23/05/2026

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Do Rock À Uva, Como Pink Se Tornou Dona de um Vinhedo no Vale de Santa Ynez

Rótulos de vinhos de celebridades não são raros. A categoria cresceu tanto nas últimas duas décadas que o setor passou a olhar para o segmento com um certo desdém e cansaço. O arranjo é simples: um nome famoso, uma vinícola contratada, um rótulo desenhado por um comitê e uma garrafa que vende pelo reconhecimento da marca, não pelo mérito do produto.

“Na maioria das vezes é ruim”, diz Alecia Moore, proprietária da vinícola Two Wolves Wine. “É apenas uma forma de ganhar dinheiro fácil.”

Ela diz isso sem ironia. Afinal, a empresária está falando sobre a sua própria categoria, e sabe exatamente o que a separa desse grupo.

“Eu tinha medo de que as pessoas pensassem que eu era uma palhaça”, afirma. “Apenas mais uma celebridade querendo colocar o nome em uma garrafa, contratar Michel Rolland, produzir um vinho de US$ 200 (cerca de R$ 1.000, segundo a cotação atual) e dar o trabalho por encerrado.” Ela faz uma pausa. “Eu realmente arregacei as mangas.”

Isso é um eufemismo. Alecia Moore, mais conhecida como P!nk, vencedora de três prêmios Grammy e uma das artistas mais vendidas de sua geração, comprou um vinhedo orgânico no Vale de Santa Ynez, na Califórnia, em 2013. A aquisição foi feita pela internet, sem visitas presenciais, enquanto ela estava em turnê pela Austrália. A primeira safra foi em 2014. Por anos, a cantora não contou o fato para quase ninguém.

Estudos nos bastidores de turnês e compra de vinhedo às cegas

Alecia Moore não cresceu bebendo vinho. “Eu achava que o vinho era um castigo nos jantares de fim de ano, de tão ruim que era.” A mudança ocorreu aos 20 anos, quando uma nova equipe de empresários, formada por homens que gostavam de bons vinhos e tinham orçamento para isso, passou a levá-la a restaurantes conceituados nos dias de folga das turnês.

Eles escapavam dos locais de shows e das academias de hotéis para visitar vinícolas. “Quando se viaja na frequência em que eu viajo, como é Budapeste? A sala de vapor da academia do hotel estava quebrada e o local do show era igual ao de Bucareste.” Visitar produtores de vinho nas viagens se tornou a sua forma de sair da rotina.

O Château Beaucastel interrompeu sua trajetória. “A bebida interrompe uma conversa”, diz ela. “A reação é: espere, o que é isso?” Ela se inscreveu nos cursos do Wine and Spirit Educational Trust e, posteriormente, na extensão da UCLA.

“Boa noite, Sydney!”, gritava ela no palco, para logo depois correr para os bastidores, abrir o notebook, posicionar as taças e começar a estudar.

“Eu abandonei o ensino médio”, relata, “porém acho que a educação é desperdiçada com os jovens. Precisamos encontrar partes de nós mesmos antes de mergulharmos de cabeça.” Ela encontrou a sua.

O trabalho noturno permitia uma imersão global no mundo do vinho durante o dia. Ela visitou Peter Gago na Penfolds Wine, desceu até as adegas e ouviu histórias sobre o secreto Grange. Passou algum tempo com o falecido Charly Foucault no Clos Rougeard, no Vale do Loire, cujo Cabernet Franc se tornou uma de suas grandes referências.

Ela entrou na adega fria acompanhada por um tradutor. Foucault fingiu não falar inglês por duas horas inteiras enquanto ela fazia todas as perguntas possíveis. Foi quando ela fez a pergunta certa.

“Ele simplesmente começou a falar inglês fluentemente”, ri. “E eu fiquei pensando: saia daqui. Ele passou todo esse tempo me testando.” Ela perguntou se poderia ficar com as suas barricas de Cheval Blanc usadas uma única vez. Ele recusou. “Eu respondi: ótimo, vamos comer.”

