O agronegócio brasileiro continua sendo uma das atividades econômicas mais competitivas do planeta, mas o ambiente de negócios ao seu redor nunca foi tão complexo. Mudanças climáticas, conflitos geopolíticos, restrições de crédito, transformação digital e novas exigências regulatórias passaram a influenciar decisões de investimento, produção e expansão em toda a cadeia produtiva.
Esse cenário é retratado pelo estudo Top 10 Riscos e Oportunidades no Agro 2026, elaborado pela EY e divulgado nesta segunda-feira (8). O documento foi feito a partir da percepção de 52 lideranças empresariais distribuídas entre fornecedores de insumos, produtores rurais, agroindústrias, tradings e compradores de commodities agrícolas.
A principal novidade desta edição está na metodologia. Diferentemente do levantamento realizado em 2022, a pesquisa passou a medir não apenas a relevância dos riscos, mas também o grau de preparação das empresas para enfrentá-los. O ranking considera a distância entre o impacto potencial de cada tema e a prontidão das organizações para responder a ele.
“Quando ranqueamos as empresas, fazemos isso baseados na lacuna entre o valor do impacto do risco e a prontidão da organização. Quanto maior essa lacuna, maior é o risco”, explica Otavio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY, durante entrevista exclusiva à Forbes Agro.
A pesquisa ouviu lideranças de empresas com faturamentos que variam de aproximadamente R$ 3 bilhões a mais de R$ 60 bilhões anuais, distribuídas entre fornecedores de insumos, produtores rurais, agroindústrias, tradings e compradores de commodities.
Segundo Lopes, a EY já possui mais de 300 clientes ligados ao agronegócio em sua carteira, formando uma das maiores bases de relacionamento do setor entre as consultorias globais que atuam no país.
A seguir, os dez temas que, segundo a consultoria, devem moldar o futuro do agronegócio brasileiro.
1. Mudanças climáticas

Pela segunda edição consecutiva, as mudanças climáticas aparecem no topo da lista. O tema foi apontado como de impacto alto ou muito alto pela ampla maioria dos participantes da pesquisa e representa a maior lacuna entre risco percebido e capacidade de resposta.
Secas prolongadas, enchentes, geadas e eventos climáticos extremos passaram a afetar diretamente produtividade, seguros, financiamento, logística e acesso a mercados.
Segundo Lopes, o avanço das ferramentas de análise de risco já está alterando decisões de crédito e investimento em diversas regiões produtoras.
“A decisão vai ser binária: se aquela região está exposta ao risco, talvez seja preferível você não fazer o plantio, pelo potencial risco de perda daquela safra.”
Ao mesmo tempo, o tema abre oportunidades relacionadas à agricultura regenerativa, aos biocombustíveis, à geração de créditos de carbono e ao uso de tecnologias para aumentar a resiliência das operações.
2. Atração, desenvolvimento e retenção de pessoas
O maior salto do ranking ocorreu justamente na gestão de pessoas. O tema ocupava a oitava posição em 2022 e agora aparece em segundo lugar.
O movimento reflete uma preocupação crescente com a formação de profissionais capazes de atuar em um ambiente cada vez mais tecnológico, conectado e orientado por dados.
“Para você acompanhar toda essa revolução que está muito dependente de tecnologia e inovação, você precisa ter as pessoas corretas”, afirma Lopes.
A demanda por operadores de sistemas digitais, especialistas em dados, profissionais de agricultura de precisão e gestores preparados para processos de sucessão familiar passou a ocupar papel central nas estratégias das empresas.
3. Geopolítica e comércio internacional

Ausente na edição anterior, a geopolítica estreia diretamente entre os três principais riscos para o setor.
Conflitos internacionais, barreiras comerciais, restrições logísticas e tensões envolvendo insumos estratégicos passaram a afetar diretamente a competitividade do agro brasileiro.
Segundo Lopes, episódios recentes envolvendo fertilizantes e energia demonstram como eventos externos podem alterar rapidamente custos de produção e margens de rentabilidade.
O fechamento de corredores logísticos e os riscos envolvendo o Estreito de Ormuz reforçaram o alerta para uma cadeia produtiva altamente dependente de insumos importados.
Por outro lado, o cenário também cria oportunidades para diversificação de mercados e fortalecimento do papel do Brasil como fornecedor global de alimentos.
