Existem empresas que sobrevivem às crises argentinas, mas poucas conseguem atravessá-las registrando crescimento. A Ledevit, uma pequena e média empresa argentina de alimentos especializada historicamente em insumos para confeitaria profissional, propõe-se a fazer parte do segundo grupo.
Com fábricas e operações em Buenos Aires e San Juan, e exportações que representam 6% do seu faturamento, a empresa consolida uma transformação profunda: em um cenário de forte retração generalizada do consumo de massa local, a companhia projeta uma alta de 6% em volume para este exercício, alcançando 13.500 toneladas em vendas.
A empresa mostra expansão por meio da oferta de novos produtos, novos canais, dinâmicas comerciais e exportações, além de colaborações com outras companhias na fabricação de produtos e ações de cobranding, conforme relata Nicolás Demarco, diretor geral da companhia.
O contexto macroeconômico, reconhece o executivo, exige uma mudança de mentalidade para focar internamente em eficiências, trabalhando com austeridade sem perder a perspectiva de abundância.
Do segmento profissional ao consumidor final: o valor dos produtos sem glúten
Durante décadas, mais de 80% dos negócios da Ledevit estiveram concentrados no comércio de cremes refrigerados diretamente a outras empresas, uma categoria que não pode ser comercializada online ou distribuída facilmente em temperatura ambiente.
Atualmente, a companhia trabalha para ampliar esse universo e chegar com outros produtos diretamente ao consumidor final, com o objetivo de evoluir para uma empresa de alimentos com proposta ampla, incorporando soluções para distintas ocasiões de consumo.
A estratégia digital atua para acelerar esse caminho, fortalecendo a presença da marca além da categoria de cremes refrigerados.
Essa evolução implica atingir o consumidor doméstico com misturas prontas, pós para confeitaria e outros formatos aptos para a distribuição digital e em temperatura ambiente.
Uma vantagem competitiva fundamental nessa operação é que a firma adaptou seus processos sob a condição de estabelecimento livre de glúten, garantindo que suas linhas de consumo massivo contem com a certificação sem TACC (sigla para alimentos livres de trigo, aveia, cevada e centeio).
O momento de indulgência e o ato de preparar algo doce para terceiros no lar motivam a empresa a alcançar as residências com produtos saborosos e de fácil preparo, sinaliza o executivo.
Nesse cenário, a companhia desenvolveu o “Emprendé con Ledevit”, uma plataforma de capacitação direcionada a quem deseja transformar a confeitaria em um ofício ou negócio.
O canal digital como ferramenta de aprendizado
Parte dessa chegada ao consumidor final ocorre por meio do comércio eletrônico. A Ledevit abriu sua loja oficial no Mercado Livre em 15 de março e, em menos de dois meses, acumulou mais de 800 vendas, com um tíquete médio de 25.000 pesos argentinos (R$ 87,56, na cotação atual). No período, a marca atingiu a reputação Mercado Libre Platinum em menos de um mês de atividade.
A decisão de iniciar por esse canal, antes de estruturar uma loja própria, foi deliberada. A escolha pelo Mercado Livre justifica-se porque o nível de exigência da plataforma acelera o aprendizado em comércio digital, conhecimento considerado fundamental para desenvolver o canal próprio e construir um ecossistema omnicanal que conecte o B2B ao consumidor, esclarece Demarco.
A médio prazo, a empresa projeta que o canal digital represente entre 2% e 5% do faturamento total. Demarco ressalta que a importância estratégica vai além dessa cifra, atuando como fonte de informação, aprendizado e proximidade com o consumidor para entender hábitos de compra, validar inovações e detectar oportunidades de crescimento.
Um ponto sensível na expansão direta ao consumidor é a relação con a rede de distribuidores. Demarco assegura que a convivência foi planejada desde o início, definindo um posicionamento de preços diferenciado para cada canal, de modo que o ambiente digital complemente o negócio tradicional sem competir com ele.
Além disso, os dados gerados pela loja online são compartilhados com os distribuidores para identificar oportunidades e otimizar estoques.
Investimento e mudança estratégica

A iniciativa mais concreta desse processo de transformação é a relocalização parcial das operações do bairro portenho de Pompeya para um terreno de 11.000 m² cobertos em um parque industrial em Ezeiza.
O investimento para completar a mudança soma US$ 4 milhões (R$ 21,6 milhões), mas o contexto internacional e local desacelerou os planos originais, demandando cautela para manter a estabilidade do negócio.
O plano total de investimentos para os próximos 24 meses, que inclui robotização, automatização e novas linhas de fabricação, atinge o montante de US$ 6 milhões (R$ 32,4 milhões).
A companhia opera atualmente com uma média de 70% da sua capacidade produtiva instalada, possuindo margem para expansão com a incorporação de turnos adicionais. Suas fábricas contam com a certificação FSSC22000, um dos padrões internacionais regulatórios em inocuidade alimentar.
As vendas para o exterior representam atualmente 6% do faturamento total. Os mercados mais consolidados são o Brasil e o Uruguai, destinos históricos da marca, aos quais se somou recentemente o Equador.
Para o curto prazo, Demarco antecipa um plano de expansão comercial na região, pretendendo potencializar as operações no Brasil e iniciar exportações para mais dois países, o que elevará para cinco os seus destinos continentais diretos.
No horizonte de longo prazo aparece também a Europa. O acordo comercial Mercosul-União Europeia abre uma oportunidade, embora o gerente-geral prefira manter a cautela, indicando que a empresa está iniciando a busca por parcerias de distribuição no bloco europeu, sem pressa, visto que há demanda de expansão a ser cumprida na própria região.
Quanto às exigências regulatórias do bloco, Demarco aponta que a empresa apresenta condições de atendê-las em razão de suas certificações de inocuidade.
A Ledevit não se define mais exclusivamente como uma empresa de confeitaria profissional. Com uma fábrica na província de San Juan dedicada à produção de polpas de fruta embaladas com tecnologia UHT, voltada tanto para uso próprio quanto para terceiros e exportação, a firma avança na integração vertical. A operação atua para potencializar a produção hortifrúti da região e garantir matéria-prima qualificada.
Para Demarco, o porte da empresa funciona como vantagem competitiva frente às multinacionais do setor, pois, por ser uma média empresa, apresenta maior agilidade para acompanhar com sucesso o momento de transformações no mercado argentino e global.
*Reportagem publicada originalmente em ForbesArgentina.com