo com os medicamentos genéricos, cuja regulamentação transformou o mercado.
“Não tenho menor dúvida de que haverá crescimento, mas sou defensor dos estudos clínicos, não acho que produto de cannabis serve para tudo e qualquer coisa”, afirma. “Mercado regulado significa previsibilidade, essencial para investimento, geração de empregos e de impostos.” As estimativas, segundo ele, giram em torno de 12% de crescimento ao ano. “As grandes parcerias estão esperando essa norma se solidificar para entrar de vez.”
“Eu era contra esse mercado. Até que fui estudar”
Pelo menos cinco dos sete maiores grupos farmacêuticos brasileiros (as nossas big pharmas) já têm produtos de cannabis no seu portfólio e negociam sua expansão normalmente, em parcerias com os laboratórios nativos de cannabis.
O movimento das grandes rumo a este mercado inclui Eurofarma, Aché, Hypera, Biolab, Teuto e, mais recentemente, União Química. Algumas já testam a cannabis desde 2022, quando a nova indústria, autorizada pela RDC 327 no final de 2019, ganhou tração, dobrando as vendas a cada ano. Foi o momento em que a Eurofarma, por exemplo, se associou à VerdeMed.
“A gente levaria cinco anos para atingir o volume de vendas que a Eurofarma atingiu em um”, avalia o presidente da empresa, José Bacellar.
A União Química adotou uma estratégia um pouco diferente. De acordo com seu CEO, Miguel Giudicissi, a empresa importa desde abril do ano passado, por meio de sua unidade de negócios Genom, dois produtos da americana Nunature, que chegam prontos do Colorado e são analisados no Brasil antes da distribuição nas farmácias. A ideia agora é ampliar o investimento, tanto com a Nunature como com novos fornecedores, para tratamentos de ansiedade, autismo e dor neuropática.
“Eu sou neurocirurgião e trabalho na União Química há algum tempo, além de dar aulas”, diz Giudicissi. “Houve um período em que eu não acreditava na cannabis, era contra participar desse mercado. Até que fui estudar. O aprendizado me levou a incluir a cannabis no portfólio da União Química. Para o próximo ano, teremos mais três produtos nas farmácias.”
Os investimentos, de acordo com o CEO, são expressivos: um time de quase 200 pessoas está envolvido no projeto, e a empresa estruturou programas de mentoria em prescrição de cannabis para levar conhecimento teórico e prático a médicos. “Pretendemos realizar investimentos significativos em pesquisa e estudos clínicos de segurança e eficácia”, diz ainda Giudicissi.
Na disputa pelo mercado, deverão estar também grandes companhias estrangeiras que monitoram as oportunidades no Brasil desde 2019. Pelo menos uma delas deve investir por aqui já nos próximos meses, afirma Bacellar, da VerdeMed, empresa constituída no Canadá.
“Estamos negociando uma parceria ou eventual aquisição por uma dessas grandes internacionais”, diz o empresário. “Elas consideram a parceria da VerdeMed com a Eurofarma um atestado da nossa capacidade técnica de entrega, além de um pipeline de produtos atrativos para a sua expansão.”
Além da negociação com uma big pharma estrangeira, Bacellar declara que está em negociações com mais dois laboratórios brasileiros, fora a Eurofarma.

Outro laboratório com plano de expansão é a Biolab, que tem a quarta maior força de vendas do país, com 1.200 prestadores de serviço. Os planos são “mais que dobrar” a oferta de produtos à base de cannabis nos próximos dois anos, segundo seu diretor de marketing, Felipe Aguiar.
Está certo que não chega a ser algo exorbitante: a empresa conta hoje com apenas dois produtos de cannabis, licenciados pela Promediol. Mas a ideia é não parar aí. “Estamos superatentos e temos planos de ter presença cada vez mais relevante neste mercado, com boa diversidade de produtos para vários usos terapêuticos”, assevera.
Outras big pharmas evitam tocar no assunto. Consideram que seus planos devem ser mantidos em sigilo, para não dar pistas aos concorrentes. Mas paradas elas não estão, como atestam as negociações que andam tendo com as pequenas empresas nativas do setor.
