A rotina operacional da JBS envolve o abastecimento diário de uma engrenagem que entrega alimentos para mais de 300 mil clientes em aproximadamente 180 países. A magnitude dessa estrutura ganhou números e contornos estratégicos nesta segunda-feira (15), em Nova York, durante o JBS Day. O encontro corporativo anual, voltado para investidores e analistas do mercado financeiro, serviu de palco para o CEO global Gilberto Tomazoni e sua equipe de diretores apresentarem as teses que pretendem guiar o grupo nos próximos anos, sustentadas por cinco pilares: crescimento contínuo, expansão de margens, redução da volatilidade, disciplina financeira e retorno de capital.
Entre 2019 e o primeiro trimestre de 2026, a receita líquida da companhia saltou de US$ 50 bilhões (R$ 286,5 bilhões na cotação atual) para US$ 71 bilhões (R$ 406,8 bilhões), evolução puxada por aquisições e eficiência interna. O desempenho financeiro gerou US$ 14,5 bilhões (R$ 83,1 bilhões) em fluxo de caixa livre no período, garantindo uma média anual de US$ 2 bilhões (R$ 11,46 bilhões). O bolso do acionista acompanha o ritmo de crescimento: a empresa destinou US$ 6,3 bilhões (R$ 36,1 bilhões) para dividendos e recompra de ações nos últimos sete anos, e prepara o desembolso de mais US$ 1,071 bilhão (R$ 6,13 bilhões) em proventos para o decorrer deste mês de junho de 2026.
Demografia, saudabilidade e o fenômeno GLP-1
A JBS desenha o planejamento de longo prazo atenta às transformações demográficas e de comportamento. As projeções expostas no evento apontam que o mercado global de alimentos de alta proteína deve registrar avanço anual de 8% entre 2025 e 2034, impulsionado pela busca por dietas equilibradas e saudabilidade.
Outro fator central na mesa dos analistas é a expansão dos medicamentos emagrecedores baseados em GLP-1 nos Estados Unidos. A estimativa indica o surgimento de mais de 20 milhões de usuários dessas substâncias no mercado norte-americano entre 2025 e 2030, com expansão anual de 25%. A tendência altera o perfil de consumo de calorias, aumentando a exigência por proteínas magras e formatos de alta conveniência. Diante disso, a agência reguladora americana (FDA) passou a priorizar as recomendações de ingestão proteica diária para níveis de 1,2g a 1,6g por quilo corporal, invertendo a lógica da antiga pirâmide alimentar.
Mas é a distribuição geográfica e por tipo de proteína funciona como escudo de proteção financeira. A América do Norte representa 51% do faturamento por local de fabricação, mas o avanço em outros segmentos equilibra o balanço. A divisão de suínos nos Estados Unidos (JBS USA Pork), comandada por Wesley Batista Filho, opera 5 plantas de abate e 10 unidades de alimentos preparados, capturando margens favoráveis por causa da queda nos custos globais de ração. A JBS também se consolida entre os quatro maiores produtores de ovos do planeta por meio da MTQ Eggs, com capacidade para 30 milhões de aves e inovação em bebidas funcionais.
Na Pilgrim’s Pride (PPC), do setor de aves e comandada por Fabio Sandri, o destaque fica com a marca premium Just Bare, cujas vendas no varejo atingiram US$ 1 bilhão (R$ 5,73 bilhões) em 2025, após registrar expansão anual composta de 45% nos últimos cinco anos. Na Oceania, a JBS Austrália, liderada por Brent Eastwood, faturou 12,4 bilhões de dólares australianos em 2025. O braço australiano investe 265 milhões de dólares locais na marca Huon para alcançar a produção de 46 mil toneladas anuais de salmão na Tasmânia, de olho em um mercado onde a demanda mundial avança 7% ao ano e a oferta sobe apenas 3%.
O salto produtivo no Brasil e a rota do Oriente Médio
No Brasil, a operação de bovinos da Friboi, dirigida por Renato Costa, adota o modelo de intensificação pecuária e engorda em confinamento para reduzir a idade de abate dos animais. O volume de bovinos processadas pela JBS Brasil avançou 38% entre 2021 e 2025, totalizando 2,7 milhões de animais ao sistema produtivo. A marca implementa o programa Friboi+ para gestão de gôndolas no varejo, presente em 2,2 mil lojas, com meta de alcançar 2,8 mil estabelecimentos até 2028, iniciativa que eleva em até 30% as vendas totais das lojas parceiras.
Na Seara, sob a gestão de João Campos, os investimentos de R$ 10,2 bilhões realizados nos últimos anos expandiram em 20% a capacidade fabril e geraram ganhos de eficiência da ordem de R$ 3 bilhões entre 2024 e 2025. A marca atinge 94% de penetração nos lares do país. Fora do território nacional, a Seara acelera o passo no Oriente Médio. O grupo investiu US$ 150 milhões (R$ 859,5 milhões) em Omã e inaugurou um complexo industrial em Jeddah, na Arábia Saudita. A nova fábrica saudita deve gerar faturamento de US$ 1,5 bilhão (R$ 8,59 bilhões) quando operar em capacidade plena.
Nova York: a caça aos gigantes invisíveis
A engenharia financeira para destravar valor acionário passa de forma obrigatória pela proposta de dupla listagem de ações na Bolsa de Nova York (NYSE). O CFO global, Guilherme Cavalcanti, demonstrou em sua apresentação que a atual estrutura acionária do grupo impede a entrada dos investidores passivos norte-americanos.
Essas estruturas funcionam como os verdadeiros “gigantes invisíveis” de Wall Street: são fundos bilionários que operam de forma automatizada por meio de algoritmos de índices. Como não avaliam empresas individualmente, mas apenas replicam composições de mercado, eles se tornam incapazes de enxergar a JBS enquanto as ações da companhia não estiverem listadas diretamente nas bolsas dos Estados Unidos. Essa barreira técnica hoje rebaixa os múltiplos de avaliação da JBS frente aos concorrentes locais.
Os dados de mercado expostos no encontro comprovam a tese. Essas grandes gestoras de capital passivo, representadas por Vanguard, BlackRock e State Street, concentram fatias expressivas de investimento nas concorrentes norte-americanas Tyson Foods e Hormel, mantendo uma participação pequena na JBS.
Com o projeto de dupla listagem, a administração projeta elevar o volume médio diário de negociação das ações (ADTV) de US$ 34 milhões (R$ 194,8 milhões) para US$ 100 milhões (R$ 573 milhões). A inclusão definitiva nos índices de fundos passivos dos Estados Unidos está prevista para setembro de 2026, movimento estratégico mapeado para fazer com que os algoritmos de Nova York finalmente passem a computar o real tamanho da maior processadora de alimentos do mundo.