A agenda do ministro André de Paula sinalizava que nesta quarta-feira (20) ele estava na 中华人民共和国农业农村部, que em português corresponde ao endereço Rua Nongzhanguan Nanli, nº 11, Chaoyang, Pequim, sede do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China. Esta foi sua primeira viagem internacional no cargo, um gesto nada protocolar e logo após Donald Trump ter estado no país, entre 13 e 15 de maio. O Brasil foi até a China dar um recado.
“Esta escolha traduz o reconhecimento da importância da China como principal parceiro comercial do agronegócio brasileiro e interlocutor estratégico para o futuro da nossa agropecuária”, disse André de Paula ao vice-ministro Jiang Chenghua. Do outro lado da mesa, Jiang devolveu com precisão aritmética. “O Brasil é o nosso principal fornecedor de carne, soja, algodão, açúcar e frango.”
Dois ministérios, dois dias de reuniões e uma corrente de comércio bilateral que fechou 2025 em US$ 171 bilhões – petróleo, minério, soja, carne – recorde histórico na relação entre os dois países. Somente o agro respondeu por US$ 55,22 bilhões. A missão acontece em um momento no qual a equação que sustenta esse relacionamento começa a ser reescrita por Pequim, com consequências que o setor produtivo brasileiro ainda não dimensionou por completo.
Dez dias antes, em 13 de maio, o 4º Congresso da Abramilho, em Brasília, reuniu no mesmo palco o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Luís Rua, representantes da CNA, da JBS e da Aliança Internacional do Milho para discutir um tema que já não admite eufemismos, a geopolítica. O que estava em pauta era o novo lugar do Brasil em uma ordem global que a China está construindo.
“Estamos no mesmo barco”
O embaixador Zhu subiu ao palco com uma frase que resume a doutrina de Pequim. “A China tem sido o maior mercado de exportações agrícolas do Brasil. O Brasil tem sido o maior mercado fornecedor de produtos agrícolas para a China. Estamos no mesmo barco. Precisamos fazer um esforço conjunto e remar para a mesma direção.”
A metáfora náutica não é inocente. O barco tem nome, a Belt and Road Initiative (BRI), conhecida como Nova Rota da Seda, o maior projeto de infraestrutura logística da história moderna, lançado em 2013 por Xi Jinping para conectar Ásia, Europa, África e América Latina por ferrovias, portos, rodovias e corredores digitais. Mais de 150 países aderiram. O Brasil, entre pragmatismo diplomático e cautela em relação aos EUA, mantém-se fora do acordo formal, embora dentro do jogo.
Em 2025, a BRI registrou o maior volume de acordos de sua história, US$ 213,5 bilhões, sendo US$ 128,4 bilhões em contratos de obras e US$ 85,2 bilhões em investimentos diretos, alta de 19% sobre 2024, conforme o Centro de Finanças Verdes e Desenvolvimento da Universidade de Fudan. Na América do Sul, a iniciativa tem um endereço preciso, o Porto de Chancay, no Peru, inaugurado em 2024 a 75 quilômetros de Lima, financiado pela estatal chinesa COSCO Shipping com 60% de participação, com capacidade para mais de um milhão de contêineres por ano e redução de 14 dias no tempo de transporte de grãos ao mercado asiático em relação à rota pelo Canal do Panamá.
Em julho de 2025, Infra S.A. e o Instituto Chinês de Pesquisa Econômica e de Planejamento Ferroviário assinaram memorando para estudar uma ferrovia bioceânica de 3 mil quilômetros ligando Ilhéus (BA) a Chancay, atravessando Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre e cruzando os Andes a mais de quatro mil metros. Os estudos seguem sem prazo de conclusão de uma obra avaliada em US$ 3,5 bilhões, com a promessa de redução de até 40% nos custos de exportação de grãos do Centro-Oeste.
A posição brasileira diante da Nova Rota da Seda é deliberadamente ambígua. O país não aderiu formalmente à BRI, preservando a relação com Washington. Ao mesmo tempo avança com projetos que são, na prática, peças da mesma arquitetura logística de Pequim, a ferrovia bioceânica, o corredor até Chancay, os memorandos com estatais chinesas.