“Estou conversando com quase todas as grandes farmacêuticas”, diz Guilherme Franco, co-CEO da Ease Labs, laboratório nativo de cannabis com a operação mais robusta do país.
Além do portfólio próprio — medicamentos para autismo, ansiedade, dor crônica, epilepsia e Alzheimer –, a empresa mineira tem parceria com o laboratório Aché em dois produtos, em contratos de cinco anos com valor de cerca de R$ 4 milhões cada um, e com a Furp, laboratório farmacêutico vinculado ao governo estadual de São Paulo.
Franco cita outro atrativo para as big pharmas entrarem no negócio da cannabis: “quando a indústria oferece produtos de cannabis como opção de tratamento, percebe um incremento na prescrição do seu portfólio tradicional”.
Para as empresas nativas de cannabis, a parceria com as grandes é ainda mais essencial. Segundo Carolina Sellani, diretora de assuntos relacionados à planta na Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), só as que tiverem essas alianças permanecerão competitivas.
“Elas precisam de um parceiro para produzir em escala maior, e também para capilarizar as vendas pelo país.”

A Endogen, cujo portfólio de cannabis é um dos mais recheados da indústria, está seguindo esse caminho. Depois de seis anos sozinha, costurou um acordo de promoção médica e comercialização de dois de seus produtos pelo grupo Cellera Farma, a partir de abril. Estava na hora, afirma Lukas Fischer, diretor de negócios da Endogen.
“Prescrição digital que vai poder ser enviada por WhatsApp ou e-mail, novas apresentações farmacêuticas e a mudança de tarja preta para tarja vermelha para formulações com menos de 0,2% de THC vão mudar radicalmente o setor.”
A Farma USA é uma das poucas nativas da cannabis que decidiu percorrer esse caminho sem se associar a nenhuma grande farmacêutica.
“Conversamos com os grandes players em alguns momentos, mas enxergamos que temos potencial e expertise para seguir carreira solo”, diz Leandro Beltrão, CEO da empresa, com a tranquilidade de quem tem um ativo nenhuma outra empresa pode reivindicar: é a única a produzir IFA (insumo farmacêutico ativo) de CBD isolado com certificação de Boas Práticas de Fabricação da própria Anvisa.
Com esse insumo, a Farma USA fabrica quatro produtos já registrados na Anvisa, com concentrações de 20, 50, 100 e 200 mg de CBD isolado. Mas o plano vai além do mercado doméstico. Com a atualização regulatória que abriu caminho para a exportação de insumos farmacêuticos ativos de cannabis produzidos no Brasil, a companhia se prepara para vender seu IFA purificado a fabricantes de outros países.
Além disso, com a RDC 1015, que permite pela primeira vez o fornecimento de IFA para farmácias de manipulação, a Farma USA se posiciona como fornecedora de um setor que movimenta bilhões e opera, até hoje, com insumos importados. A Anvisa já concedeu à Farma USA uma cota de uma tonelada de IFA para esse fim, com capacidade de atender todo o território nacional em até 24 horas.
O novo ambiente terá ainda novas empresas. Uma delas é a Alko do Brasil, que acaba de receber sua primeira autorização da Anvisa e prevê estrear no mercado de cannabis no segundo semestre, com foco em nacionalizar a produção via envase e formulação, mas sem cultivo nacional.
“Até 2030, estaremos com cinco ou seis produtos”, adianta a co-CEO Juliana Komel. O plano completo, diz ela, exigirá um investimento adicional de R$ 30 milhões, somados aos R$ 10 milhões já desembolsados.
E quanto à verticalização do mercado nacional? Por ora, a maioria das empresas não está interessada. “Há apenas três farmoquímicas estruturando planos de cultivo e purificação de insumo”, revela Sellani, da Abiquifi. “A maioria quer comprar IFA para fazer o produto final e distribuição.”
Mas, no futuro… Para Robson Ribeiro, CEO da LeafHub, que aguarda autorização para iniciar o cultivo em solo brasileiro, as empresas que não miram a verticalização vão perder um importante filão do mercado.
“O Brasil tem clima tropical, e isso é vantagem competitiva para produzir canabinoides raros como CBG, THC, os minors, muito mais difíceis de cultivar em clima frio. A gente pode virar exportador, mas só se estabilizar as genéticas certas.”