18/05/2026

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A Batata Poderosa Que Impulsiona o Mercado de Exportação e Transforma Comunidades em Ruanda

Foto: Mazimpaka Jean Pierre, RAB

Preço de mercado de um quilo de batata Kinigi é de 450 francos ruandeses (cerca de US$ 0,31)

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Ama batata frita? É bem provável que sejam feitas com a batata mais emblemática de Ruanda, cultivada em uma vila tranquila aos pés das Montanhas Virunga. Mas como ciência e políticas públicas estão trabalhando para garantir o futuro dessa safra icônica?

São 6h30 da manhã. A neblina começa a se dissipar e os primeiros raios de sol se espalham pelas terras abertas de Kinigi, uma vila pacata aninhada ao pé das Montanhas Virunga, em Ruanda, a poucos passos de alguns dos pontos turísticos mais populares do país, incluindo o ponto de partida para as trilhas de observação dos gorilas-da-montanha.

Apesar da proximidade com essas maravilhas naturais, os campos de Kinigi seguem um ritmo sereno e rotineiro. Agricultores, vestidos com tecidos vibrantes e estampados, começam a aparecer nos campos.

Com enxadas nas mãos, cumprimentam-se com murmúrios suaves, suas vozes se misturando à brisa da manhã. Chegam em pequenos grupos, muitos a pé, vindos de casas próximas, e começam a cuidar das plantações com foco tranquilo, cada movimento preciso, refinado por anos de experiência.

Com as costas ligeiramente curvadas, avançam de forma constante entre as fileiras verdes de batata, limpando delicadamente as ervas daninhas, inspecionando as folhas e verificando a umidade do solo.

Essas são as primeiras horas da agricultura de batata no distrito de Musanze, lar da cobiçada variedade Kinigi, uma batata tão profundamente ligada à identidade da região que seu nome carrega peso em todo o país e além.

As batatas Kinigi não são apenas um alimento básico; são um meio de subsistência. Cultivadas por pequenos agricultores como os que trabalham neste campo, elas alcançam preços mais altos por causa do rendimento, do sabor e da durabilidade, uma recompensa pelo trabalho árduo que começa antes do nascer do sol.

Demanda de mercado

Ruanda cultiva pelo menos 15 variedades diferentes de batata, mas nenhuma manteve a dominância de mercado como a Kinigi. Introduzida em 1984 pelo Centro Internacional da Batata, em Lima (Peru), a variedade foi avaliada por sua adaptabilidade ao clima e ao solo vulcânico de Ruanda.

Théophile Ndacyayisenga, pesquisador de batata no distrito de Musanze, aponta três fatores que impulsionam a crescente demanda pelas batatas Kinigi.

Primeiro, a alta produtividade. “Um único hectare pode render até 30 toneladas, garantindo um forte retorno para os agricultores.”

Além disso, Ndacyayisenga destaca a qualidade premium, especialmente para a produção de batata frita. “Seu alto teor de matéria seca resulta em fritas mais crocantes e saborosas, algo essencial tanto para a cozinha caseira quanto para a produção comercial de alimentos.”

Ele também ressalta a longa durabilidade: enquanto outras variedades estragam em até uma semana, a Kinigi pode permanecer fresca por mais de 20 dias. “Isso a torna ideal não apenas para consumo local, mas também para exportação, ampliando ainda mais sua demanda de mercado.”

Força nos planaltos do norte

As batatas Kinigi devem muito de seu sucesso ao solo vulcânico do distrito de Musanze. Esse tipo de solo, conhecido como Andissolo, é rico em nutrientes, retém bem a água e favorece alta produtividade agrícola.

Appolinaire Karegeya, agricultor de Kinigi há mais de 20 anos, confirma seus benefícios. “Apesar de desafios ocasionais, como pragas e oscilações de safra, a Kinigi continua sendo a variedade mais lucrativa, por causa do peso e da resistência”, afirmou.

“O peso da batata Kinigi é uma vantagem porque vendemos por quilo”, explica. “Mesmo quando outras variedades fracassam, a Kinigi continua sendo uma fonte confiável de renda.”

Um motor econômico

Atualmente, o preço de mercado de um quilo de batata Kinigi é de 450 francos ruandeses (cerca de US$ 0,31), mais caro que outras variedades, por uma diferença de 50 a 100 francos (US$ 0,03 a US$ 0,07) por quilo.

Segundo agricultores, a lucratividade da Kinigi transformou suas vidas. Muitos conseguiram pagar por uma educação de qualidade para seus filhos, comprar veículos para transporte e construir casas melhores.

Honore Tuyishime, agricultor de Musanze, diz que cultivar Kinigi mudou sua vida.

“Quando comecei, eu arrendava a terra”, recorda. “Com o tempo, pude comprar meu próprio hectare dedicado ao cultivo da Kinigi. A cada ano, meu capital aumenta, o que me permite cuidar da família e investir na expansão.”

De forma semelhante, Sylvestre Bariyanga, agricultor há 12 anos em Kinigi, atribui seu sucesso à variedade.

“Antes das pragas, eu colhia entre 35 e 40 toneladas por safra”, diz. “Vendendo a 450 francos por quilo, tive lucro suficiente para educar meus seis filhos e construir uma casa para minha família.”

Desafios para a produção sustentável

Apesar da demanda e da rentabilidade, o cultivo da batata Kinigi enfrenta desafios que ameaçam sua sustentabilidade a longo prazo. Um dos problemas mais preocupantes é a queda de produtividade, com agricultores temendo que um vírus esteja afetando a saúde das plantações, algo que pode comprometer futuras colheitas.

Além da saúde das plantas, os custos crescentes de transporte, impulsionados pela alta dos combustíveis, tornaram mais caro levar batatas das áreas rurais para os mercados urbanos. Isso expôs outro problema: a diferença de rendimento entre regiões.

Ancille Mukarusigariye, fornecedora de sementes no distrito de Gicumbi, aponta que, embora a Kinigi seja amplamente cultivada, a produtividade ali é inferior à do norte.

“Em Gicumbi, conseguimos colher 15 a 20 toneladas por hectare, enquanto Musanze produz bem mais”, explica.

“As razões para essa diferença são muitas”, diz Mukarusigariye. “Pode ser o solo, os métodos agrícolas, a altitude ou até o microclima, ainda não temos uma resposta exata.”

Apesar da resiliência, a queda na produtividade preocupa. Agricultores relatam safras menores, levantando temores de que um vírus ou as mudanças climáticas estejam afetando a variedade.

“O governo planeja levar novamente a batata Kinigi ao laboratório para testes”, afirma Ndacyayisenga. “Precisamos confirmar se um vírus é responsável pela queda e encontrar formas de recuperar a produtividade.”

O Conselho de Desenvolvimento Agrícola e de Recursos Animais de Ruanda (RAB) já introduziu novas variedades, como a Cyerekezo, com características semelhantes à Kinigi em termos de rendimento e qualidade.

Ainda assim, muitos concordam que a Kinigi é insubstituível, devido à sua qualidade excepcional e à preferência do mercado.

O governo, por meio do RAB, está priorizando pesquisas para garantir a sustentabilidade da produção da Kinigi.

Para agricultores como Tuyishime e Bariyanga, a Kinigi é mais que uma colheita, é um sustento. Alimenta suas famílias, paga a escola dos filhos e alimenta seus sonhos de um futuro melhor.

À medida que cientistas voltam ao laboratório e novas variedades surgem, uma coisa continua clara: a Kinigi não é apenas sobre batatas, mas sobre as pessoas que as cultivam e o país que passou a depender delas.

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