A proposta dos Estados Unidos de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros repercutiu entre analistas do mercado financeiro e economistas, mas a reação inicial dos ativos nesta terça-feira, 2, foi menos intensa do que o tom do relatório divulgado por Washington sugeria.
O dólar abriu em leve queda frente ao real, próximo de R$ 5, enquanto investidores tentavam entender até onde a ameaça comercial do governo Donald Trump pode realmente chegar. Perto do meio dia, o Ibovespa registrava alta de 1,35%, aos 174.565 pontos.
A percepção predominante entre economistas e agentes de mercado é que o impacto será desigual entre os setores e que a extensa lista de exceções divulgada pelos americanos ajudou a conter uma deterioração maior do humor.
Pressão política e pragmatismo econômico
“O impacto é assimétrico. Agro, petróleo e Embraer passam praticamente ilesos, protegidos pelas exceções. A pressão real recai sobre siderúrgicas e fabricantes de bens de capital, para quem 25% dificilmente cabe na margem”, afirma o economista José Ronaldo Souza Junior, professor de economia do Ibmec-Rio.
Segundo ele, o ajuste tende a ocorrer via compressão de margens, redirecionamento de exportações para outros mercados e, em casos mais extremos, aumento da ociosidade industrial.
“Por ser intensiva em capital, a siderurgia é a mais vulnerável: perda de volume pesa desproporcionalmente no resultado”, diz. O economista afirma ainda que a própria incerteza tende a barrar investimentos e contratos de longo prazo antes mesmo de qualquer tarifa entrar efetivamente em vigor.
A avaliação do economista Gilberto Braga, também professor do Ibmec-RJ, é que a medida representa um retrocesso nas negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
“É como se fosse, em um jogo de tabuleiro, um passo atrás ou duas casas para trás”, afirma. Segundo ele, havia expectativa de avanço nas conversas bilaterais conduzidas após encontros entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, mas o relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) indica que existe um processo paralelo dentro do governo americano pressionando por medidas mais duras.
Braga chama atenção para o fato de o documento extrapolar questões puramente comerciais ao incluir críticas ao Pix, desmatamento, propriedade intelectual e decisões judiciais envolvendo plataformas digitais americanas.
Ao mesmo tempo, destaca que os próprios Estados Unidos preservaram justamente setores considerados estratégicos para sua economia.
“Os Estados Unidos exoneraram dessa taxação produtos e segmentos importantes para eles e que, na primeira rodada de tarifas do ano passado, tiveram impacto negativo do ponto de vista da inflação e da percepção da opinião pública”, afirma.
Entre os setores preservados estão carnes, frutas, café, cereais, aeronaves, fertilizantes, minerais, produtos químicos e farmacêuticos. Já segmentos como calçados e móveis aparecem entre os mais vulneráveis caso as tarifas entrem em vigor após o prazo final de negociação, em 15 de julho. “Segmentos de calçados, moveleiro não foram exonerados e tem nas exportações para os Estados Unidos mercados bastante relevantes; Para os afetados, obviamente que é um prejuízo grande, difícil ainda saber”, diz.
Mercado vê aumento do prêmio de risco
No mercado financeiro, a percepção é que o episódio aumenta o prêmio de risco do Brasil, mas ainda sem provocar uma ruptura relevante no cenário macroeconômico.
“A proposta de tarifa de 25% dos Estados Unidos contra mercadorias brasileiras deve ser lida como risco macroeconômico real, não apenas como ruído político”, afirma Fábio Murad, sócio da Ipê Avaliações. Segundo ele, o investidor internacional tende a enxergar aumento da incerteza regulatória e diplomática envolvendo o país.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, avalia que o mercado diferencia o impacto setorial do sistêmico justamente porque boa parte dos produtos estratégicos ficou fora da medida.
“Isso reduz o potencial de choque sobre a balança comercial e sobre o fluxo cambial agregado”, afirma.
Ainda assim, o Ibovespa acumulou na véspera sua quinta queda consecutiva, em um movimento interpretado como ajuste gradual de risco por parte dos investidores.
“Não foi pânico, mas é um sinal de que o mercado já está ajustando o preço do risco”, afirma Volnei Eyng, CEO da Multiplike. Segundo ele, o cenário tende a pressionar o câmbio, elevar o custo do crédito e aumentar a cautela do investidor estrangeiro com ativos brasileiros.
Empresas temem insegurança regulatória
Para Mary Elbe Queiroz, presidente do Centro Nacional de Prevenção aos Conflitos Tributários (Cenapret), o problema pode extrapolar o comércio exterior e atingir diretamente o ambiente tributário e regulatório das empresas brasileiras.
“A tarifa americana de 25% pode ampliar a insegurança fiscal para as empresas brasileiras porque transforma um risco comercial em um problema de planejamento tributário, financeiro e regulatório”, afirma.
Segundo ela, empresas exportadoras terão de rever contratos, preços, margens e fluxo de caixa justamente em meio à transição da reforma tributária brasileira.
Jason Vieira, economista-chefe da Lev, resume o cenário como um aumento direto de custos para empresas brasileiras exportadoras.
“É cedo ainda para avaliar, mas, no cerne geral, é aumento de custo, redução de vendas para os EUA e dificuldade em fechar as contas”, afirma.
Dólar cai apesar da tensão comercial
Apesar do tom duro do relatório americano, o mercado ainda trabalha com a possibilidade de negociação. As medidas propostas pelo USTR ainda precisam ser formalizadas pela Casa Branca, e o prazo para definição final vai até 15 de julho.
Nesse meio-tempo, investidores continuam monitorando não apenas as negociações entre Brasília e Washington, mas também o avanço das tensões geopolíticas no Oriente Médio, que seguem adicionando volatilidade ao ambiente global.
“O comportamento do câmbio hoje parece ir um pouco na direção contrária do que os fundamentos da sessão sugeriam”, afirmou Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, ao comentar a queda do dólar frente ao real mesmo diante do aumento das tensões comerciais. Às 11h40, a moeda americana era negociada a R$ 5, queda de 0,25%.
Para Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, o mercado ainda parece cauteloso antes de reagir de forma mais contundente.
“Pouco reflexo ainda. O dólar abriu levemente em queda e o pré-market sem grandes alterações. O mercado ainda vai dissecar mais informações ao longo do dia”, afirmou.