14/06/2026

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Modelo Criado no Brasil Promete Destravar Créditos de Carbono na Agricultura Tropical

O mercado de carbono avança no campo, mas ainda convive com uma limitação importante: a maior parte das ferramentas utilizadas para calcular o carbono armazenado no solo foi desenvolvida para regiões de clima temperado, com sistemas produtivos bastante diferentes dos encontrados nos trópicos. Agora, pesquisadores brasileiros apostam em uma alternativa criada a partir da realidade agrícola nacional.

A Embrapa está concluindo o desenvolvimento do ProCarbon-Soil (Procs), primeiro modelo concebido em uma região tropical para estimar a dinâmica do carbono em sistemas agrícolas. A ferramenta foi apresentada em artigo científico publicado no Soil Science Society of America Journal e poderá servir de base para projetos de créditos de carbono ligados à agricultura.

A proposta é simplificar um processo que hoje exige grande quantidade de parâmetros e variáveis. Enquanto modelos tradicionais trabalham com diferentes compartimentos de carbono e utilizam um conjunto amplo de informações, o Procs opera com apenas duas variáveis diretamente mensuráveis: o estoque total de carbono e o grau de decomposição desse material no solo.

“O que a gente precisa para o mercado de carbono é a dinâmica, a variação do carbono total. Uma segunda métrica está associada à qualidade desse carbono, ao quanto ele permanece estável. Outros modelos particionam o carbono em diferentes compartimentos. O nosso avalia a qualidade geral do carbono”, afirma Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e líder do projeto.

A ferramenta foi construída a partir de uma ampla base de dados da agricultura brasileira. Os pesquisadores utilizaram informações geradas pela Embrapa e pela Bayer, parceira da iniciativa, além de um conjunto de 4.290 amostras de solo provenientes de todas as regiões do país. O material reúne dados publicados em 370 estudos científicos.

O objetivo é oferecer uma alternativa mais compatível com as condições encontradas no Brasil. Em regiões tropicais, fatores como temperatura, umidade e intensidade da atividade biológica alteram o comportamento da matéria orgânica no solo, tornando mais complexa a adaptação de modelos criados para outras realidades.

Entre as vantagens estão a autonomia e a possibilidade de desenvolvimento contínuo para que o modelo não fique obsoleto. É uma tecnologia nossa e temos a propriedade intelectual sobre ela”, diz Barioni.

Além de estimar a evolução dos estoques de carbono, o Procs consegue simular os impactos de práticas agrícolas como plantio direto, rotação de culturas e diferentes formas de preparo do solo. A expectativa é que a ferramenta reduza custos de monitoramento e aumente a transparência em projetos de agricultura de carbono.

Hoje existem dois caminhos para mensurar a remoção de carbono do solo. O primeiro consiste em coletar amostras em campo e repetir a operação anos depois, um procedimento caro e demorado. O segundo utiliza modelos matemáticos reconhecidos por certificadoras que atuam no mercado de carbono.

Nos testes realizados pelos pesquisadores, o Procs apresentou desempenho semelhante ao Century, um dos modelos mais utilizados internacionalmente. Em simulações de 50 anos, a diferença média entre as estimativas foi de pouco mais de uma tonelada de carbono por hectare.

Segundo a equipe da Embrapa, a margem de incerteza também ficou abaixo daquela observada em medições diretas realizadas em propriedades agrícolas brasileiras. Em áreas típicas de cerca de 40 hectares, os protocolos convencionais podem registrar erros próximos de 3,8 toneladas de carbono por hectare.

O próximo passo será a validação formal da ferramenta. Os pesquisadores elaboram um relatório técnico que será encaminhado à Verra, principal certificadora do mercado voluntário de carbono. O reconhecimento por organismos independentes é considerado essencial para ampliar a adoção da tecnologia por empresas, produtores rurais e operadores do setor.

“Esse modelo precisa ser reconhecido pela academia e por outros atores. Quanto mais gente utilizá-lo, maior será sua credibilidade”, afirma Barioni.

Desenvolvido dentro do projeto PRO Carbono, parceria entre Embrapa e Bayer, o Procs também foi desenhado para trabalhar com tecnologias emergentes. A estrutura permite integração com imagens de satélite, inteligência artificial e sistemas de assimilação de dados capazes de corrigir automaticamente desvios entre medições e projeções.

“Nosso modelo é mais adequado para esse tipo de integração. Acreditamos que essas tecnologias estarão cada vez mais associadas à estimativa das variações dos estoques de carbono”, diz o pesquisador.

Caso obtenha a validação das certificadoras, a ferramenta poderá reforçar a participação da agricultura tropical em um mercado que movimenta bilhões de dólares e ainda depende, em grande medida, de metodologias desenvolvidas fora dos trópicos. (Com Embrapa)

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