A história da família Brunelli com a suinocultura atravessa oceanos e já soma quase um século de tradição. Tudo começou nas montanhas de Verona, na região do Vêneto, onde o bisavô da produtora e empresária Flávia Brunelli iniciou a atividade. Anos mais tarde, em 1950, seu avô desembarcou no Brasil após os desafios da guerra.
Ele chegou sem recursos, trabalhou como caminhoneiro e guardou cada centavo com um único objetivo: comprar terras para voltar a fazer o que mais amava. Quase 15 anos depois, ele fundou a propriedade familiar em São José dos Campos (SP), focada na criação de suínos.
Hoje, a fazenda possui mais de 40 anos de história e é referência em qualidade dentro da porteira. A propriedade conta com o Selo Suíno Paulista e conquistou recentemente uma importante certificação de bem-estar animal. O comando diário do plantel está nas mãos da segunda geração.
A mãe de Flávia lidera o manejo dos animais, enquanto seu tio gerencia a área financeira e administrativa. No entanto, o grande salto nos negócios veio com a chegada da terceira geração. Flávia decidiu usar sua bagagem urbana para agregar valor à produção da família de um jeito totalmente inovador.
Cortes de alta gastronomia
Antes de se dedicar à carne suína, Flávia construiu uma carreira sólida na área de administração. Ela trabalhava em uma grande multinacional e estava prestes a ser promovida a coordenadora da América Latina.
Contudo, uma virada de chave aconteceu durante o seu Trabalho de Conclusão de Curso na faculdade. Flávia desenhou o projeto de um fast-foodespecializado em carne suína e conquistou o primeiro lugar na premiação. Incentivada por amigos do setor, ela teve a coragem de pedir demissão. Em seguida, buscou especialização em gastronomia nos Estados Unidos, Itália e Argentina.
Dessa forma, em vez de ser apenas uma sucessora tradicional, Flávia criou sua própria empresa e tornou-se cliente da fazenda de sua mãe e de seu tio. Ela compra os animais da propriedade, terceiriza o abate e realiza uma desossa artesanal.
Com o olhar de chef de cozinha, fundou um frigorífico de cortes especiais que desenvolveu peças inéditas no Brasil, como o ancho suíno, o T-bone e o “antiuíno” — um corte muito marmorizado e ideal para a grelha. Além disso, produz um presunto artesanal feito com pedaços inteiros do pernil, curado e defumado lentamente. Essa inovação levou a marca para as cozinhas de alta gastronomia paulistana, atendendo restaurantes renomados de chefs como Alex Atala e o grupo Fasano.
Quebrando preconceitos através da comunicação
Apesar do crescimento do setor, Flávia destaca que o consumidor brasileiro ainda enfrenta antigos mitos e preconceitos em relação à carne de porco. Por causa disso, ela investe pesado na comunicação e nas redes sociais para mostrar que a proteína é extremamente segura quando tem procedência garantida.
Recentemente, a empresária gravou uma receita de cevichesuíno prato feito com carne crua marinada — em parceria com um médico especialista em dietas que possui milhões de seguidores.
Portanto, a grande estratégia da nova geração é unir o rigor sanitário mantido pela mãe e pelo tio dentro da fazenda com a transparência do lado de fora. Ao contar a história do produto e ensinar novas formas de consumo, Flávia ajuda a quebrar paradigmas de mercado.
Assim, a família Brunelli prova que a suinocultura tradicional pode se reinventar constantemente, transformando o legado do nono em sinônimo de sofisticação e sabor nas principais mesas do país.
*Sob supervisão de Victor Faverin
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