“A segurança alimentar é uma questão global que requer esforços conjuntos. A China e o Brasil apresentam alta complementaridade no setor agrícola e possuem uma base sólida de cooperação”, resumiu Zhu Qingqiao. O que a missão de André de Paula mostrou é que essa complementaridade está entrando em uma fase mais exigente. A China quer protocolos regulatórios, biotecnologia, infraestrutura compartilhada e sustentabilidade certificável. O Brasil quer vender mais e melhor. A Nova Rota da Seda, com seus trilhos que ainda não existem e seus portos que já estão operando, é o tabuleiro onde esse negócio será fechado.
O 15º Plano Quinquenal e a releitura do apetite chinês
No congresso da Abramilho, o embaixador Zhu falou com cuidado sobre o 15º Plano Quinquenal (2026-2030), aprovado em março deste ano.
“O futuro da agricultura está na ciência e tecnologia. A China impulsionará ainda mais a construção de um sistema agrícola moderno, de alta qualidade e sustentável”, disse Zhu.
O que não disse, embora o texto do plano deixe explícito, é que a agricultura passou a ser tratada pela primeira vez na história dos planos quinquenais como questão de segurança nacional e existencial do Estado.
A advogada Claudia Costa, coordenadora do Comitê de Relações Internacionais da Sociedade Rural Brasileira (SRB), escreveu em análise publicada pela Forbes: “O plano aposta em ampliar a produção de grãos estratégicos como arroz, trigo e milho, além de fortalecer a carne suína e expandir a bovina. A meta é alcançar um incremento adicional de 50 milhões de toneladas métricas na produção.”
Os números desta equação são delicados para o Brasil. A China absorveu 80% das exportações brasileiras de soja em 2025, exatos 87,1 milhões de toneladas de um total de 108,7 milhões, recorde histórico. Na carne bovina, representa mais da metade das vendas externas brasileiras.
Qualquer alteração estrutural na demanda chinesa se traduz diretamente em oscilação de preços, receita cambial e rentabilidade do produtor brasileiro. Nas reuniões em Pequim, o ministro chinês Zhang Zhu reforçou a disposição de aprofundar parcerias em biotecnologia e sustentabilidade. André de Paula apresentou o Plano ABC+, o Programa Nacional de Bioinsumos e as pesquisas da Embrapa, em um discurso de complementaridade.
A sincronia regulatória como campo de disputa
Outro ponto é que no congresso da Abramilho emergiu um tema que raramente aparece nos releases oficiais, a assimetria no reconhecimento de biotecnologias aprovadas no Brasil e na China. “Um ponto central é a convergência, a harmonização regulatória do Brasil com a China. Esse é um assunto muito importante”, disse Mario Murakami, presidente da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança).
A edição gênica, técnica que há dez anos gerava ceticismo, hoje é realidade consolidada em múltiplos países, mas variedades aprovadas no Brasil podem não estar liberadas no mercado chinês, e lançar tecnologia sem aprovação no principal destino de exportação é risco comercial e legal. “A gente tem tecnologia aprovada aqui há mais de cinco anos que poderia me dar 10, 20, 30 sacas a mais por hectare, e não estou tendo acesso a ela”, disse Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho.
“O agronegócio brasileiro cresceu porque havia um sistema de regras internacionais que dava base para isso. Hoje não temos mais esse sistema vigente, valendo e respeitado”, disse Sueme Mori, diretora de Relações Internacionais da CNA. O secretário Luís Rua projetou otimismo. “Este ano o Brasil vai ultrapassar os Estados Unidos e se consolidar como o maior exportador de produtos agropecuários do mundo.”
A dependência de fertilizantes nitrogenados, com 80% de origem importada, foi citada como vulnerabilidade estrutural urgente, agravada pela China, que restringiu exportações do insumo para proteger seu mercado interno. Enquanto isso, o caminho em discussão, levado formalmente pelo governo à reunião bilateral em Pequim, é um protocolo de reconhecimento mútuo de aprovações biotecnológicas que encurtaria de cinco para um ou dois anos o prazo entre uma liberação no Brasil e seu uso em lavouras exportadoras.