05/06/2026

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Como a FIFA Reinventou os Gramados da Copa de 2026

Em uma fazenda de grama no norte do México, a cerca de duas horas de Monterrey, John Sorochan observava uma área que para a maioria das pessoas pareceria apenas mais um campo verde. Mas, para o pesquisador da Universidade do Tennessee, aquele gramado representava anos de trabalho, milhões de dólares em investimentos e um dos projetos científicos mais ambiciosos já realizados na história dos esportes.

Ali crescia parte da grama destinada à Copa do Mundo de 2026. “Essa é a melhor grama que já vi no México. É linda”, afirmou Sorochan durante uma inspeção em uma das áreas de produção destinadas ao torneio e que pode ser acompanhada nos vídeos sobre o projeto Bringing UT’s Turfgrass Expertise to FIFA World Cup 26 .

Quando a bola começar a rolar nos Estados Unidos, Canadá e México, os holofotes estarão voltados para estrelas como Lionel Messi, Kylian Mbappé, Vinicius Júnior e Jude Bellingham. Mas nos bastidores, outra protagonista passará por seu teste definitivo: a pesquisa científica que durante cinco anos mobilizou universidades, produtores rurais, empresas de tecnologia e a FIFA para resolver um desafio aparentemente simples.

Unv.Tennnesse/DivulgJohn Sorochan, o pai dos gramados da Copa

Como fazer 16 estádios espalhados por três países, em climas completamente diferentes, oferecerem exatamente as mesmas condições de jogo? A resposta mobilizou mais de US$ 5 milhões em investimentos da FIFA, equivalentes a cerca de R$ 27 milhões na cotação atual, e criou uma operação que extrapola o futebol. O projeto já desperta interesse de ligas esportivas, campos de golfe e produtores de grama em diversos países. Também ajuda a transformar um segmento agrícola pouco conhecido do público: a produção de tapetes de grama de alto desempenho.

O problema que ninguém via

A Copa do Mundo de 2026 será a maior já organizada pela FIFA. Serão 48 seleções, 104 partidas e 16 estádios nos três países. Foi essa expansão do torneio que trouxe uma dificuldade inédita.

Muitos dos estádios escolhidos não foram construídos para o futebol. Onze dos 16 locais pertencem ou são utilizados por franquias da National Football League (NFL), a liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos. Diversos desses estádios operam com gramados sintéticos, alguns possuem cobertura, outros recebem shows, eventos corporativos e partidas de diferentes modalidades durante praticamente todo o ano.

Unv.Tennnesse/DivulgEstádio Mercedes-Benz, em Atlanta, que recebendo grama da Green Valley Sod

Em vários casos, a janela disponível para transformar uma arena multifuncional em um estádio apto para uma Copa do Mundo não passa de algumas semanas. Foi nesse contexto que a FIFA procurou especialistas em gramados esportivos.

Sorochan lembra exatamente quando recebeu o convite. “Quando conheci Alan Ferguson, gerente de gramados da FIFA, no verão de 2019, ele disse: isso vai acontecer em 2026, vai ser enorme e quero uma pesquisa baseada em ciência e evidências. Ele disse que gostaria que eu liderasse esse trabalho, caso tivesse interesse”, recorda. “Estava sentado ali sem esperar nada parecido. E respondi: claro.”

Ao lado de John “Trey” Rogers III, da Universidade Estadual de Michigan, Sorochan passou a liderar uma iniciativa que ganhou proporções inéditas dentro da pesquisa em gramados esportivos. O objetivo não era somente produzir uma boa superfície, mas criar um sistema capaz de funcionar em diferentes altitudes, temperaturas, índices de luminosidade e tipos de estádio, sem alterar o comportamento da bola nem a segurança dos atletas.

O desafio da uniformidade

Na prática, a FIFA queria eliminar uma das variáveis mais imprevisíveis do torneio. Historicamente, a experiência dos jogadores muda de acordo com a cidade em que atuam. Temperatura, solo, drenagem, espécie de grama e intensidade de uso influenciam diretamente o rolamento da bola e a resposta do campo aos movimentos dos atletas. A meta dos pesquisadores era reduzir essas diferenças.

