26/06/2026

26/06/2026

Search
Close this search box.

Mulheres Gerenciam 30 Milhões de Hectares no Brasil, Mas Seguem com Renda Menor no Agro

As mulheres já administram quase 30 milhões de hectares no Brasil. É uma área expressiva, equivalente a 8,5% de toda a superfície rural brasileira, mas ainda insuficiente para traduzir protagonismo econômico proporcional dentro do agronegócio.

Apresentado com exclusividade à Forbes Agro, o dado faz parte do estudo Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro e ajuda a dimensionar um paradoxo que se tornou mais visível no campo: a presença feminina avança, mas a renda, a terra e o poder de decisão seguem concentrados nas mãos dos homens.

A pesquisa foi conduzida pela Fundação IDH, organização internacional com sede em Utrecht, na Holanda, voltada à transformação de mercados com foco em impacto ambiental, social e econômico.

Ela atua no âmbito do Fundo AGRI3, iniciativa de financiamento misto que visa mobilizar US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões, na cotação atual) para ampliar crédito e investimentos em sistemas de agricultura e alimentação sustentáveis em mercados emergentes.

Divulgação/Fundação IDHManuela Santos, diretora da Fundação IDH no Brasil

“O grande diferencial desse estudo é a definição das barreiras e as alavancas para geração de impacto, como recomendações a investidores de impacto interessados em gerarem resultados para fortalecer a igualdade de gênero em seus investimentos,” afirma Manuela Santos, diretora da Fundação IDH no Brasil. “Isso é relevante porque há um interesse do mercado e poucas propostas de soluções como as que foram desenvolvidas.”

Hoje, 19% das 5,07 milhões de propriedades rurais brasileiras, cerca de 947 mil estabelecimentos, são geridas por mulheres. Ainda assim, elas controlam menos de um décimo da área rural total do país.

A assimetria aparece também no tamanho das fazendas. Entre as propriedades lideradas por mulheres, 77,8% têm até 20 hectares, o que evidencia uma forte concentração em áreas pequenas, muitas vezes ligadas à agricultura familiar, à sucessão patrimonial restrita ou à herança de estruturas produtivas de menor escala.

O problema não está apenas na dimensão da terra. Ele atravessa a renda, o acesso a instrumentos de produção e os espaços de representação do agro. Segundo o levantamento, somente 17,4% das mulheres do setor recebem mais de três salários mínimos, ante 29,8% dos homens.

Em paralelo, 31% relatam não ter nenhum acesso à assistência técnica, um dos principais canais para ganho de produtividade, adoção de tecnologia, gestão financeira e qualificação da produção. Nas cooperativas, a distância é ainda mais nítida: as mulheres representam apenas 8,6% dos membros.

A combinação desses indicadores mostra que a desigualdade no agro feminino não é apenas fundiária. Ela é também operacional e institucional. A mulher está no campo, trabalha, administra e decide, mas em geral o faz em estruturas menores, com menor renda, menos apoio técnico e baixa inserção nos fóruns em que se definem preços, crédito, insumos, comercialização e estratégia setorial.

Onde as mulheres estão, e o que isso revela sobre o agro

Giselleflissak/Getty ImagesMulher em liderança na gestão de propriedade de bovinos

O estudo percorreu seis cadeias consideradas estratégicas para o agronegócio brasileiro, soja, cana-de-açúcar, citros, cacau, café e pecuária, e encontrou um padrão recorrente: o avanço feminino existe, mas não ocorre de forma homogênea e tampouco elimina barreiras históricas.

A pecuária aparece como o caso mais emblemático de expansão. Entre 2006 e 2017, o número de mulheres à frente de fazendas de gado cresceu 55%, alcançando 450,7 mil gestoras.

Nessas propriedades, elas já ocupam funções centrais para a operação, como estratégias reprodutivas e manejo da saúde animal. Em um setor tradicionalmente associado à gestão masculina, o movimento sugere uma mudança importante na governança da atividade, especialmente em sistemas familiares e em propriedades que passaram por sucessão ou profissionalização.