Ela e o marido, Carey Hart, viajavam de motocicleta para Santa Ynez há 20 anos, degustando vinhos ao longo da rota, de forma tímida no início do quarteirão e terminando em festa no final da rua.

Por que o condado de Santa Bárbara? “Eu adorava a mentalidade dos agricultores e a natureza humilde de estar em uma região vinícola que poucas pessoas conhecem.”

Ela estava em turnê na Austrália quando encontrou a propriedade na internet. Mandou Carey ir até o local para avaliar. Ela comprou a área sem ver pessoalmente. “Acontece que não existem acidentes”, conta. “Agora sou a guardiã de um dos pedaços de terra mais mágicos do mundo.”

O medo da rejeição no setor vinícola

Cortesia de Two Wolves WineP!NK revela que está tentando levar sua sócia na produção de vinhos, Alison Thomson, para o lado negro da força

Alecia Moore nunca teve a intenção de comercializar os vinhos. Ela produzia em uma garagem refrigerada, começando com apenas uma caixa plástica de colheita, por amor à atividade e pelo desejo de aprender. A enóloga Alison Thomson foi integrada como parceira e coprodutora após o que Moore descreve como uma entrevista disfarçada em um jantar.

“Ela não sabia que era uma entrevista”, conta Moore. “Apenas achou que eu era a pessoa mais curiosa que já tinha conhecido.” Thomson sentiu a conexão imediatamente. “Assim que começamos a trabalhar juntas, me senti em casa”, diz.

Após anos produzindo vinho em segredo, Thomson forçou uma decisão. “Ela me obrigou”, relata Moore. “Eu nunca iria lançar o vinho. Ficamos sem espaço. Eu sugeria doar o estoque para eventos escolares.”

Alecia Moore era travada pelo medo. “Eu tinha uma necessidade profunda de ser aceita pela comunidade do vinho, e não sei o motivo disso. Não sou uma pessoa que precisa de aceitação, nunca fui. No entanto, com o vinho, eu realmente queria uma chance justa. Queria trabalhar duro para conquistar esse espaço.”

Um lado mais vulnerável surge: “Eu tenho uma casca grossa, porém a pele mais grossa serve apenas para cobrir o centro mais mole. Sou muito sensível, de verdade.”

O tamanho esforço da cantora, rendeu bons frutos, pois a comunidade do vinho a acolheu.

“Literalmente todas as pessoas abriram as portas para mim, sem julgamentos. Talvez houvesse preconceitos, mas eles foram rapidamente descartados.”

Após um ano, ela parou a moto durante um passeio em Santa Ynez e chorou na beira da estrada. Carey demorou 30 minutos para notar que ela não estava atrás dele. “Eu pensava: não sei o que estou fazendo. Ninguém nunca vai me levar a sério.” Ele recomendou que ela insistisse por mais um ano. Ela seguiu o conselho.

Vinhedo orgânico certificado e foco na sustentabilidade real

A cantora comprou um vinhedo organicamente certificado, uma base que ela vem aprofundando de forma consistente. Ela é direta sobre os motivos dessa escolha.

“Você ouve histórias de terror sobre um trabalhador de vinhedo que teve a perna atingida por agrotóxicos e precisou amputar o membro. Histórias reais.” Ela vive na propriedade com os filhos, o que torna o tema muito concreto.

Thomson, que estudou ecologia restaurativa antes de se dedicar ao vinho, enxerga a fazenda como um sistema integrado.

“Como fazer deste o sistema mais saudável no nosso vinhedo e, ao mesmo tempo, gerar um impacto positivo na região vizinha?”

A equipe utiliza culturas de cobertura para apoiar insetos benéficos, plantios de variedades nativas, além de caixas para corujas e pássaros azuis. A saúde do solo é conduzida como um projeto de longo prazo.

“É onde tudo começa”, diz a enóloga. “Garantir que o nosso solo esteja saudável, com boa drenagem e nutrientes adequados.” Ela ressalta que a propriedade fica em uma área natural isolada, com uma das maiores densidades de aves do condado. “É uma região natural linda. Você coloca amor no vinhedo e ele devolve diretamente para você.”

