As discussões para o Plano Safra 2026/27 estão a todo vapor. Com vigência programada para iniciar em 1º de julho, entidades do agronegócio, cooperativas e ministérios estão em fase intensa de articulação para definir volume de recursos e regras do crédito rural.
Segundo a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), o setor “tem operado sob forte pressão de custos, juros elevados, restrições financeiras, clima altamente instável e adverso” e, por essas razões, “vem mantendo a produção à custa de maior endividamento e redução de margens”.
A CNA entende que o Plano Safra 2026/27 “assume caráter decisivo” e que “não se trata apenas de ampliar recursos, mas de reestruturar e fortalecer os instrumentos de política agrícola.” O governo federal deve refinar os números com a equipe econômica para o anúncio oficial, esperado entre o final de maio e o início junho . O grande desafio será equilibrar a responsabilidade fiscal com a magnitude do subsídio exigido pelo campo, em especial num ambiente em que a Selic elevada encarece cada ponto percentual de equalização de juros bancado pelo Tesouro.
Vale registrar que a CNA é a maior organização de representação do setor agropecuário brasileiro, estruturada em três níveis: a confederação nacional, as 27 federações estaduais e mais de 2.000 sindicatos rurais municipais. Em um setor que responde por cerca de 25% do PIB e mais de 40% das exportações brasileiras, a confederação funciona como a principal voz institucional do produtor rural – de quem planta feijão no interior do Nordeste ao grande exportador de soja do Centro-Oeste.
Os principais eixos do debate estruturam-se da seguinte forma:
O volume de recursos: o agro pede R$ 623 bilhões
No dia 28 de abril, o presidente da CNA, João Martins, entregou pessoalmente ao ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, o documento com as dez propostas da entidade para o Plano Agrícola e Pecuário (PAP) 2026/2027. O principal pedido é R$ 623 bilhões em recursos para financiamentos — 53,5% acima dos R$ 405,9 bilhões do ciclo 2025/26 (base de comparação que exclui as Cédulas de Produto Rural). A divisão proposta pelo setor é:
Agricultura empresarial (médios e grandes): R$ 518,2 bilhões.
Agricultura familiar: R$ 104,9 bilhões.
Na introdução do documento, a CNA afirma que “o fortalecimento das políticas agrícolas deixa de ser apenas desejável e passa a ser condição necessária para a estabilidade da produção, o controle da inflação de alimentos e a garantia da segurança alimentar.”
O clamor pelo seguro rural
A segunda prioridade entregue ao ministro é a garantia de R$ 4 bilhões no orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), combinada à aprovação do Projeto de Lei nº 2.951/2024, que prevê a modernização do seguro rural.
Para a CNA, trata-se de instrumento vital diante de um clima “altamente instável e adverso”, que vem forçando os produtores a manter a produção ao custo de maior endividamento.
Previsibilidade: chega de plano “anual”?
Uma das propostas mais estruturantes da CNA é a construção de um novo modelo de Plano Agrícola e Pecuário plurianual. A justificativa está no próprio documento entregue ao ministro: “embora o PAP seja apresentado como um compromisso para todo o ciclo da safra, a implementação permanece atrelada a uma lógica anual, fragmentada e sujeita a interrupções, contingenciamentos e reprogramações ao longo do período produtivo.”
A entidade vai além e aponta o problema fiscal por trás da instabilidade: “a assimetria entre o calendário orçamentário e o agrícola prejudica a previsibilidade e dificulta o planejamento adequado das políticas públicas voltadas ao agro.” A programação plurianual, segundo a CNA, deve contemplar equalização de juros com sinalização prévia de recursos, subvenção ao seguro rural com horizonte de médio prazo e reserva programada para eventos climáticos severos.
Sustentabilidade e agenda verde (financiamento privado)
Nos programas de investimento agropecuário, a CNA pede prioridade para três linhas: o RenovAgro (voltado à sustentabilidade produtiva), o PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns) e o Proirriga.
No campo do mercado de capitais, a entidade propõe ampliar os fundos garantidores para operações de custeio e investimento e expandir os mecanismos de financiamento privado do agro — reconhecendo, de forma explícita, os limites fiscais do Tesouro para sustentar o crédito subsidiado em um ambiente de juros elevados.
Agricultura familiar em pauta
Os R$ 104,9 bilhões destinados à agricultura familiar não chegam sem condições. Uma das propostas da CNA é atualizar e ampliar os limites de Renda Bruta Agropecuária (RBA) para enquadramento no Pronaf, no Pronamp e nas demais categorias de produtores, uma medida que afeta diretamente quem pode ou não acessar as linhas subsidiadas. A construção das propostas, segundo a entidade, incluiu encontros regionais com federações estaduais, sindicatos e produtores nas cinco regiões brasileiras.
A questão dos juros
A CNA propõe, para o crédito de custeio, taxas diferenciadas: até 4% ao ano para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12,5% para os demais produtores. O setor agropecuário do Paraná vai além e pede redução de três pontos percentuais em relação ao ciclo atual — Pronaf entre 0,5% e 5% (era até 8%), Pronamp entre 7% e 9,5% (era 10%) e demais produtores entre 7,5% e 10% (era 14%).
O nó central está na capacidade de execução: no Plano Safra 2025/26, o governo anunciou R$ 516,2 bilhões, mas o Tesouro conseguiu equalizar juros para apenas R$ 113,8 bilhões — menos de um quarto do total. O restante ficou no papel. O vice-presidente Geraldo Alckmin reconheceu que os recordes nominais dos últimos planos safra concentraram-se no Pronaf, deixando médios e grandes produtores à margem do crédito subsidiado.