Três dias em Nazário, cidade do interior goiano a 70 quilômetros de Goiânia, foram suficientes para mostrar por que o JBJ Ranch se tornou um dos maiores leilões de cavalos Quarto de Milha do país, ou Quarter Horse, como é chamada a raça originária nos Estados Unidos. Entre 15 e 17 de maio, 142 animais mudaram de dono a uma média de R$ 1,8 milhão, totalizando R$ 257 milhões em negócios. O crescimento em relação à edição anterior chegou a 57% na média por animal. Para um projeto que estreou em 2022 com faturamento de R$ 9,365 milhões, o resultado tem a dimensão de uma virada de mercado.
“Foi uma grande surpresa para nós. A gente acabou faturando mais de R$ 100 milhões a mais do que estava projetado”, disse Fabrício Batista à Forbes. À frente da operação do JBJ Ranch, Batista tem 41 anos, é filho de José Batista Júnior, o Júnior Friboi, e neto de José Batista Sobrinho, fundador da JBS. A projeção para este ano era de R$ 150 milhões.
O resultado não foi obra do acaso. Para Batista, a combinação de público qualificado e novos investidores explica o salto. “Tivemos uma qualidade de público muito grande, tanto de pessoas que já são do negócio como novos investidores. O leilão é só o final do trabalho, mas o trabalho é diário nessa conquista desse público”, disse ele.
Os novos compradores vêm de mercado financeiro, mineração, indústria e commodities. Batista não recruta apenas dentro do universo equestre.
“Qualquer raça só funciona com pessoas novas entrando. Os criadores antigos vão ficando antigos, vão parando e os novos vão entrando e vão fomentando”, afirmou. E quem entra tende a ficar. “A maioria das pessoas que investem continua criando, continua investindo, e é por isso que a raça vai crescendo.”
O momento mais alto da edição não foi uma venda comum. O garanhão Inferno Sixty Six, ícone da modalidade Rédeas e produtor de campeões em competições internacionais, teve 50% de sua propriedade negociada por R$ 44 milhões, elevando a avaliação total do animal para R$ 88 milhões. O lance foi fechado pelo Haras Frange, que pertence ao advogado e criador Antônio Frange Júnior, de Cuiabá (MT).
Outra negociação de destaque foi a venda de 50% da matriz Lonesome At The Top por R$ 10,8 milhões, avaliando a égua em R$ 21,6 milhões. A edição marcou ainda o lançamento de pacotes de cobertura dos garanhões Gunnatrashya e Spooks Gotta Whiz, dois dos principais nomes da modalidade no mundo.
O JBJ Ranch está instalado na Fazenda Floresta, uma das 14 propriedades do grupo JBJ em Nazário. Nos 3 mil hectares da área, o haras com baias, piquetes, pista coberta e laboratório de reprodução genética divide espaço com operações de confinamento e melhoramento de gado Nelore. Durante o leilão, a fazenda recebe centenas de convidados.
Pelo grau de investimento, a trajetória do JBJ Ranch não tem paralelo no mercado equestre brasileiro. Em cinco edições, a receita acumulada nos seus leilões quase encosta em R$ 500 milhões. De R$ 9,365 milhões na estreia dessa grife de leilão, o faturamento passou para R$ 17,53 milhões em 2023, R$ 49,658 milhões em 2024 e R$ 128,485 milhões em 2025, quando a média ultrapassou R$ 1 milhão por animal pela primeira vez.
Batista diz que naquele momento, se fosse questionado, falaria que seu negócio havia encontrado o teto. “O ano passado foi o primeiro leilão do Brasil na história a cruzar a barreira dos R$ 100 milhões. Quando a gente fez isso, achei que seria impossível evoluir mais”, disse. A edição de 2026 mostrou o contrário. “Tem um espaço ainda gigantesco para ser explorado”.

O criatório foi estruturado em 2020, durante a pandemia, com investimento inicial de R$ 30 milhões, metade em infraestrutura e metade na formação do plantel genético.
A expansão para os Estados Unidos foi determinante para a credibilidade do projeto. Em 2025, o JBJ Ranch adquiriu uma propriedade em Pilot Point, no Texas, polo mundial de criação de cavalos de performance. Para Batista, a presença física no país de origem da raça mudou a percepção do mercado.
“A mensagem que passada é que nós não estamos especulando, não estamos brincando. Colocando os nossos pés lá com propriedade própria e criação própria, as pessoas entenderam que isso é um projeto sério e isso acaba criando mais credibilidade e mais confiança dos compradores”, disse à Forbes.
Nos Estados Unidos, o Quarto de Milha ocupa posição dominante dentro da indústria equina, a maior do mundo. A raça está presente desde ranchos de gado até competições esportivas e programas de reprodução genética. Seu peso ajuda a sustentar um setor que movimenta cerca de US$ 177 bilhões por ano (cerca de R$ 956 bilhões na cotação atual) e mantém 2,2 milhões de empregos diretos e indiretos, envolvendo atividades como criação, treinamento, medicina veterinária, reprodução, turismo, nutrição animal, eventos e leilões. O Quarto de Milha é a raça mais difundida do país, com mais de 6 milhões de registros históricos e estimativas de cerca de 2 milhões de animais em atividade nos EUA.
Batista afirma que no Brasil seu negócio tem um apelo e diferencial que vai além da além da genética. Em vez de vender animais inteiros, o rancho comercializa cotas. Um investidor pode adquirir 25%, 33% ou 50% de um animal de alto valor, enquanto o JBJ Ranch mantém o animal e faz a gestão do projeto. “É como se o JBJ Ranch fosse um fundo de investimento. A pessoa compra uma cota, a gente gesta e dá o retorno. Ela é de fato dona e participa dos resultados”, explicou Batista.
Segundo o executivo, o modelo foi criado para democratizar o acesso à genética de elite. “A pessoa, quando entra na criação, geralmente não tem estrutura. Ou às vezes ela não tem capital para comprar 100% daquele animal, mas tem capital para comprar 25%. Ela compra os 25%, é de fato dona, participa dos resultados e ainda deixa a gestão profissional para nós”, disse ele.
O que ele não disse durante a entrevista à Forbes é que para certos animais, muitos criadores se recusam a ficar sem a genética embarcada nos programas de seleção. Mas fato é que de modo geral, com o tempo e resultado, o investidor vai montando sua própria estrutura, comprando área, construindo baias e centro de treinamento. “Como toda empresa, você vai crescendo à medida que tem resultado e confiança dentro daquele segmento”, afirmou Batista.
A abertura do leilão do último final de semana contou com ação beneficente protagonizada pelo cantor Gusttavo Lima, que leiloou uma potra por R$ 1,1 milhão e destinou o valor integral ao Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás.