A boa produtividade registrada na segunda safra de milho em Tapurah, no médio-norte de Mato Grosso, não tem sido suficiente para garantir rentabilidade ao produtor. Com a queda nas cotações do cereal e os descontos aplicados na classificação dos grãos avariados, agricultores afirmam que o resultado financeiro da safra ficou muito abaixo do esperado.
O cenário preocupa principalmente quem precisa comercializar a produção para manter o fluxo de caixa da propriedade. Segundo relatos de produtores, o valor pago pelo milho não cobre os custos da atividade e dificulta o planejamento para a próxima safra.
A situação contrasta com o desempenho das lavouras. Cerca de 70% dos 180 mil hectares cultivados no município já foram colhidos e, na maior parte das áreas, a produtividade ficou dentro da expectativa favorecida pelas condições climáticas ao longo do ciclo.
Para o presidente do Sindicato Rural de Tapurah, Dirceu Luiz Dezem, muitos agricultores acabam vendendo a produção por necessidade e sem conseguir cobrir os custos. “O produtor que está descapitalizado e precisa comprar diesel, manter os funcionários ou pagar a oficina é obrigado a vender abaixo do preço de custo”.

Produtividade confirma expectativa no campo
Na propriedade de Régis Adriano Desordi Porazzi, mais de 60% dos 800 hectares cultivados já haviam sido colhidos. O agricultor atribui o resultado ao clima, que favoreceu o desenvolvimento da cultura desde o plantio até o enchimento dos grãos.
As chuvas se prolongaram além do esperado e beneficiaram inclusive as áreas semeadas mais tarde. “O milho tardio, que às vezes sempre falha para a gente, vai produzir também normal”, comenta ao projeto Mais Milho. Para ele, a safra está dentro do que o produtor esperava colher.
Na propriedade de Silvésio de Oliveira, onde o milho ocupa 1.330 hectares, mais da metade da área também já foi colhida. Parte da produção segue para armazéns e a outra permanece armazenada em silo bolsa para dar mais agilidade à operação.
Porém, nem todas as áreas responderam da mesma forma. A ocorrência de uma doença fúngica comprometeu parte das lavouras e reduziu a qualidade dos grãos em algumas variedades. Silvésio explica que chuvas registradas em junho favoreceram o avanço do problema. “Tem variedades que não deram nada de avariado e outras foram bastante suscetíveis”. Em uma área de 214 hectares, a expectativa é de grãos avariados entre 15% e 18%.
Preço do milho reduz margem da atividade
Se a colheita trouxe resultados satisfatórios, a comercialização passou a concentrar as maiores preocupações. Com aproximadamente metade da produção já vendida, produtores relatam que a remuneração do cereal caiu justamente no período em que muitos precisaram fazer caixa.
Régis conta que a redução nas cotações inviabiliza o retorno econômico da atividade. “Destrói o caixa do produtor”, frisa à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Mesmo colhendo dentro da média da região, ele diz que a conta não fecha. Os custos permanecem elevados e a margem praticamente desapareceu. “Não dá mais para trabalhar desse jeito”.
Na avaliação do agricultor, o setor vive um momento de perda de estímulo, já que produzir deixou de representar lucro e passou a significar apenas a manutenção da atividade.

Descontos ampliam perdas na comercialização
Além dos preços baixos, os produtores contestam também os descontos aplicados na classificação dos grãos avariados durante a entrega da produção. Eles avaliam que os critérios utilizados pelas empresas ampliam as perdas financeiras justamente em uma safra marcada por problemas sanitários em parte das lavouras.
Silvésio relata que o prejuízo vai além da redução na qualidade dos grãos. Conforme ele, cargas com índices mais elevados de avarias acabam comprometendo a rentabilidade de toda a produção entregue.
“O desconto acaba afetando bem o lucro do produtor”, afirma. Ele frisa que a classificação dos grãos é uma discussão antiga do setor. “Na entrega do produto, sempre quem perde é o produtor”.
Dirceu Luiz Dezem considera que o produtor acaba sem alternativa diante da necessidade de cumprir contratos e da limitação da capacidade de armazenagem. “Às vezes ele é obrigado a entregar e aceitar essa injustiça”.
O presidente da Aprosoja Brasil e Mato Grosso, Luiz Costa Beber, defende que as empresas adotem uma postura mais equilibrada quando os problemas decorrem de fatores que escapam ao controle do agricultor. “Precisamos que as empresas também sejam compreensivas e flexibilizem”.
Ele lembra que produtores que discordarem da classificação podem solicitar o acompanhamento de classificadores da entidade durante a entrega da produção. Se houver divergência, é feita uma auditoria e, quando necessário, um segundo profissional participa da arbitragem. “O objetivo é garantir uma classificação justa”, ressalta.

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