Brasil e Austrália consolidaram-se como duas potências do sistema agroalimentar global, com papel estratégico no abastecimento mundial e amplo potencial de colaboração em inovação, sustentabilidade e organização setorial no agro.
Durante décadas, o crescimento do agro esteve associado à expansão de área, ganho de produtividade e escala. O Brasil tornou-se um dos maiores símbolos dessa evolução, consolidando liderança em cadeias como soja, cana-de-açúcar, café e proteína animal.
Porém, o atual cenário macroeconômico, marcado por juros elevados, pressão climática, volatilidade e maior seletividade de investimentos, exige uma nova lógica de gestão.
O lucro deixou de ser consequência automática da produção e passou a depender diretamente da eficiência operacional, da capacidade de adaptação e da articulação da cadeia.
Brasil e Austrália revelam, nesse contexto, uma complementaridade estratégica valiosa. Enquanto o Brasil demonstra enorme capacidade produtiva e diversidade agrícola, a Austrália se destaca na produção de trigo, carne bovina e ovina, cevada e lácteos, além de uma forte cultura de previsibilidade, gestão eficiente de recursos e planejamento de longo prazo.
Desafios globais e o impacto da geopolítica
Apesar das diferenças geográficas, os desafios convergem. Do Cerrado brasileiro ao Outback australiano, produtores convivem diariamente com mudanças climáticas, pressão sobre custos, instabilidade geopolítica e demanda crescente por inovação.
As recentes tensões no Estreito de Ormuz evidenciaram de forma concreta como o agro global está conectado à geopolítica. Brasil e Austrália sentiram impactos diretos sobre fertilizantes, combustíveis, logística e custos operacionais, reforçando que a segurança alimentar também depende de estabilidade internacional, coordenação estratégica e diálogo permanente com os governos.
Se agendas como eficiência hídrica, inteligência de dados, rastreabilidade e logística integrada tornaram-se pré-condições para a atração de investimentos e novos mercados, o avanço dessa nova era passa, obrigatoriamente, pela presença do produtor nos gabinetes de governo.
Levar a experiência prática do campo para a construção de pautas regulatórias garante que o agro do século XXI não seja meramente reativo, mas sim um agente ativo na formulação de políticas de segurança alimentar, sustentabilidade e competitividade global.
Sucessão familiar e articulação da cadeia
Com grande parte das propriedades rurais estruturadas em bases familiares nos dois países, temas como sucessão, profissionalização, renovação de lideranças e participação feminina tornaram-se essenciais para a continuidade sustentável da atividade agrícola.
Outro desafio crescentemente complexo está na articulação entre os diferentes elos da cadeia produtiva. A sustentabilidade do agro deixou de ser responsabilidade exclusiva do produtor rural e passou a depender da coordenação entre fornecedores, cooperativas, logística, indústria, varejo e consumidores.
Construir um agro pujante e soberano exige comunicação eficiente, organização setorial e alianças estratégicas, como as chanceladas pelos tratados bilaterais de pesquisa entre a Embrapa e o CSIRO australiano.
Convergência e o futuro do agronegócio
Brasil e Austrália possuem mais convergências do que diferenças e se posicionam como parceiros naturais diante do desafio comum de produzir alimentos de forma mais eficiente, sustentável e menos vulnerável em um mundo em transformação, que exige não apenas tecnologia, mas visão de longo prazo, capacidade de adaptação e integração entre território, pessoas, mercados e estabilidade institucional.
O futuro do agronegócio global não será medido apenas pela capacidade de produzir alimentos, mas pela habilidade de sustentar estabilidade diante de choques geopolíticos, climáticos e logísticos, o que exige cada vez mais que os países estejam do mesmo lado do jogo.
*Simone Silotti é consultora no agronegócio e palestrante. Atua em projetos ligados à sustentabilidade, governança e segurança alimentar. Reconhecida pelo IICA como Líder da Ruralidade das Américas, recebeu também o Prêmio Mulheres do Agro, o Prêmio Josué de Castro e foi destacada entre as 100 Mulheres da Forbes Agro.
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