No café, a presença feminina na gestão ainda é limitada, 13,2% dos estabelecimentos, mas o estudo aponta um efeito relevante sobre o mercado de trabalho. Nas fazendas lideradas por mulheres, a participação feminina nas equipes chega a 43%, contra 24% nas propriedades geridas por homens. O dado sugere um efeito multiplicador: quando a mulher chega ao comando, ela tende a ampliar a presença de outras mulheres na operação.

Na cadeia do cacau, elas administram 22% das propriedades, mas respondem por apenas 13% da área total, o que reforça a leitura de concentração em estabelecimentos menores.

Nos citros, a liderança feminina alcança 18% das fazendas, enquanto a força de trabalho feminina representa 23%, com peso maior nos períodos de colheita.

Na soja, a presença feminina na produção primária ainda é de 17%, mas sobe para 34,5% quando se incluem os agroserviços, o que mostra como parte da inserção das mulheres no agronegócio tem migrado para funções técnicas, administrativas, de apoio e de serviços ao redor da porteira.

A cana-de-açúcar, por sua vez, concentra os piores indicadores do levantamento. A participação feminina na força de trabalho é de 8,8%, e a presença em cargos de liderança cai para 5,4%. Trata-se do elo mais excludente entre as cadeias analisadas, um retrato que dialoga com o perfil historicamente mais industrial, mecanizado e masculinizado do setor sucroenergético.

Mais escolaridade, menos renda

Igor Alecsander/Getty ImagesFazendeira em lavoura de soja

Talvez o dado mais desconfortável do estudo seja o que cruza escolaridade e remuneração. Apesar de, em média, terem maior nível educacional, as mulheres continuam concentradas em funções menos valorizadas e menos remuneradas.

Na prática, o agro repete no campo um fenômeno conhecido do mercado de trabalho urbano: mais qualificação não garante, por si só, igualdade de renda nem acesso aos postos de comando.

Esse descompasso ajuda a entender por que o crescimento da participação feminina ainda não se converteu em paridade econômica. Em parte, porque a inserção das mulheres ocorre muitas vezes em cadeias ou funções com menor poder de remuneração.

Em parte, porque o acesso aos ativos mais decisivos da atividade rural, terra, crédito, assistência técnica, rede de comercialização e representação política, continua desigual.

A questão fundiária pesa especialmente. Sem título de terra em nome próprio, muitas produtoras enfrentam dificuldades para acessar financiamento bancário, oferecer garantias, investir em expansão ou renegociar passivos.

Em um setor em que a escala produtiva, o acesso a crédito e a capacidade de travar custos e preços moldam a rentabilidade, a exclusão patrimonial tem efeito direto sobre a renda feminina.

Sucessão, crédito e cooperativas: o núcleo duro da desigualdade

FG Trade/Getty ImagesGrupo de produtores rurais, com mulheres no grupo

O relatório organiza os entraves em seis temas materiais, mas três deles ajudam a explicar a engrenagem econômica da exclusão: sucessão, acesso a recursos produtivos e representação.

Na sucessão familiar, o peso cultural ainda é decisivo. Mesmo em famílias rurais capitalizadas, o herdeiro homem continua sendo, com frequência, o sucessor presumido do negócio, enquanto as mulheres são empurradas para papéis de apoio, administração indireta ou atividades paralelas.

Isso atrasa a formação de lideranças femininas, limita o acesso à terra e reduz a chance de elas assumirem o controle integral da operação.

No crédito, a barreira aparece de forma mais objetiva. Sem terra em nome próprio, ou com patrimônio de menor valor, as mulheres entram em desvantagem na disputa por financiamento, o que afeta da compra de insumos à capacidade de investir em irrigação, mecanização, genética, armazenagem ou diversificação produtiva.

