Na agricultura, há processos que acontecem fora do campo visível, mas que, com o tempo, deixam marcas inequívocas no solo, na produtividade e, sobretudo, na conta do agricultor. Os nematoides habitam exatamente esse território.
Ao longo das safras, aquilo que parecia pontual revela um padrão, e o impacto passa a ser econômico, muitas vezes associado a desequilíbrios no sistema. Estimativas da Sociedade Brasileira de Nematologia apontam que os prejuízos causados por nematoides no Brasil ultrapassam R$ 65 bilhões por ano.
O inimigo invisível do sistema radicular
Embora invisíveis a olho nu, os nematoides podem ser entendidos como “interferências silenciosas” do sistema produtivo. São organismos microscópicos, semelhantes a pequenos vermes, que vivem naturalmente no solo.
Muitos deles exercem funções importantes no equilíbrio biológico, mas algumas espécies desenvolveram uma relação parasitária com as plantas. Funcionam como invasores altamente especializados: perfuram raízes, desviam nutrientes e criam microlesões que comprometem o funcionamento radicular.
É como se a planta passasse a operar com parte de sua infraestrutura danificada. Mesmo com adubação, chuva e manejo adequados, sua capacidade de absorver água e nutrientes, bem como de sustentar a produtividade, deixa de funcionar em máxima eficiência.
Nativos do solo, esses organismos estão presentes na grande maioria dos ambientes agrícolas. O que transforma sua presença em prejuízo é o contexto em que se inserem. Em sistemas fragilizados, encontram condições ideais para se multiplicar e interferir diretamente no funcionamento radicular.
Espécies como Meloidogyne spp., Pratylenchus brachyurus e Heterodera glycines estão amplamente distribuídas e documentadas. Em ambientes onde se somam estresses como déficit hídrico, compactação e baixa qualidade biológica do solo, os danos se intensificam e passam a comprometer a eficiência do sistema como um todo.
Os limites do manejo tradicional
Durante muito tempo, a resposta a esse cenário foi predominantemente química e, em grande parte, reativa. Embora relevante, essa abordagem raramente foi suficiente para restabelecer o equilíbrio do sistema.
O manejo entrava depois do dano instalado, tentando reduzir um prejuízo que, em muitos casos, já havia comprometido o potencial produtivo da lavoura. Esse modelo, baseado em correção e não em construção, começou a mostrar seus limites.
O que se consolida agora é uma mudança mais profunda, que vai além da substituição de ferramentas. O solo passa a ser compreendido não apenas como suporte físico, mas como um sistema biológico ativo, cuja saúde define o desempenho da lavoura.
Nesse contexto, tecnologias como os bionematicidas ganham relevância por atuarem não apenas no controle, mas na reorganização da rizosfera e na construção de um ambiente mais equilibrado.
A biologia a favor da resiliência
Os bionematicidas competem por espaço, produzem metabólitos, estimulam o crescimento radicular e contribuem para uma dinâmica biológica mais estável. O efeito ultrapassa a supressão dos nematoides e alcança a construção de um sistema mais resiliente e eficiente ao longo do ciclo.
Na prática, deixam de atuar apenas no problema e passam a atuar no ambiente onde o problema se estabelece.
Esse movimento acompanha a evolução do próprio agro. Dados da CropLife Brasil mostram expansão de 16 milhões de hectares entre 2024 e 2025 no uso de bionematicidas, que se consolidam como um mercado maduro e integrado aos protocolos de manejo sustentável.
O solo como ativo biológico estratégico
Talvez a mudança mais relevante seja conceitual. O solo deixa de ser visto apenas como suporte e passa a ser entendido como um ativo biológico.
E ativos, no agro, têm valor. Áreas com alta pressão de nematoides carregam perda estrutural de rentabilidade. Solos biologicamente empobrecidos aumentam a dependência de insumos. Sistemas desequilibrados tornam-se progressivamente mais caros e menos eficientes.
Nesse cenário, o uso de bionematicidas deixa de ser uma escolha tática e passa a integrar uma estratégia de preservação do potencial produtivo.
Não substitui outras práticas, mas se soma a elas, criando um sistema mais estável, responsivo e previsível. O produtor que entende essa lógica deixa de atuar apenas na correção e passa a atuar na construção.
No fim, a pergunta muda. Deixa de ser sobre quanto custa aplicar e passa a ser sobre quanto custa ignorar o que acontece abaixo da superfície. Porque é ali, no espaço onde a lavoura não aparece, que o resultado começa a ser construído.
*Talita Cury é empresária e sucessora do Grupo Santa Clara, com mais de 20 anos de experiência no setor. Formada em Direito com especialização em Direito do Agronegócio e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. Atualmente exerce a função de Conselheira de Administração do Grupo Santa Clara e está à frente das Relações Institucionais da companhia, além de atuar na estruturação da pasta ESG, do planejamento estratégico, da sucessão familiar dos negócios, assim como atuar nos comitês de riscos e de crédito&cobrança.
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