Às vésperas da decisão do governo dos Estados Unidos sobre a possível aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, representantes do agronegócio e do setor empresarial intensificaram uma ofensiva em Washington para tentar evitar a medida.
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Além dessa sobretaxa, o governo norte-americano também avalia a imposição de uma tarifa adicional de 12,5% sobre determinados produtos brasileiros em razão de alegações relacionadas ao uso de trabalho forçado nas cadeias produtivas. Caso ambas sejam implementadas, as medidas poderão ampliar significativamente o custo das exportações brasileiras para o mercado americano.
A mobilização ocorre no âmbito da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O instrumento permite ao governo norte-americano investigar e aplicar sanções comerciais a países considerados responsáveis por práticas comerciais classificadas como desleais.
Paralelamente, as autoridades americanas analisam outra frente relacionada às acusações de trabalho forçado, o que amplia a preocupação do setor produtivo brasileiro com a possibilidade de novas barreiras comerciais.
Nas audiências públicas realizadas nesta semana, entidades brasileiras defenderam que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é complementar, e não concorrencial, e alertaram que a adoção das novas tarifas teria impactos negativos também para a economia norte-americana, elevando custos para empresas, pressionando a inflação e reduzindo a competitividade de diversos setores.
Cecafé destaca ambiente mais técnico
O diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, avaliou que as discussões deste ano ocorreram em um ambiente mais técnico do que o observado em 2025, quando o café brasileiro chegou a ser alvo de uma proposta de tarifa de 50%.
Segundo ele, representantes de diferentes órgãos do governo norte-americano fizeram questionamentos específicos sobre cada cadeia produtiva, demonstrando preocupação com os impactos econômicos das medidas para a própria indústria e para os consumidores dos Estados Unidos.
No caso do café, a estratégia foi conduzida em conjunto com a National Coffee Association e a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). As entidades defenderam a manutenção da isenção para o café verde e torrado — que representam cerca de 90% das exportações brasileiras ao mercado americano — e solicitaram a inclusão do café solúvel na lista de exceções, argumentando que o produto é insumo para diversas indústrias de bebidas nos Estados Unidos.
Para Matos, a atuação coordenada entre representantes brasileiros e norte-americanos reforçou a percepção de que uma eventual sobretaxa afetaria toda a cadeia produtiva dos dois países.
CNA reforça competitividade do agro brasileiro
Também presente na audiência, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou quatro argumentos centrais para rebater as acusações feitas pelo USTR.
A entidade destacou que a competitividade do agronegócio brasileiro decorre do aumento da produtividade, e não do desmatamento ilegal; afirmou que o mercado brasileiro permanece aberto ao etanol norte-americano; sustentou que acordos comerciais firmados com México e Índia não prejudicam exportadores dos Estados Unidos; e ressaltou que a própria investigação não identificou danos efetivos ao comércio bilateral.
Segundo a diretora-adjunta de Relações Internacionais da CNA, Fernanda Maciel, os Estados Unidos continuam sendo o segundo maior parceiro comercial do Brasil e as cadeias produtivas dos dois países são altamente integradas. Na avaliação da entidade, a imposição das tarifas elevaria custos tanto para produtores brasileiros quanto para empresas e consumidores norte-americanos.
Sociedade Rural Brasileira rebate críticas sobre desmatamento
Em manifestação formal encaminhada ao USTR, a Sociedade Rural Brasileira (SRB) concentrou sua defesa na contestação das acusações relacionadas ao desmatamento ilegal.
A entidade argumenta que o relatório norte-americano parte de uma interpretação equivocada da legislação ambiental brasileira e cita dados da Embrapa, da NASA e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para sustentar que mais de 66% do território nacional permanece coberto por vegetação nativa, enquanto apenas 7,6% é destinado à produção agrícola.
A SRB também destacou a redução recente das taxas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado e afirmou que o Brasil possui um dos sistemas de monitoramento ambiental mais rigorosos do mundo, baseado em imagens de satélite e cruzamento de dados em tempo real.
Além da defesa ambiental, a entidade ressaltou que a relação comercial beneficia ambos os países. Segundo a SRB, em 2024 o Brasil exportou aproximadamente US$ 12 bilhões em produtos agropecuários para os Estados Unidos, enquanto importou mais de US$ 54 bilhões em máquinas, fertilizantes, defensivos e tecnologias agrícolas norte-americanas. Para a entidade, novas tarifas reduziriam a oferta de alimentos de menor custo aos consumidores americanos e prejudicariam fornecedores de insumos dos próprios Estados Unidos.
Amcham pede solução negociada
Representando o setor empresarial, a Amcham Brasil também participou da audiência pública e defendeu uma saída negociada entre os governos dos dois países.
A entidade afirmou que a aplicação das novas tarifas aumentaria os custos para a indústria norte-americana, favoreceria concorrentes asiáticos, ampliaria o déficit comercial dos Estados Unidos com esses países e reduziria a influência comercial americana no mercado brasileiro.
Como alternativas, a Amcham propôs ampliar o acesso a mercados em setores específicos, fortalecer a cooperação em minerais críticos, estender a moratória da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre transmissões eletrônicas e acelerar a análise de pedidos de patentes no Brasil.
“Embora a investigação esteja na reta final e as negociações sejam complexas, ainda há espaço para que os dois governos intensifiquem esforços em busca de uma solução negociada”, afirmou o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto. Segundo ele, a adoção das sobretaxas seria prejudicial para ambas as economias e comprometeria a competitividade das exportações brasileiras em um mercado considerado estratégico.
Decisão deve sair até 15 de julho
A audiência pública representa a etapa final da investigação conduzida pelo USTR. A expectativa é que o governo dos Estados Unidos anuncie até 15 de julho se adotará ou não as novas medidas tarifárias sobre produtos brasileiros.
Até lá, as entidades ainda poderão encaminhar documentos complementares ao governo norte-americano para reforçar os argumentos apresentados durante as audiências, na tentativa de evitar a imposição das tarifas e preservar uma relação comercial considerada estratégica para os dois países.
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