A crise climática se manifestou com intensidade na América Latina em 2025, com episódios de calor extremo “sem precedentes”, temperaturas acima da média, redução das geleiras andinas e aumento do nível do mar em ritmo mais acelerado que a média mundial em algumas áreas da região.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), organismo das Nações Unidas, divulgou, em Brasília, o relatório sobre o estado do clima na América Latina e no Caribe em 2025, que destaca uma tendência de aquecimento mais intensa combinada com chuvas mais extremas.
“O México apresentou um grau maior de aquecimento e América Central e América do Sul estão entre os cinco anos mais quentes registrados desde o início das medições”, afirmou José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) do Brasil, autor principal do relatório.
Ondas de calor e secas prolongadas
A América Latina e Caribe, lar de quase 700 milhões de pessoas, registrou no ano passado “ondas de calor recorrentes e intensas”, com temperaturas muito acima dos 40 °C em amplas áreas da América do Norte, América Central e América do Sul.
Para alguns desses episódios não houve precedentes, como os 52,7 °C registrados em Mexicali, novo recorde no México, ou a máxima histórica registrada na cidade brasileira de São Paulo (37,2 °C).
No Rio de Janeiro, os termômetros chegaram perto dos 45 °C, assim como em Mariscal Estigarribia (Paraguai).
As ondas de calor e as secas, que também atingiram amplas áreas latino-americanas, pressionam os sistemas de saúde pública e já causaram grandes perdas na produção de alimentos, segundo Marengo.
Também resultaram em perdas humanas. Segundo dados reunidos pela OMM, estima-se que entre 2012 e 2021 ocorreram aproximadamente 13 mil mortes anuais atribuídas ao calor na região.
Para este ano, a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, alertou em um vídeo divulgado durante o lançamento do relatório que está cada vez mais provável que o fenômeno El Niño seja “intenso”, o que pode provocar grandes mudanças no regime de chuvas nos próximos meses.
Oceanos mais quentes e recuo das geleiras
Além do território continental, o aquecimento dos oceanos continua em toda a região, segundo a OMM.
No mar do Caribe e no Golfo do México, as temperaturas da superfície da água observadas em 2025 nunca haviam alcançado níveis tão altos. Também foram registrados valores históricos ao longo da costa do Chile.
O aquecimento dos oceanos também contribui para a elevação do nível do mar, que está aumentando em ritmo mais acelerado que a média mundial em algumas áreas banhadas pelo Atlântico tropical e pelo Caribe.
“A maior parte das cidades da América Latina está em áreas costeiras e a elevação do nível do mar favorece a intensificação dos ciclones”, explicou Marengo.
Por trás do aumento do nível do mar também está a redução das geleiras andinas, que abastecem a bacia Amazônica e outros grandes sistemas fluviais da região para cerca de 90 milhões de pessoas.
O relatório alertou que essas geleiras estão perdendo massa de gelo em “ritmo acelerado”, fenômeno agravado pelo aumento da demanda por água.
Ciclones tropicais ‘devastadores’
De acordo com dados dos últimos 50 anos, muitas partes da América Latina caminham para períodos secos mais longos e eventos de chuva mais intensos.
Assim, em vários países foram registradas em 2025 fortes precipitações que provocaram enchentes repentinas, deslizamentos de terra, inundações e, como consequência, dezenas de mortes, milhares de evacuados e perdas econômicas consideráveis.
Entre os casos mais notórios está junho de 2025, que foi o mês mais chuvoso já registrado no México, enquanto as precipitações na Venezuela superaram no ano passado em cerca de 300% os valores normais para o país.
Por outro lado, formaram-se 18 tempestades nomeadas no Pacífico Oriental e 13 na bacia do Atlântico durante a temporada de furacões de 2025, algumas especialmente destrutivas.
O furacão Melissa foi um dos mais potentes e o primeiro de categoria 5 a atingir a Jamaica.
Sua passagem pelo país deixou 45 mortos e perdas econômicas de cerca de US$ 9 bilhões (R$ 50,4 bilhões na cotação atual), equivalentes a 41% do Produto Interno Bruto do país.
“Todos esses impactos nos obrigam a transformar as informações científicas em decisões melhores, serviços climáticos melhores e sistemas de alerta precoce melhores para proteger nossas comunidades”, concluiu Julián Báez, diretor do Escritório Regional da OMM para as Américas. (Com EFE)
Publicado originalmente em forbes.co