“A primeira coisa era uniformidade e consistência. Como conseguir isso nos 16 estádios, nos centros de treinamento e em todas as instalações envolvidas?”, afirmou Sorochan.

A tarefa ganhou contornos ainda mais complexos porque os estádios da Copa estão distribuídos entre regiões completamente distintas. Há locais de clima quente, como Miami e Monterrey. Há cidades mais frias, como Vancouver. Há arenas abertas. Há arenas cobertas. Há estádios instalados em altitude elevada. Segundo integrantes do projeto, a missão era fazer todos os campos se comportarem da mesma forma.

O que estamos tentando fazer é que todos os campos joguem do mesmo jeito. Em Miami, Vancouver ou Cidade do México, provavelmente existem três tipos diferentes de condições. Nosso objetivo é fazer com que o sistema instalado produza uma resposta semelhante em todos eles.”

Para atingir esse resultado, as universidades dividiram os estádios em grupos climáticos e desenvolveram combinações específicas de espécies de grama. Locais mais quentes receberam gramas bermuda. Estádios cobertos e regiões mais frias receberam uma combinação de Kentucky bluegrass e azevém perene. Mas a espécie escolhida era apenas parte da solução.

O retorno de uma tecnologia esquecida

Grande parte do projeto está baseada em uma técnica agrícola criada há cerca de três décadas. Conhecida como sod-on-plastic, ela consiste em cultivar a grama sobre uma camada plástica coberta por poucos centímetros de areia. À primeira vista, parece um detalhe, mas na prática muda completamente o sistema radicular da planta.

Quando as raízes encontram o plástico, passam a crescer lateralmente, formando uma espécie de tapete compacto. Diferentemente da produção convencional, não é necessário cortar as raízes durante a colheita. O resultado é um gramado que pode ser enrolado, transportado por milhares de quilômetros e instalado sem sofrer os danos normalmente associados ao transplante.

Ciência sob Chuteira: Como a FIFA Reinventou os Gramados da Copa de 2026
Unv.Tennnesse/DivulgA grama é cultivada sobre um tipo de plástico

Para a Copa, a tecnologia recebeu aprimoramentos importantes. Por exemplo, o manejo ficou mais sofisticado. As recomendações de corte passaram a ser diárias. Fibras sintéticas foram incorporadas para reforçar a estrutura e sistemas de monitoramento passaram a acompanhar o desenvolvimento do gramado do plantio até a instalação final.

“É praticamente um produto pronto para o dia do jogo”, afirmou Sorochan.

As universidades estimam que cerca de 142 quilômetros de tapetes de grama natural foram produzidos para atender à Copa. Boa parte desse material percorreu longas distâncias em caminhões refrigerados até chegar aos estádios.

O estádio virou laboratório

Se cultivar a grama já exigia precisão, mantê-la viva dentro de determinados estádios apresentou um desafio ainda maior. Algumas arenas recebem pouca ou nenhuma luz solar direta. Em Atlanta, Houston e Los Angeles, por exemplo, pesquisadores precisaram desenvolver protocolos específicos para compensar a limitação de luminosidade. A solução envolveu iluminação artificial.

As equipes criaram combinações específicas de intensidade, espectro e tempo de exposição para reproduzir condições ideais de crescimento. A inauguração de um centro de pesquisas dedicado ao projeto ampliou a capacidade dos pesquisadores de testar cenários diferentes.