4. Políticas, reformas e regulações governamentais
As mudanças regulatórias aparecem como o quarto tema mais relevante do estudo.
A implementação da reforma tributária, as discussões sobre sustentabilidade, os programas de incentivo e as novas exigências ambientais devem influenciar diretamente a competitividade do setor nos próximos anos.
“O avanço da reforma tributária adiciona um novo elemento de atenção para o agro, exigindo das empresas maior capacidade de adaptação às mudanças na apuração de tributos e na reorganização das cadeias produtivas”, afirma Lopes.
5. Tecnologia, transformação digital e inovação

Outro estreante entre os dez principais temas é a transformação digital.
A rápida disseminação de inteligência artificial, automação, conectividade rural, sensores, drones e agricultura de precisão está redefinindo a forma como as empresas produzem, comercializam e gerenciam riscos.
Embora reconheçam o potencial dessas tecnologias, muitas organizações ainda demonstram baixa maturidade para capturar plenamente os benefícios da digitalização.
A avaliação da EY é que os ganhos futuros de produtividade estarão diretamente ligados à capacidade de transformar dados em decisões estratégicas.
6. Gestão de riscos financeiros e volatilidade de commodities
A volatilidade dos preços agrícolas, as oscilações cambiais e as mudanças nas condições de crédito mantêm o tema entre as principais preocupações do setor.
O ambiente financeiro se tornou mais seletivo, especialmente diante do aumento da percepção de risco por parte dos financiadores.
Segundo Lopes, a deterioração do crédito observada nos últimos meses elevou a necessidade de governança, transparência e planejamento financeiro por parte das empresas e produtores.
7. Produtividade, controle de custos e eficiência na gestão de ativos
Historicamente um dos principais motores da competitividade brasileira, a eficiência operacional continua sendo um tema prioritário.
O aumento dos custos de produção, especialmente fertilizantes, energia, logística e capital, exige um controle cada vez mais rigoroso sobre recursos e ativos.
Lopes observa que os recentes choques globais envolvendo fertilizantes evidenciaram a necessidade de estratégias mais robustas de abastecimento e gestão de estoques.
8. Logística, infraestrutura, armazenagem e distribuição

Os gargalos logísticos seguem entre os desafios estruturais do agronegócio nacional.
A expansão da produção para novas fronteiras agrícolas ampliou a dependência de investimentos em rodovias, ferrovias, hidrovias, terminais e sistemas de armazenagem.
O déficit de capacidade de estocagem e os elevados custos de transporte continuam reduzindo eficiência e competitividade em diversas regiões produtoras.
9. Ética, compliance e controles internos
A crescente pressão de investidores, compradores internacionais e instituições financeiras elevou a importância das práticas de governança e integridade.
Questões ligadas a ESG, rastreabilidade, combate ao desmatamento ilegal e monitoramento de fornecedores passaram a integrar o centro das decisões empresariais.
“Em 2026, sobressai uma agenda marcada pela expansão das exigências ESG, disciplina na gestão de dados, maior escrutínio sobre terceiros e necessidade de respostas rápidas a riscos socioambientais”, afirma Lopes.
10. Estratégia de crescimento e acesso a capital
Fechando a lista aparece um tema que sintetiza boa parte das transformações em curso no setor.
O ambiente de financiamento mudou. O crédito se tornou mais seletivo, mais caro e mais dependente de critérios relacionados à governança, transparência e gestão de riscos.
Para empresas e produtores, o desafio passa a ser construir estruturas capazes de acessar diferentes fontes de capital em um cenário de maior exigência por parte dos investidores.
Uma agenda que muda mais rápido
Mais do que identificar ameaças, o estudo revela uma mudança profunda na forma como o agronegócio administra riscos.
Temas ligados à produtividade continuam relevantes, mas perderam protagonismo para fatores externos e menos controláveis, como clima, geopolítica e disponibilidade de talentos.
Segundo Lopes, o diferencial competitivo passa a ser a velocidade de reação das empresas diante de eventos inesperados.
“O intervalo de tempo entre entender um choque e reagir vai dar o tamanho do seu lucro ou do teu prejuízo. Essa rapidez é o que a gente chama de resiliência.”
O conceito ajuda a explicar por que a EY decidiu reformular a metodologia do estudo. Em um ambiente de policrises, marcado por mudanças rápidas e simultâneas, não basta conhecer os riscos. É preciso entender o grau de preparo das organizações para responder a eles.
