18/05/2026

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Leilão de R$ 2,6 Milhões Mostra Que a Nova Fronteira da Carne É o Marmoreio

Itaquiraí fica no extremo sul de Mato Grosso do Sul, encostada no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, a 400 quilômetros de Campo Grande. Itaquiraí não é lugar de passagem e para chegar até lá, a pessoa precisa querer ir. Na sexta-feira (15), com uma pista de pouso preparada para a aterrissagem de cerca de 20 aeronaves e um pasto transformado em estacionamento, o pecuarista Wilson Brochmann recebeu 700 convidados em sua fazenda para um dia de campo e um leilão que faturou R$ 2,6 milhões em 112 animais. Passava das 18 horas quando o leiloeiro anunciou o último animal que entrou no tatersal, quando foi encerrada uma programação que começou às 8 da manhã para o 2º Dia de Campo e Leilão Agropecuária Maragogipe.

Mas Brochmann não é um estreante. Ele está há 53 anos na pecuária, possui um rebanho de 30 mil animais, abate 20 mil por ano e quer chegar a 50 mil nos próximos três anos, todos terminados em confinamento. É um dos melhoradores de gado mais conhecidos do país, inquieto e sempre antenado no mercado. Para ele, o Brasil está entrando na era da carcaça bovina. É esse conceito que vai mudar a pecuária de patamar.

“O Brasil produz carne com ‘morte’. Vender a US$ 6 mil/US$ 6.200 a tonelada é carne com morte. O Brasil faz quantidade, mas faz muito pouca qualidade. Temos um potencial imenso, grandioso para produzir carne prime e isso vai depender de nós mesmos. Nós é que vamos ter que investir em genética, em melhoramento do gado, e fazer acasalamento dirigido com as características que o mercado internacional busca para pagar US$ 9 mil/US$ 10 mil a tonelada.” Vale registrar que a União Europeia pagou pela carne bovina desossada argentina US$ 11.441 por tonelada em junho de 2025 e US$ 12.710 no primeiro trimestre de 2026.

“O nosso parceiro frigorífico está nos acenando e pedindo que a gente produza mais animais diferenciados com a carne com marmoreio, para que eles possam atingir novos mercados, porque não estamos conseguindo atingir mercados com a quantidade exigida lá fora”, diz ele.

Não por acaso, Brochmann lança agora o Maragogipe Bi-Prime, um programa que mira o mercado de exportação de carne com marmoreio, e anuncia a construção de um boitel. Também não por acaso, depois de tantos anos na pecuária, somente no ano passado Brochmann decidiu fazer um leilão unicamente com seus animais.

Rafael Rodrigues_ArartMomento da venda do lote 1, o mais valorizado do leilão

Antes, vendia sempre em parceria com outros produtores. Ele sabe que tem mercado: em 2025 a receita da estreia foi de R$ 1,8 milhão, com 2026 crescendo 44%. Sabe também que mesmo com vendas pela TV, como ocorreu no sábado por meio do Canal do Boi, o leilão é um ponto de encontro e de relacionamentos.

Eles querem ser trilhar o mesmo caminho

Thiago Manfrim, 38 anos, é o veterinário e diretor da MEN Agronegócios, braço pecuário do Grupo Manfrim, fabricante da ração Special Dog, com faturamento de R$ 2 bilhões. Paulo Trentini, que vai fazer 42 anos e comanda a Fazenda Renovo em Alto Garças (MT), diz que a pecuária precisa de mais genética no pasto. Os dois chegaram com propósito: comprar genética de Wilson Brochmann, e saíram com o que vieram buscar, mas Manfrim levou mais do que esperava.

No leilão, as duas vacas mais valorizadas comercializadas pela Maragogipe foram arrematadas por ele: cerca de R$ 180 mil cada uma. Elas eram portadoras do CEIP, o Certificado Especial de Identificação e Produção, documento oficial emitido com autorização do Ministério da Agricultura e Pecuária que atesta pertencer o animal à elite genética do país – os melhores 20% a 30% de uma safra. Fêmeas com esse certificado garantem ao comprador maior rentabilidade, fertilidade e qualidade de carne no rebanho.
Manfrim não vende genética. Produz carne.

V.Ondei/ForbesThiago Manfrim levou as duas matrizes mais caras do pregão

O rebanho da MEN Agronegócios tem 8 mil bovinos em quatro propriedades de Mato Grosso do Sul, em um total de 14 mil hectares. O núcleo de seleção, com 1.200 matrizes, opera dentro do programa DeltaGen há sete anos, com foco em habilidade materna e ganho de peso e para 2027, planeja instalar um confinamento com capacidade para 22 mil animais em três giros anuais, em Nova Andradina. As duas vacas CEIP da Maragogipe entram agora no núcleo de seleção para acelerar o melhoramento genético pelo lado externo.

“Quando a gente só faz o melhoramento interno, o ganho é grande, mas quando traz genética de fora também, o ganho é exponencial e consegue se replicar muito mais rápido”, diz Manfrim.