Ciência sob Chuteira: Como a FIFA Reinventou os Gramados da Copa de 2026
Unv.Tennnesse/DivulgAs universidades viraram laboratórios

“Agora conseguimos manter temperaturas constantes, distribuir luz artificial e trabalhar durante o ano inteiro. Não existe mais uma limitação sazonal para a pesquisa”, explicou Rhys Fielder, também nos vídeos publicados pela Universidade do Tennesse. Ele é pesquisador da área de gramados esportivos da universidade e atua como líder operacional das pesquisas da FIFA para a Copa do Mundo de 2026

O trabalho foi tão amplo que acabou transformando os próprios estádios em extensões dos laboratórios universitários. Cada instalação passou a funcionar como um experimento em escala real. Os pesquisadores monitoraram comportamento da bola, absorção de impacto, tração, umidade, compactação do solo e recuperação após uso intenso.

“O aspecto mais importante para nós é a segurança dos jogadores”, afirmou Nikky Pappas, especialista em manejo de gramados e field director da NFL. No mesmo vídeo, ele afirma que “a pesquisa permite transformar observações em métricas que podem ser medidas e utilizadas na gestão do campo.”

Uma solução além da Copa

Ao longo do projeto, surgiu uma inovação que pode produzir impactos muito além do futebol. Trata-se do uso de estruturas plásticas chamadas Permavoid. Originalmente desenvolvidas para drenagem, elas passaram a funcionar como uma espécie de piso intermediário entre o concreto dos estádios e o gramado.

Os testes mostraram resultados surpreendentes, mesmo utilizando uma camada de areia muito menor do que a empregada em sistemas tradicionais, o desempenho permaneceu semelhante. A diferença está no peso, com uma estrutura que ficou entre 70% e 80% mais leve. Além disso, pode ser instalada e removida rapidamente.

Os pesquisadores conseguiram montar um campo completo em aproximadamente 17 horas e desmontá-lo em cerca de sete horas. Para arenas multiuso, a mudança abre possibilidades importantes. Por exemplo, um estádio poderia receber uma partida, retirar o gramado e voltar a sediar shows ou outros eventos poucos dias depois.

Embora o futebol seja o principal beneficiado neste momento, os efeitos econômicos podem atingir diretamente o setor agrícola. A produção de grama esportiva ainda ocupa um espaço relativamente pequeno dentro do agronegócio norte-americano e também em outros países como o Brasil. Segundo a Associação Nacional Grama Legal, o segmento de gramados esportivos representa uma parcela pequena da gramicultura brasileira. Os maiores volumes continuam concentrados em paisagismo, jardins, obras viárias, aeroportos e outras aplicações funcionais. No caso dos EUA, por exemplo, existem menos de 20 produtores especializados em sod-on-plastic. Mesmo assim, o número triplicou desde 2021.

Mas o interesse começa a aparecer fora da América do Norte. Além de Canadá e México, a tecnologia já chegou ao Brasil, que sediará a próxima Copa do Mundo Feminina, e desperta atenção em países europeus.

Para os produtores, a expansão representa uma oportunidade de diversificação. Campos esportivos e instalações de golfe já respondem por parcela importante do consumo de grama especializada nos EUA. Isso significa que o avanço da tecnologia pode ampliar esse mercado. E há ainda uma vantagem frequentemente destacada pelos pesquisadores.

Como a grama é cultivada sobre plástico, não há necessidade de remover camadas superficiais de solo fértil durante a colheita. Isso permite utilizar áreas consideradas marginais para a agricultura convencional. “Sempre disse que isso poderia ser feito no estacionamento de um shopping abandonado”, afirmou Rogers.

Para as universidades envolvidas, o projeto já produziu um legado permanente. O investimento permitiu ampliar laboratórios, desenvolver novas metodologias e acelerar pesquisas que provavelmente levariam décadas para sair do papel.

“Algumas das coisas que estamos fazendo são pioneiras. Nunca tinham sido feitas antes”, afirmou um dos integrantes do projeto. A percepção é compartilhada por dirigentes ligados ao torneio. Sorochan concorda. Após cinco anos acompanhando cada etapa do projeto, ele enxerga a competição como apenas uma parte da história. “O grande ponto é o legado. O impacto positivo da FIFA vai muito além do futebol”, afirmou.

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