Quando 31% das mulheres afirmam não ter acesso à assistência técnica, a exclusão deixa de ser apenas financeira e passa a comprometer a própria capacidade de ganhar eficiência dentro da porteira.

Já a baixa presença em cooperativas e espaços de representação fecha o ciclo. Estar fora das cooperativas significa, muitas vezes, estar mais distante de compras coletivas, informação de mercado, assistência, comercialização, governança e articulação política. Em um agronegócio cada vez mais orientado por organização em rede, essa ausência cobra um preço alto.

O custo econômico de desperdiçar liderança

O estudo tenta deslocar a discussão da esfera exclusivamente social para o terreno da estratégia econômica. A tese de ampliar o espaço das mulheres no agronegócio não é apenas uma agenda de equidade, é também uma agenda de produtividade, inovação e resiliência.

Segundo o relatório, propriedades lideradas por mulheres tendem a adotar práticas mais voltadas à responsabilidade social, ao cuidado com equipes e à conservação do solo. O documento também associa a liderança feminina a modelos de gestão mais atentos à sustentabilidade e à inovação.

Embora essa leitura mereça cautela para não transformar diferenças médias em regra universal, o ponto central permanece relevante: um setor que restringe o acesso de parte de sua força produtiva à terra, ao crédito e à decisão opera abaixo do próprio potencial.

No limite, a desigualdade de gênero também é um problema de alocação de capital e de eficiência econômica. Se mulheres estudam mais, já comandam quase um quinto das propriedades e ganham espaço em cadeias relevantes, mas continuam com menos terra, menos renda e menos acesso a serviços estratégicos, o agro brasileiro está deixando produtividade na mesa.

“Fechar as lacunas de gênero no agronegócio brasileiro é tanto um imperativo moral quanto uma alavanca para a resiliência econômica e ambiental”, diz Luiz Almeida, líder do estudo da Fundação IDH.

O que o estudo propõe

As recomendações do levantamento caminham justamente na direção de destravar esses gargalos. Entre elas estão:

  • mecanismos financeiros mais inclusivos, capazes de ampliar o acesso ao crédito sem depender exclusivamente do título de propriedade da terra;
  • políticas de compras que valorizem produtos oriundos de propriedades lideradas por mulheres;
  • programas de capacitação técnica e formação de lideranças adaptados à rotina feminina no meio rural;
  • redes de mentoria;
  • transparência salarial;
  • canais seguros para denúncias de assédio moral e sexual;
  • e investimentos em infraestrutura de apoio, como creches e escolas em tempo integral.

É nesse ponto que a Fundação IDH tenta aproximar a agenda de gênero da lógica de negócios e de financiamento do agro. Em vez de apenas medir desigualdades, o relatório tenta organizar um cardápio de soluções para investidores, empresas, tradings, cooperativas e instituições financeiras que buscam incorporar metas de inclusão e impacto social às cadeias do agronegócio.

A aposta é que gênero deixe de ser tratado apenas como um tema reputacional e passe a ser visto também como variável de eficiência, gestão de risco e produtividade.

O avanço das mulheres no campo, portanto, já não pode ser lido como um movimento periférico ou simbólico. Ele mexe com sucessão, com gestão, com organização do trabalho e com a forma como o setor pensa produtividade e liderança.

O que o estudo mostra é que o agro brasileiro já mudou mais do que seus indicadores de renda e poder deixam transparecer. A questão agora é saber quanto tempo o setor ainda vai levar para alinhar presença, patrimônio e remuneração das mulheres no agro.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Galípolo diz que ruído no Copom veio de excesso de informação

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (25) que o problema na…

CNA reforça pautas do agro no Congresso antes do recesso parlamentar

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) reuniu, nesta quinta-feira (25), o Núcleo…

Indonésia Estabelece Transição de Três Meses para Implantação de Biodiesel B50 em Julho

A Indonésia emitiu um regulamento para implementar seu mandato de biodiesel B50 a partir de…