No caso de Brochmann, há 26 anos, o núcleo de seleção da fazenda trabalha dentro do programa DeltaGen. São 2 mil matrizes classificadas por genotipagem e DEP de carcaça. As melhores, classificadas como Deca 1, 2 e 3, que é topo de 30% de uma base de 100 mil matrizes, ficam no melhoramento genético. As que vão de Deca 4 a 8 vão para cruzamento industrial com a raça Angus. As Deca 9 e 10 saem do rebanho (Deca 1, por exemplo, indica que o animal está entre os 10% melhores da raça para a característica avaliada e assim por diante).

Os animais são abatidos nos frigoríficos da JBS: machos na planta de Naviraí, a 50 km de Itaquiraí, e as fêmeas, que vão para a marca de carne 1953, em Campo Grande. Brochmann projeta acrescentar pelo menos 10% nas receitas dos animais abatidos com a nova linha prime, por meio do programa Maragogipe Bi-Prime, produzindo com marmoreio, as características que mercados como Japão e Estados Unidos pagam para ter. “O Japão vai ser um mercado ilimitado em quantidade e só quer qualidade. Estados Unidos e Japão, para mim, vão ser o auge em termos de valores por tonelada exportada”, afirma.

V.Ondei/ForbesVenda touros, a maioria para repasse de rebanho puro

O marmoreio no Nelore, que durante anos soou como promessa distante, Brochmann trata como realidade em construção. Na visão dele, precocidade e fertilidade caminham juntas com a deposição de gordura entremeada. Na Maragogipe, fêmea que não emprenha até os 14 meses é descartada. O programa de acasalamento dirigido, com uso de DEP de carcaça e genômica, existe para chegar aos animais que o frigorífico parceiro está pedindo e ainda não consegue receber em volume suficiente.

O padrão que vai separar os produtores

Paulo Trentini conheceu Brochmann em Rondonópolis, em um evento do programa Blackstone, da JBS, sistema de bonificação por qualidade de carcaça implantado na planta de Pedra Preta (MT), com expansão para mais seis plantas no Brasil anunciada neste ano. Aquele encontro o trouxe a Itaquiraí pela primeira vez, no leilão de 2025. Voltou agora para comprar mais touros de repasse.

A Fazenda Renovo tem 5 mil hectares dedicados à pecuária dentro de um grupo familiar com 20 mil hectares no Mato Grosso. O modelo é integração lavoura-pecuária, com soja, milho, braquiária e produção de sementes. Trentini cuida da pecuária. A irmã Patrícia toca a agricultura. O plantel é de 8 mil bovinos, com 3.500 matrizes e abate anual de 3 mil animais, entregues à JBS com contrato de fidelidade.

V.Ondei/ForbesPaulo Trentini foi na Maragogipe comprar touros

O plantel de touros de repasse é de 60 animais. No ano passado, Trentini comprou touros Caxambu, da linhagem central de Brochmann. Agora veio renovar, porque entende que na genética não existe retrocesso: ela avança ou perde para a concorrência.

O que levou Trentini até Itaquiraí tem o mesmo peso do argumento que o preocupa para os próximos anos. O programa Blackstone, da JBS, começa a estabelecer um padrão de pagamento diferenciado por carcaça com marmoreio. Quem não tiver o animal certo para entregar ficará de fora. “Não basta colocar um sêmen de Angus em uma matriz Nelore e dizer que a carne é macia. Vai precisar da matriz Nelore com qualidade também para ter marmoreio na carne”, diz.

Para ele, o animal que entrega carne de qualidade é quadrado, com arqueamento de costela, ossatura pesada, rebaixado, precoce e com gordura entremeada identificada por ultrassom na área de olho e lombo. “O boi China é um assunto. Carne de qualidade é outro. Quem não se adequar vai ficar para trás. Dentro de cinco, dez anos, quem não tiver essa carne estará fora do mercado.”

O leiloeiro e o leilão que voltou a lotar

Quem coordenou o evento para Brochmann foi o experientíssimo Lourenço Campos, dono da leiloleira Central Leilões, de Araçatuba (SP), no setor desde 1977. Em mais de quatro décadas, estima ter realizado cerca de 4 mil leilões.

V.Ondei/ForbesLourenço Campo diz que informação e negócio caminham muito bem juntos

Lourenço diz que a fórmula que funcionou no evento da Maragogipe é antiga, mas que foi esquecida por um tempo: dia de campo com conteúdo técnico integrado ao leilão presencial. “Aprendi que informação e negócio caminham muito bem juntos”, diz ele. O leilão digital não substituiu o presencial, eles coexistem, “mas o presencial tem um ativo que a tela não entrega: o encontro entre pessoas que não se veem há tempo, a conversa que antecede a compra, a confiança que se constrói olho no olho”.

O mercado que recebeu o leilão da Maragogipe é um setor de bilhões. Segundo o Anuário DBO, única plataforma com banco de dados sistematizado sobre leilões de bovinos de genética no Brasil, a temporada de 2025 registrou recorde em volume e em receita: 104.509 lotes ofertados, entre machos, fêmeas, prenhezes e embriões, por faturamento total de R$ 3,05 bilhões, incremento de 33,2% em relação a 2024. Somente a raça Nelore respondeu por R$ 2,7 bilhões.

Os números traduzem uma demanda que Brochmann sente na prática. “O mercado é muito ávido. A nossa genética é muito consistente, muito reconhecida, e acho que a gente tem possibilidade até de aumentar a oferta”, disse o pecuarista.

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