Moore é muito consciente sobre o verdadeiro significado da palavra “sustentável” e as suas distorções. “Uma vez ouvi um produtor dizer: ‘Somos sustentáveis, eu pago a minha hipoteca’.” Ela faz uma pausa. “Eu pensei: nossa, que idiota.”

Liderança feminina: uma equipe formada inteiramente por mulheres

Cortesia de Two Wolves WineP!nk nunca teve uma mentora mulher; a indústria da música é dominada por homens. A vinícola Two Wolves foi o primeiro projeto em que ela trabalhou com mulheres no comando, como sua sócia na produção de vinhos, Alison Thomson

Alecia Moore estruturou a equipe da Two Wolves com cinco mulheres, por razões mais pessoais do que ideológicas.

“Na Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis), as mulheres representam 50% da turma de viticultura. Apenas 14% se tornam enólogas. Um dos primeiros comentários feitos para Alison em uma adega foi: ‘Mas você não consegue carregar um barril’. Depois, quando a mulher tem filhos, ela se torna não contratável, intocável. Pensam: ‘Ela vai ter um bebê, não vai estar aqui o tempo todo, não vou conseguir explorar essa pessoa’.”

Antes da Two Wolves, Moore nunca tinha tido uma mentora feminina. “Não havia mulheres ao meu redor. Eu era cercada por homens, que são maravilhosos, mas este foi o primeiro projeto em que trabalhei sob a liderança de uma mulher. E o sentimento de acolhimento foi imediato.”

Os almoços de sexta-feira são obrigatórios na empresa. “Quando nos reunimos, é uma irmandade. É lindo. Quero poder entrar na vinícola e reclamar do meu parceiro, e ver todas na sala fazerem o mesmo. Nós precisamos desse espaço.”

Thomson reflete sobre o que o projeto proporcionou e que ela não encontrava em outros locais da indústria.

“Houve um tempo em que achei que teria de deixar o setor do vinho porque não via compatibilidade. Não via ninguém que tivesse filhos pequenos trabalhando no período da colheita. Alecia me mostrou que isso era possível, oferecendo esse espaço para a família.”

A lenda por trás do nome da vinícola

O nome da vinícola tem origem em uma história de ensinamento que Moore carrega pela vida. Ela relata o conto com o cuidado de quem reflete sobre o assunto há muito tempo.

“É uma história que pertence a diferentes tribos”, explica. “Sempre conheci como uma lenda Cherokee.” Ela lembra que a Two Wolves fica em terras que pertenciam ao povo Chumash.

A história conta que uma avó explica à neta que dois lobos vivem dentro de cada pessoa, em guerra constante. Um representa a ganância, a inveja, a raiva, o ciúme, o egoísmo e o medo. O outro representa a curiosidade, a compaixão, a generosidade e o amor. A neta pergunta qual lobo vence a batalha. A avó responde: aquele que você alimentar.

“É sobre equilíbrio”, diz Moore. “Temos tudo isso dentro de nós, mas o que estamos alimentando hoje? Um dia pode ser melhor do que o outro.” Ela olha para Thomson com um sorriso. “Ela é a minha loba parceira”, brinca Moore. “Estou tentando trazê-la para o lado sombrio.”

A intenção inicial não era construir uma marca de legado, mas aprender. Os vinhos, cultivados em cerca de 10,1 hectares certificados como orgânicos no condado de Santa Bárbara, são produzidos em pequenas quantidades por uma equipe de cinco mulheres.

O resultado expressa uma década de trabalho sério, difícil e alegre. O Vale de Santa Ynez registra a maior concentração per capita de enólogas em comparação com qualquer outra região vinícola do mundo. Moore não sabia disso quando chegou ao local, de joelhos, em um mês de janeiro, segurando uma tesoura de poda. Ela sabe agora, porque conquistou esse direito.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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