O que já aparece no radar para 2027
Embora a edição de 2026 tenha acabado de ser divulgada, algumas tendências já começam a chamar a atenção da EY para a próxima atualização do levantamento. A antecipação da agenda foi compartilhada por Lopes.
Entre os temas que devem ganhar protagonismo está o mercado de carbono. A avaliação da consultoria é que a agenda ambiental está deixando de ser apenas uma exigência regulatória ou reputacional para se transformar em uma oportunidade concreta de geração de receitas.
“O agro brasileiro tem uma vantagem competitiva enorme nessa agenda. Estamos falando de um setor que pode gerar créditos de carbono, ampliar a produção de biocombustíveis e capturar valor em modelos de negócios que até poucos anos atrás sequer existiam”, afirma.
A mudança ocorre em um momento em que investidores, financiadores e compradores globais começam a atribuir valor econômico crescente a ativos ambientais, rastreabilidade e atributos de sustentabilidade.
“Sustentabilidade até então era licença para operar; agora passa a ser uma possibilidade de revenue stream, uma possibilidade de ganhar dinheiro.”
Outro tema que tende a ganhar relevância envolve a segurança das cadeias globais de suprimentos. Os episódios recentes envolvendo fertilizantes, energia e logística internacional reforçaram a necessidade de estruturas mais resilientes para abastecimento e financiamento.
A evolução da inteligência artificial aplicada ao campo, a monetização de dados agrícolas, os impactos da reforma tributária sobre as cadeias produtivas e o avanço dos biocombustíveis também aparecem entre os assuntos que deverão influenciar o ambiente de negócios do agronegócio nos próximos anos.
A expectativa é que a atualização anual do estudo permita acompanhar essas transformações em um ritmo mais próximo da realidade do mercado.
A aposta da EY no agro
A decisão de transformar o Top 10 Riscos e Oportunidades no Agro em um levantamento anual coincide com um momento de expansão da própria atuação da EY no setor.
Segundo Otavio Lopes, o Centro de Excelência para o Agronegócio (CEA), estrutura criada pela consultoria para concentrar iniciativas voltadas ao setor, projeta faturamento superior a US$ 100 milhões (R$ 550 milhões, na cotação atual) no próximo ano fiscal apenas com atividades relacionadas ao agronegócio.
O crescimento é resultado de uma estratégia que vem sendo construída nos últimos anos. De acordo com o executivo, a EY tem realizado investimentos na casa de dezenas de milhões de dólares em iniciativas voltadas ao agro, incluindo contratação e capacitação de profissionais, desenvolvimento de soluções especializadas, aquisição de empresas, produção de estudos setoriais e fortalecimento da presença institucional junto às principais entidades da cadeia produtiva.
“Estamos muito ativos e interagindo de perto com o setor”, afirma Lopes.
A estratégia passa também por ampliar a presença da consultoria fora dos grandes centros financeiros. Além das operações concentradas em São Paulo, a EY vem utilizando suas estruturas regionais no Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul para estreitar o relacionamento com cooperativas, produtores, agroindústrias e entidades setoriais.
Nos últimos meses, a empresa participou de agendas com a Ocepar, promoveu debates sobre resiliência no agronegócio em parceria com entidades da avicultura gaúcha e marcou presença em eventos organizados por empresas e cooperativas do setor em diferentes regiões do país.
A atuação também inclui missões internacionais voltadas ao agronegócio em mercados como Estados Unidos, México e Singapura.
“Estamos conectados além da Faria Lima. É importante estar onde o agro realmente acontece”, diz Lopes.
A expansão ganhou um novo capítulo com a aquisição da MB Agro, uma das mais tradicionais consultorias brasileiras especializadas em inteligência econômica, estratégia e análise de mercado para o campo.
O movimento reforça uma estratégia de crescimento que acompanha o peso crescente do agronegócio dentro da economia brasileira e dentro dos próprios negócios da EY.
Com a incorporação da MB Agro, a empresa amplia sua capacidade de oferecer inteligência econômica, planejamento estratégico, gestão de riscos, sustentabilidade, tecnologia e transformação de negócios para toda a cadeia agroindustrial.
A aposta da consultoria reflete uma convicção cada vez mais presente entre as lideranças do setor: o futuro do agronegócio será definido não apenas pela capacidade de produzir mais, mas pela habilidade de antecipar riscos, interpretar mudanças e transformar incertezas em vantagem competitiva.