21/05/2026

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Agora o Soro do Seu Whey Sai do Campo com Pegada de Carbono

A próxima dose de whey protein consumida em academias, hospitais, panificadoras ou produtos industrializados poderá carregar uma informação que até pouco tempo não existia no setor lácteo brasileiro: sua pegada de carbono. Um estudo desenvolvido pela Embrapa Gado de Leite, unidade de Juiz de Fora (MG), em parceria com a Sooro Renner Nutrição e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), criou um inventário ambiental do soro de leite e de seus derivados, conectando a produção no campo, o transporte e a indústria em uma única análise.

“A cadeia láctea brasileira acaba de dar um passo decisivo rumo à transparência ambiental e à eficiência produtiva”, afirma Vanessa Romário de Paula, analista da Embrapa Gado de Leite.

A mudança não envolve apenas números ou indicadores ambientais, porque o projeto altera a forma de olhar para um produto que durante décadas ocupou uma posição secundária dentro da indústria de laticínios. O soro de leite, hoje associado a suplementos esportivos e ingredientes alimentares, nasceu como um subproduto do processamento de queijos e durante muito tempo foi tratado como um problema operacional.

Mas este é um mercado que não pode ser desprezado. O mundo oe whey protein movimentou US$ 9,68 bilhões (R$ 54,7 bilhões na cotação atual) em 2025 e a projeção é alcançar US$ 17,53 bilhões (R$ 99 bilhões) até 2033, com taxa média anual de crescimento de 7,5% entre 2026 e 2033, segundo a consultoria Grand View Reserch, sediada em San Francisco, na Califórnia. A América do Norte liderou o mercado mundial em 2025, com participação de 35,6% da receita global. Entre as categorias de produto, o segmento de concentrado proteico do soro (WPC) respondeu por 40,5% do mercado, enquanto a área de nutrição esportiva representou 22% das aplicações.

O estudo e o desafio da produção

Nas fábricas, o descarte inadequado do soro líquido sempre representou um desafio. Rico em proteínas, lactose e matéria orgânica, ele possui elevada Demanda Bioquímica de Oxigênio, conhecida pela sigla DBO. Quando lançado de forma incorreta em cursos d’água, reduz rapidamente a disponibilidade de oxigênio, comprometendo ecossistemas aquáticos e afetando peixes e outras espécies.

A transformação desse material em ingrediente industrial alterou essa equação. Hoje o soro em pó tornou-se um componente estratégico em segmentos que vão da nutrição esportiva à indústria de alimentos processados. O que era passivo ambiental passou a representar valor agregado.

A novidade do estudo brasileiro está na metodologia utilizada. Os pesquisadores recorreram à Avaliação de Ciclo de Vida, conhecida como ACV, técnica utilizada internacionalmente para medir impactos ambientais potenciais ao longo de toda a existência de um produto. O processo é frequentemente chamado de análise “do berço ao túmulo”, porque considera todas as etapas intermediárias, desde a origem das matérias-primas até o produto final.

Na prática, a equipe não ficou limitada aos limites tradicionais da fazenda. O levantamento passou pela produção primária do leite, avaliou deslocamentos logísticos e chegou às etapas industriais que transformam o soro líquido em pó.

“Ao incluir os fluxos de transporte e as sucessivas transformações industriais, o projeto oferece um diagnóstico fiel do desempenho ambiental do setor. Assim é possível identificar onde estão os maiores gargalos de emissão de gases de efeito estufa”, afirma Thierry Ribeiro Tomich, pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

O trabalho ocorreu em duas frentes. Na primeira, pesquisadores mapearam sistemas de produção de leite ligados à base fornecedora da Sooro. O objetivo era construir uma tipificação representativa em aspectos geográficos e tecnológicos. Na segunda etapa, foram levantados dados diretamente nas indústrias e laticínios parceiros, identificando consumo energético, processos produtivos e movimentação logística.

Os resultados revelaram um dado que desloca parte das atenções para dentro das propriedades rurais. Segundo o estudo, aproximadamente 85% das emissões totais associadas à produção de soro em pó acontecem ainda no campo. Isso significa que mudanças relacionadas ao manejo, alimentação do rebanho, eficiência produtiva e gestão da fazenda podem gerar impactos superiores aos obtidos por alterações industriais ou de embalagem.

Segundo a Embrapa, sistemas mais eficientes tendem a reduzir emissões relativas. Desde 2023, a instituição utiliza a metodologia ACV em estudos ligados ao leite e identificou que fazendas com maior produção por hectare ou por vaca apresentam menor pegada de carbono por unidade produzida. A relação entre produtividade e sustentabilidade aparece como um dos pontos centrais das pesquisas desenvolvidas pela empresa.

O levantamento também produz um efeito que ultrapassa a indústria do leite. Os dados gerados foram disponibilizados gratuitamente na plataforma SICV Brasil, mantida pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, o IBICT. A abertura dessas informações cria uma base pública para pesquisadores, empresas e formuladores de políticas ambientais.

“Essa iniciativa permite que outros pesquisadores, indústrias e órgãos governamentais utilizem dados reais da produção brasileira para outros projetos de ACV, facilitando tomadas de decisão”, afirma Thiago Oliveira Rodrigues, pesquisador do IBICT.

A iniciativa também conversa com compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, entre eles o Compromisso Global de Metano, que estabelece meta de redução de emissões até 2030, além dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A próxima etapa do projeto prevê recomendações para mitigação de gases de efeito estufa ao longo da cadeia láctea.

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